segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A marca de que se fala

Tenho dois carros daquela marca e passei recentemente a conduzir outro de uma marca do mesmo grupo. Dos três, só este último poderá ser um dos que tem um dos motores em causa. Por formação tenho obrigação de perceber o que está em causa em tão grande polémica, pelo que me espanta tanta falta de informação e tanta tinta, sobretudo virtual, vertida sem que se faça a mínima ideia daquilo de que se fala. Ainda ontem, o comentador do regime, que ouço regularmente e respeito mas a quem atribuo o defeito de comentar tudo, aquilo de que sabe e o resto, veio falar em carbono, entendo que se referia a emissões de dióxido de carbono quando o que está em causa são as emissões de óxidos de azoto.

Não sei se há manipulação de resultados no caso dos Estados Unidos, já que a legislação de lá sobre os óxidos de azoto é muito mais apertada do que a europeia. Sei que nisto dos motores dos automóveis não há segredos e que se uns não cumprem os outros também não poderão cumprir. E também sei que qualquer alteração que haja será sempre no sentido de maior consumo de combustível e aplicação de dispositivos mais caros e com custos de manutenção mais elevados.
 
Cheira-me que ainda muito se vai falar e que a montanha, pelo menos no que ao continente europeu diz respeito, parirá mais um rato.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Chove que as nuvens negras a dão

Para saciar a terra ressequida. Agora que os tomateiros tinham aberto a primeira flor, sim, em setembro a primeira flor. Essa coisa das hortas urbanas não passa de um mito para compor textos bonitos em revistas que não interessam nem a cristo recém-nascido. Mas comi os pepinos, se é que lhes posso chamar isso, já que nunca os tinha visto já maduros com dez centímetros de comprimento.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Os genes

Passados vinte e oito anos os meus genes voltam à mesma escola dos grandes. Na realidade não é a mesma, mudou de local, agora é moderna, consta que muito maior, que eu só lá entrei duas vezes e não passei das salas mais próximas da entrada. Já não fica no centro histórico, agora estão lá outros, muito menos do que os dos cursos da ferrugem, do pó e das ciências ocultas que picam se encostamos a mão ao fio.
 
Sempre lhe disse que podia estudar o que quisesse mas era muito importante que o fizesse numa escola de referência. Teve a liberdade de escolher a que quis, ficar perto de casa teria vantagens, mas se quisesse ir para longe teria o nosso apoio. Foi colocado na mesma, não no mesmo curso, mas quis o destino que naquele para onde eu queria ir quase até à altura de fazer a escolha no papel que então se preenchia à mão, com esferográfica. Ainda que por razões diferentes, eu sonhava comandar as máquinas num cenário paradisíaco muito longe das grandes cidades, ele vê-se a bater teclas todo o dia e todos os dias a fazer sei lá bem o quê que faça funcionar telemóveis ou impeça os comboios de irem uns contra os outros ou nos faça pagar a passagem na autoestrada sem bem saber que nos foram ao bolso mais uma vez.
 
Estou muito contente e satisfeito, sinto que conseguimos ultrapassar uma das grandes barreiras que a função parental nos coloca. E estou muito orgulhoso do meu rapaz!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Salada grega

É melhor do que uma novela da TVI. Nessas, até a minha filha adolescente é capaz de adivinhar o que se vai passar a seguir, na Grécia tudo é completamente inesperado, nem os comentadores de fim de semana acertam um único palpite.

Se há uns dias pensava que o referendo seria o desempate por pontapés da marca da grande penalidade agora acho que, a realizar-se, será apenas mais um pequeno capítulo de uma trama que parece estar para lavar e durar. De volta às novelas, está naquela fase em que são anunciados os últimos capítulos, o que se faz quando ainda faltam uns três meses para acabar. À escala grega isso equivale aí a umas três décadas.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Senhora da Graça

Foi mais uma aventura. Saída de manhã cedo, não tão cedo quanto o calor previsto aconselhava, pedalada defensiva que o objetivo a isso obrigava. Uma escaramuça a subir à saída de Felgueiras, quando nos juntámos com um outro grupo até à entrada de Fafe e depois a subida da Lameirinha e o planar suave até Mondim. A Senhora lá olhava para nós, ainda fomos até ao início da subida e alguns, que não eu, prosseguiram até à bica. Tivesse quem me trouxesse de volta depois da descida e teria sido desta que lá tinha subido, mas como não tinha outra coisa planeada que o regresso pelo mesmo meio, lá ficou tão desejada subida adiada para melhor dia. Quando cheguei ao final, 190 km depois da partida, eatava com pedalada para tentar a subida, caso ela estivesse à minha frente. Mas isto é como os melões, só depois de abertos se sabe se são doces.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Das viagens em espaços fechados


Não te rias, não agora, há poucas coisas mais excitantes do que uma mulher nua deitada de bruços, deixa-me olhar-te bem, sabes que gosto de encher os olhos e tens muitos pequenos detalhes por onde me possa perder, o formato longo do segundo dedo do teu pé, o espaço entre esse e o dedo maior, que a minha língua preenche enquanto te contorces, não mexas esse pé porque sei que queres mais e eu não quero ficar com um olho negro, os altos dos outros dedos, que percorro agora qual trepador em contagens de segunda e terceira categoria, espraio-me de seguida ao longo da linha exterior do teu pé de planta alva, faço um círculo em redor do tornozelo e prossigo por cima do tendão de Aquiles, que rapidamente se transforma numa linha imaginária no lugar da costura dos collants usados pelas pin-ups americanas dos anos cinquenta, chego ao vinco atrás do joelho e deixo que o meu queixo se afunde entre eles, levantando os olhos para mais uma visão paradisíaca, o traço rosado e já brilhante, de rebordos escuros, as suaves elevações simétricas, regresso às depressões suaves que a minha língua afaga em vários movimentos rápidos, antes de voltar a subir vagarosamente de volta à linha central, deixo que a respiração profunda assinale o caminho enquanto a ponta do meu nariz serve de batedor. Termino a lenta ascensão e faço uma deriva sem pressas para o centro nevrálgico do turbilhão em crescendo. Permito às minhas mãos abertas o deleite do toque e, sôfregas, elevam um pouco cada uma das nádegas que sinto enrijecerem. De novo o meu queixo se posiciona sobre o eixo de reflexão e deixo que os meus lábios em círculo reduzido iniciem um sopro refrescante de velocidade elevada.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A propósito da pão de forma


Eram seis. Deram dez contos cada um e compraram uma pão de forma, ferrugenta no exterior e com alguns buracos no chão, mas em boas condições mecânicas, não fosse aquele motor de cilindros horizontais opostos indestrutível. Mandaram fazer uma revisão e meteram-se a chapeiros e pintores para tapar os buracos e dar-lhe um aspeto mais apresentável, o que rendeu umas tardes de alegria e brincadeiras, próprias de quem terminava os estudos e tinha a vida pela frente. Cenas divertidas ficaram várias, desde pegar à primeira no cimo da Penha depois de o BMW novo estacionado ao lado não o ter conseguido, até à roda que saltou numa sexta à tarde, feriado, a subir para Vieira do Minho, levando a uma caminhada noturna ao Bom Jesus e à espera pela visita do mecânico ao sucateiro no dia seguinte.



E histórias mais privadas também as houve, ficar sem gasolina em frente à praia já de noite, com regresso no UMM da GNR até à praça de táxis mais próxima, ou a capa negra a servir de agasalho em noite de serenata.



A verdade é que era meter gasolina e arrancar, aquele som inconfundível do ronronar compassado a encher o habitáculo, o movimento pendular da suspensão da frente quando se mudava de velocidade, um deleite para quem sempre apreciou os automóveis. Muitos anos mais tarde foi o olhar embevecido para outra igual, às portas de Veneza, com matrícula portuguesa.



Contas feitas já foram uns quantos clássicos a deixar memórias sonoras, olfativas, afetivas, o 124, a VW pão de forma, a 4 L, a tal que era GTL, o Terrano, mais recente e até, de raspão, o Corolla 1200 e a subida do Cávado ao som de Vivaldi.