Não te rias, não agora, há poucas
coisas mais excitantes do que uma mulher nua deitada de bruços, deixa-me
olhar-te bem, sabes que gosto de encher os olhos e tens muitos pequenos
detalhes por onde me possa perder, o formato longo do segundo dedo do teu pé, o
espaço entre esse e o dedo maior, que a minha língua preenche enquanto te
contorces, não mexas esse pé porque sei que queres mais e eu não quero ficar
com um olho negro, os altos dos outros dedos, que percorro agora qual trepador
em contagens de segunda e terceira categoria, espraio-me de seguida ao longo da
linha exterior do teu pé de planta alva, faço um círculo em redor do tornozelo
e prossigo por cima do tendão de Aquiles, que rapidamente se transforma numa
linha imaginária no lugar da costura dos collants usados pelas pin-ups
americanas dos anos cinquenta, chego ao vinco atrás do joelho e deixo que o meu
queixo se afunde entre eles, levantando os olhos para mais uma visão
paradisíaca, o traço rosado e já brilhante, de rebordos escuros, as suaves
elevações simétricas, regresso às depressões suaves que a minha língua afaga em
vários movimentos rápidos, antes de voltar a subir vagarosamente de volta à
linha central, deixo que a respiração profunda assinale o caminho enquanto a
ponta do meu nariz serve de batedor. Termino a lenta ascensão e faço uma deriva
sem pressas para o centro nevrálgico do turbilhão em crescendo. Permito às
minhas mãos abertas o deleite do toque e, sôfregas, elevam um pouco cada uma
das nádegas que sinto enrijecerem. De novo o meu queixo se posiciona sobre o
eixo de reflexão e deixo que os meus lábios em círculo reduzido iniciem um
sopro refrescante de velocidade elevada.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
sexta-feira, 19 de junho de 2015
terça-feira, 16 de junho de 2015
A propósito da pão de forma
Eram seis. Deram dez contos cada um e compraram uma pão de
forma, ferrugenta no exterior e com alguns buracos no chão, mas em boas
condições mecânicas, não fosse aquele motor de cilindros horizontais opostos
indestrutível. Mandaram fazer uma revisão e meteram-se a chapeiros e pintores
para tapar os buracos e dar-lhe um aspeto mais apresentável, o que rendeu umas
tardes de alegria e brincadeiras, próprias de quem terminava os estudos e tinha
a vida pela frente. Cenas divertidas ficaram várias, desde pegar à primeira no
cimo da Penha depois de o BMW novo estacionado ao lado não o ter conseguido,
até à roda que saltou numa sexta à tarde, feriado, a subir para Vieira do
Minho, levando a uma caminhada noturna ao Bom Jesus e à espera pela visita do
mecânico ao sucateiro no dia seguinte.
E histórias mais privadas também as houve, ficar sem
gasolina em frente à praia já de noite, com regresso no UMM da GNR até à praça
de táxis mais próxima, ou a capa negra a servir de agasalho em noite de
serenata.
A verdade é que era meter gasolina e arrancar, aquele som
inconfundível do ronronar compassado a encher o habitáculo, o movimento
pendular da suspensão da frente quando se mudava de velocidade, um deleite para
quem sempre apreciou os automóveis. Muitos anos mais tarde foi o olhar
embevecido para outra igual, às portas de Veneza, com matrícula portuguesa.
Contas feitas já foram uns quantos clássicos a deixar
memórias sonoras, olfativas, afetivas, o 124, a VW pão de forma, a 4 L, a tal que
era GTL, o Terrano, mais recente e até, de raspão, o Corolla 1200 e a subida do
Cávado ao som de Vivaldi.
segunda-feira, 15 de junho de 2015
Da falta de equilíbrio
Desde muito cedo se habituara a
viver consigo próprio. Tinha irmãos, tinha amigos, mas entediavam-no as
repetições de jogos, os passeios sempre aos mesmos lugares, as demonstrações de
masculinidade de adolescentes nascidos na época conturbada da mudança de
regime. Os livros tinham muito mais piada, falavam de locais fantásticos, mais
ou menos distantes e pessoas que viviam na procura de novas e excitantes
aventuras.
Mal chegou a idade legal partiu
para longe, com a conivência do pai e à revelia da mãe protetora, já nem se
lembra se pensou no assunto mas a verdade é que durante dois meses viveu por
conta própria e deu-se bem, voltou para cumprir o plano desde sempre traçado,
que nunca questionara até então e se o fez depois não foi com grande convicção.
Habituara-se a cumprir planos, algo de que fez profissão tal a facilidade em
obter resultados.
Continuou mais uns anos a decidir
sozinho todos os seus passos, muito embora imaginando a partilha do seu espaço
com quem comungasse do mesmo desejo de liberdade geográfica e desapego
emocional às raízes. Ignorava ingenuamente que aquilo de que precisava era de
quem equilibrasse tão grande desvio relativamente ao norte magnético.
segunda-feira, 8 de junho de 2015
O anjo das paragens
Sarita, eu sei que não és responsável pelos locais onde
escarrapacham a tua linda figura, mas és responsável por mantê-la e por fazer
desses olhos faiscantes um íman mais poderoso do que um buraco negro que engole
galáxias. Tu és um anjo, pois fica a saber que vou ter que te ignorar de cada
vez que passar por uma paragem de autocarros,
e acredita que passo por muitas, porque espero ainda estar muito longe
de te ver ao vivo com asas lá pelos céus, o que pode ser muito provável se não
desviar o olhar ao atravessar uma rua a pé, ou me distrair enquanto pedalo, ou
me esquecer de travar quando o autocarro para e me desloco de carro.
Devia era ser proibido mostrar-te na via pública.
sexta-feira, 5 de junho de 2015
Da profissão
Primeiro foram quatro anos a
fazer trabalho que deveria requerer um profundo conhecimento prático de muitas
e variadas situações em contexto industrial. Foi num tempo em que toda a gente
era especialista em tudo desde que tivesse um guião para seguir e depois havia
outro alguém com experiência que passava os olhos pelo trabalho e dava uma
achega aqui e outra ali, em função do reduzido tempo de que dispunha para o
fazer. Foi uma forma de o recém-formado ganhar gosto pelas máquinas e decidir
que queria passar do ver o cozinhado pronto para o fazer a receita.
E assim foi, durante dezoito
meses mudou-se para um local a oitenta quilómetros do local de residência, para
onde ia e de onde voltava todos os dias. Ali havia conhecimento de causa e uma
verdadeira estrutura fabril, num local onde trabalhavam trezentas pessoas e a
tecnologia usada era de ponta e as condições de trabalho ao nível do melhor da
indústria. Mas tinha um senão, ficava num local suficientemente longe do núcleo
familiar e pouco atrativo para o outro membro adulto, que também tinha
legítimas aspirações profissionais. Por isso, o convite para o regresso ao
local inicial de trabalho, investido nas funções que ambicionava quando deixou
a empresa e novas condições remuneratórias a condizer, foi aceite com
prontidão. A proximidade à morada, às escolas, ao centro de gravidade familiar
potenciou a manutenção nesse emprego, onde foi possível desenvolver um trabalho
contínuo, com melhorias sensíveis de projeto para projeto, com contacto direto
com muitas empresas de reconhecida valia no tecido industrial do país. Foram
anos bons, embora pautados por uma perda contínua de condições para o melhor
desempenho profissional, muito ténue nos primeiros anos, mais acelerada com o
final da era das vacas gordas.
Termina assim um período de
dezassete anos, muito rico em valorização profissional, em que a vontade de
prosseguir cada um dos projetos faz escarnecer dos lugares-comuns das manhãs de
segunda-feira na rádio, com louvas ao descanso e lamentos pelo início da semana.
É, no entanto, o culminar de um período em que os projetos perdiam
continuamente qualidade, cedendo terreno ao argumento gasto das dificuldades
económicas, apesar de confirmarem continuamente que o barato sai sempre caro.
Vai começar uma nova fase, num
local onde a qualidade tem sido a bandeira que fez crescer sustentadamente a
empresa. Oxalá saiba contribuir para esse crescimento e que se mantenham as
condições que o proporcionaram.
terça-feira, 2 de junho de 2015
Das agulhas
A perspetiva era aterradora, é daquelas coisas que só acontece
aos outros, nunca a quem andou a torrar as pestanas durante a juventude
enquanto os amigos mais espigadotes tinham já empregos que lhes permitiam
comprar um carrito e passar os fins de semana entre as esplanadas e as
discotecas da moda e ir para o Algarve no verão. O mundo profissional é
pequeno, para o bem e para o mal, toda a gente se conhece e em tempos em que o
dinheiro a circular não abunda cada um deixa-se ficar no seu canto à espera que
passe a borrasca, que bem tempestuosa tem sido. Além disso, na área técnica as
oportunidades que aparecem são para o estrangeiro, longe da família e da zona
de conforto e se a perspetiva até era interessante quando os compromissos eram
poucos, agora será apenas o plano D ou P ou até Z.
O telefonema foi completamente inesperado, de tão esperado
que tinha sido ao longo de anos e anos. Nenhuma resposta tinha surgido das
poucas tentativas estratégicas já feitas para outros contactos nos últimos
tempos e já apelava silenciosamente à famosa sorte dos nascidos no final do
ano, aquela que advém do facto de viver a vida disposto a trilhar todo o tipo
de terreno, naturalmente em função das circunstâncias do momento.
Foi um alívio, um respirar fundo e mudar de agulha, nunca
nada é tão bom quanto parece nem tão mau como o fazemos, mas bem se pode dizer
que quem espera sempre alcança.
terça-feira, 26 de maio de 2015
Princesa
Quinze anos. Roubava-lhe os
caracóis muito louros quando a acordava para ir para a escola dos pequeninos,
aquela que nunca esqueceu, de que fala sempre com um brilho nos olhos. Saltava
da cama num impulso para recuperar o cabelo, agora diz que já não os tem porque
lhos tirei.
Adivinha-me os pensamentos, que
será de mim quando me ler aqueles que não quero, sabe o que espero dela e gere
as minhas expetativas de acordo com a sua determinação, cada vez mais forte,
naquela personalidade em construção nos valores que leva de casa, mas já tão
marcada pela sua própria cabeça.
Agarra-se ao pai com tanta força
que me pergunto como será no dia em que entrar em casa agarrada a um barbudo,
de quem não reclamará como agora faz contra a barba de fim de semana.
Dá-me medo, não de a deixar ir,
essa é a ordem natural e nada tenho contra, não negarei aquilo que reclamei,
mas por não ser capaz de terminar a tarefa, é irracional, eu sei, o campeão da
racionalidade, mas alguma ponta de emotividade há-de aparecer em dias em que se
olha para trás e o ontem já está tão longe.
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