A perspetiva era aterradora, é daquelas coisas que só acontece
aos outros, nunca a quem andou a torrar as pestanas durante a juventude
enquanto os amigos mais espigadotes tinham já empregos que lhes permitiam
comprar um carrito e passar os fins de semana entre as esplanadas e as
discotecas da moda e ir para o Algarve no verão. O mundo profissional é
pequeno, para o bem e para o mal, toda a gente se conhece e em tempos em que o
dinheiro a circular não abunda cada um deixa-se ficar no seu canto à espera que
passe a borrasca, que bem tempestuosa tem sido. Além disso, na área técnica as
oportunidades que aparecem são para o estrangeiro, longe da família e da zona
de conforto e se a perspetiva até era interessante quando os compromissos eram
poucos, agora será apenas o plano D ou P ou até Z.
O telefonema foi completamente inesperado, de tão esperado
que tinha sido ao longo de anos e anos. Nenhuma resposta tinha surgido das
poucas tentativas estratégicas já feitas para outros contactos nos últimos
tempos e já apelava silenciosamente à famosa sorte dos nascidos no final do
ano, aquela que advém do facto de viver a vida disposto a trilhar todo o tipo
de terreno, naturalmente em função das circunstâncias do momento.
Foi um alívio, um respirar fundo e mudar de agulha, nunca
nada é tão bom quanto parece nem tão mau como o fazemos, mas bem se pode dizer
que quem espera sempre alcança.