terça-feira, 2 de junho de 2015

Das agulhas


A perspetiva era aterradora, é daquelas coisas que só acontece aos outros, nunca a quem andou a torrar as pestanas durante a juventude enquanto os amigos mais espigadotes tinham já empregos que lhes permitiam comprar um carrito e passar os fins de semana entre as esplanadas e as discotecas da moda e ir para o Algarve no verão. O mundo profissional é pequeno, para o bem e para o mal, toda a gente se conhece e em tempos em que o dinheiro a circular não abunda cada um deixa-se ficar no seu canto à espera que passe a borrasca, que bem tempestuosa tem sido. Além disso, na área técnica as oportunidades que aparecem são para o estrangeiro, longe da família e da zona de conforto e se a perspetiva até era interessante quando os compromissos eram poucos, agora será apenas o plano D ou P ou até Z.

O telefonema foi completamente inesperado, de tão esperado que tinha sido ao longo de anos e anos. Nenhuma resposta tinha surgido das poucas tentativas estratégicas já feitas para outros contactos nos últimos tempos e já apelava silenciosamente à famosa sorte dos nascidos no final do ano, aquela que advém do facto de viver a vida disposto a trilhar todo o tipo de terreno, naturalmente em função das circunstâncias do momento.

Foi um alívio, um respirar fundo e mudar de agulha, nunca nada é tão bom quanto parece nem tão mau como o fazemos, mas bem se pode dizer que quem espera sempre alcança.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Princesa


Quinze anos. Roubava-lhe os caracóis muito louros quando a acordava para ir para a escola dos pequeninos, aquela que nunca esqueceu, de que fala sempre com um brilho nos olhos. Saltava da cama num impulso para recuperar o cabelo, agora diz que já não os tem porque lhos tirei.

Adivinha-me os pensamentos, que será de mim quando me ler aqueles que não quero, sabe o que espero dela e gere as minhas expetativas de acordo com a sua determinação, cada vez mais forte, naquela personalidade em construção nos valores que leva de casa, mas já tão marcada pela sua própria cabeça.

Agarra-se ao pai com tanta força que me pergunto como será no dia em que entrar em casa agarrada a um barbudo, de quem não reclamará como agora faz contra a barba de fim de semana.

Dá-me medo, não de a deixar ir, essa é a ordem natural e nada tenho contra, não negarei aquilo que reclamei, mas por não ser capaz de terminar a tarefa, é irracional, eu sei, o campeão da racionalidade, mas alguma ponta de emotividade há-de aparecer em dias em que se olha para trás e o ontem já está tão longe.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ainda ferve


Eram os tempos dos Audi Quattro e dos Lancia 037, passavam na rotunda dos Produtos Estrela ao início da noite, a caminho da Póvoa do Varzim. na escola ouvia os tempos dos troços no rádio a pilhas, nos intervalos das aulas. Já antes admirava as fotografias dos Fiat 131 Abarth, enquanto sonhava com a troca do velho 124 da família por um daqueles, mesmo o simples 1300. Pouco depois foi o primeiro sábado em Arganil, saída de madrugada numa carrinha de nove lugares, o inenarrável Woodpeckers from space tocado até à exaustão, o frio de Março e o corpo aquecido pela adrenalina do ruído dos motores em elevada rotação. O passo seguinte, entre as idas à Póvoa para ver a assistência antes do parque fechado, foi a noite passada na descida para Folques, as fogueiras a demarcar o troço, o frio da manhã que deixava poças geladas antes dos ganchos com os precipícios bem perto. Seguiu-se a prova espetáculo no aeródromo de Palmeira e mais tarde as idas a Fafe. Depois vieram os compromissos profissionais e depois os familiares e para o ano é que vai ser, seguir o rali do princípio ao fim. Foi para longe, arrefeceu o entusiasmo.



Agora o centro nevrálgico está à porta de casa, pensava que já tinha passado a febre mas bastou ver os carros com os autocolantes nas portas para ficar com o sangue a ferver. Logo vou ver a chegada da etapa, fraco consolo mas para já será assim. Para o ano é que vai ser.

terça-feira, 19 de maio de 2015

É longo mas tem mensagens importantes


Foi uma prenda adiantada da quarta classe, porque o padrinho o tinha prometido um dia, sabendo-se condenado por uma doença que agora tem cura na grande maioria dos casos, a avó que não madrinha por desgosto de não o ter sido para o primeiro neto que apenas o foi por três dias cumpriu o desígnio do marido falecido e ofereceu a bicicleta de roda pequena à frente e três velocidades com alavanca no quadro, entre o assento e o guiador.


Dali até à entrada na faculdade foram muitas tardes a percorrer quantos caminhos de terra havia nas redondezas, numa área continuamente alargada à medida que a força nas pernas aumentava e a procura por caminhos novos também, sempre a imaginar-se ao volante dos carros de rali que preenchiam as páginas das revistas e jornais religiosamente lidos logo que saíam para as bancas.


Depois, com um dos ordenados iniciais, foi a entrada na moda que despontava lentamente das novas bicicletas de montanha, com pneus largos e dezoito combinações possíveis para desmultiplicação da pedalada, a juntar aos travões do tipo vê, v-brake na notação inglesa. Depois os amortecedores, os travões de disco e a adição da bicicleta de estrada, porque nessa é que se ganha potência para longas maratonas, a menos que se possa andar na outra todos os dias.


A moda das bicicletas é recente para as grandes massas e, paradoxalmente, aumentou com o agravar da crise económica, será pela saída dos ginásios ou por mudança de mentalidade ou por simples processo de seguir o rebanho. O efeito é de tal dimensão que os municípios desataram a construir ciclovias, os passeios organizados atingiram dimensões gigantescas e até já se fazem peregrinações em duas rodas. O reverso da medalha é a convivência com os restantes utentes das vias públicas, peões e automóveis. Se a convivência com os peões pode não ser pacífica mas não tem grandes consequências físicas, já a relação com os automobilistas se pode tornar conflituosa e até mesmo ameaçadora para a integridade física dos ciclistas, como se pode, infelizmente, concluir por este post da virtual muito amiga e simpática AC. É certo que há uma mentalidade ainda dominante entre os automobilistas de que têm sempre prioridade sobre os ciclistas mas também é verdade que aqueles não estão habituados à lentidão dos ciclistas nem estes estão preparados para andar em estrada.


O ciclismo desportivo é mais uma vertente do lazer em bicicleta que está em franca expansão e tem particularidades muito diferentes do simples andar de bicicleta. É praticado preferencialmente em grupos, que podem ir de dois elementos até duas dezenas ou até mais. Não é compatível com as ciclovias, quer porque nestas circulam ciclistas de todas as idades e ritmos de pedalada, quer porque os peões andam muito perto e até na própria ciclovia. O ciclista desportivo, ainda que amador, pode atingir médias superiores a 30 km/h, pedalar 200 km num dia e atingir velocidades de ponta superiores a 60 km/h.


Estas caraterísticas colocam problemas de convivência com os automobilistas, muitos dos quais não entendem que andar de bicicleta pode ser encarado como um desafio pessoal de desenvolvimento muscular, semelhante a qualquer outro desporto praticado com empenho e dedicação. Claro que requer cuidados especiais da parte do ciclista, que deve ter a noção de que a bicicleta é o elemento mais frágil da equação e que há regras de trânsito a cumprir.


Noutra vertente do uso de bicicletas deve reforçar-se que não se deve usar as passadeiras para atravessamento enquanto ciclista, porque a chegada à passadeira é muito mais rápida do que quando é feita por peões e pode impedir a travagem a tempo de evitar o embate por um veículo automóvel.


Para que se evitem desfechos de infortúnio como o relatado pela AC.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Convençam-me que não é disparate


Faz sentido a realização de exames de final de ciclo três ou quatro semanas antes do final das aulas?

Faz sentido que o calendário escolar dos alunos dos 4º e 6º anos possa terminar, de acordo com o entendimento do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada, uma semana antes do calendário dos restantes anos do ciclo respetivo tendo os alunos realizado já os exames?

Faz sentido que os alunos dos 2º e 3º ciclos não envolvidos nos exames fiquem quatro manhãs em casa porque a escola é sede do agrupamento e não podem decorrer aulas regulares enquanto decorrem exames?

E já não pergunto se faz sentido fazer testes intermédios a quase todas as disciplinas no 9º ano, a meio do segundo período.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Da caligrafia

A caligrafia vai evoluindo ao longo da vida, sendo o efeito muito notório durante grande parte do percurso escolar, sobretudo entre o final do básico e o início do secundário. Mas continua a evoluir até ao final dos anos de estudo e depois ao longo dos anos de profissão. Com a proliferação de computadores e tabletes e telemóveis cada vez se escreve menos à mão, como se nos teclados não se usassem as mãos, é uma forma de expressão, mas para alguns dos menos novos continua a pegar-se regularmente no lápis ou na esferográfica. É o meu caso, ainda tiro notas nas reuniões para um caderninho com a esferográfica e ainda faço cálculos com lápis, antes de os verter para a inevitável e poderosa folha de cálculo.

A minha caligrafia, após estabilização, passou a variar em função do meu estado de espírito, ora desenho as letrinhas maiores, ora escrevo quase com letra minúscula, em tamanho, ora lhes dou ângulos mais agressivos, nos A maiúsculos, ora arredondo o vértice dessa mesma letra. A pressão do momento tem muita influência, mas não só, se o momento for de pressão mas eu andar satisfeito e motivado escrevo de uma certa forma, se não sentir o projeto dentro de mim escrevo de outra forma.

O meu pai tinha uma caligrafia lindíssima, pequena mas de uma regularidade impressionante, completamente legível e sempre limpa e sem rasuras. Muita gente escrevia como ele naquela altura, entre as poucas pessoas, em termos relativos, que tinham passado do ensino primário. Na minha geração, aquela que já cresceu na liberdade, como então se dizia, o culto da caligrafia perdeu-se, são pouquíssimos os casos que conheço de caligrafias limpas, legíveis e agradáveis à vista. Tenho visto essa mesma característica, a falta de estética caligráfica, em grande parte dos colegas estrangeiros com quem me cruzo, com exceção dos britânicos, povo cuja caligrafia é facilmente destacável da de outras nacionalidades. Não sei se é opção escolar, nunca me lembrei de lhes perguntar.

Neste momento a minha caligrafia passa por uma fase arredondada e mais desenhada, não sei se pela idade ou pelo facto de as circunstâncias profissionais me deixarem mais disponibilidade para fazer arquivo e catálogo de uma grande quantidade de informação escrita acumulada nos últimos tempos.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Da passagem do tempo

Havia um tempo em que tudo era lá longe. No início da caminhada o fim parecia inatingível, as Minas dos Carris eram lá no cimo do monte e a mochila pesava tanto, cada passo parecia o último antes de voltar para trás, o segundo ano do curso parecia intransponível e mesmo que o terminasse havia os outros três que estavam num futuro inalcançável, passam depressa e quando der conta está a olhar para trás e a pensar que foi tão rápido, dizia a doutora da farmácia a olhar para o grelo na pasta, a primeira prestação do empréstimo da casa não augurava nada de bom quando se olhava para o que sobrava para o mês à frente.

Agora já se olha para o caminho que enche os olhos a pensar que está a começar e vai deixar tanta vontade de lá voltar, a curiosidade dos dias e das paisagens que estão a chegar perdeu o travo a mistério, muito embora mantenha a curiosidade inabalável da descoberta e da captação mental, aquela que fica na memória e nunca é igual, nem sequer comparável, à que se vê na fotografia, é por isso que cada vez perco menos tempo atrás do aparelho, o tempo que se lá dedica nuca mais se recupera para aqueles momentos de puro prazer.

Lá atrás, tão atrás já, está a memória do simpático casal que nos levou a Cambridge, os nomes já lá vão, devem estar no caderno soterrado no sótão da casa onde cresci, a senhora com tanta vida sentada na cadeira de rodas onde se deslocava, de sorriso encantador nos lábios, os dedais com os membros da família real nas estantes impecavelmente limpas da casa de paredes de tijolo burro, as memórias das sirenes a mandá-la ainda criança para os abrigos contra as bombas voadoras, a assegurar que a vida continuava a passar cada vez mais depressa. Tanta razão tinha ela.