A caligrafia vai evoluindo ao longo da vida, sendo o efeito muito notório durante grande parte do percurso escolar, sobretudo entre o final do básico e o início do secundário. Mas continua a evoluir até ao final dos anos de estudo e depois ao longo dos anos de profissão. Com a proliferação de computadores e tabletes e telemóveis cada vez se escreve menos à mão, como se nos teclados não se usassem as mãos, é uma forma de expressão, mas para alguns dos menos novos continua a pegar-se regularmente no lápis ou na esferográfica. É o meu caso, ainda tiro notas nas reuniões para um caderninho com a esferográfica e ainda faço cálculos com lápis, antes de os verter para a inevitável e poderosa folha de cálculo.
A minha caligrafia, após estabilização, passou a variar em função do meu estado de espírito, ora desenho as letrinhas maiores, ora escrevo quase com letra minúscula, em tamanho, ora lhes dou ângulos mais agressivos, nos A maiúsculos, ora arredondo o vértice dessa mesma letra. A pressão do momento tem muita influência, mas não só, se o momento for de pressão mas eu andar satisfeito e motivado escrevo de uma certa forma, se não sentir o projeto dentro de mim escrevo de outra forma.
O meu pai tinha uma caligrafia lindíssima, pequena mas de uma regularidade impressionante, completamente legível e sempre limpa e sem rasuras. Muita gente escrevia como ele naquela altura, entre as poucas pessoas, em termos relativos, que tinham passado do ensino primário. Na minha geração, aquela que já cresceu na liberdade, como então se dizia, o culto da caligrafia perdeu-se, são pouquíssimos os casos que conheço de caligrafias limpas, legíveis e agradáveis à vista. Tenho visto essa mesma característica, a falta de estética caligráfica, em grande parte dos colegas estrangeiros com quem me cruzo, com exceção dos britânicos, povo cuja caligrafia é facilmente destacável da de outras nacionalidades. Não sei se é opção escolar, nunca me lembrei de lhes perguntar.
Neste momento a minha caligrafia passa por uma fase arredondada e mais desenhada, não sei se pela idade ou pelo facto de as circunstâncias profissionais me deixarem mais disponibilidade para fazer arquivo e catálogo de uma grande quantidade de informação escrita acumulada nos últimos tempos.