O Nordkaap, La Tierra del Fuego,
és um cromo das obsessões geográficas, a Aurora Boreal, e dos fenómenos
naturais, a Muralha da China, Machu Pichú, e dos calhaus inúteis e erodidos, és
um teso, vais deixar tudo para quando já não terás forças e a memória for um
farrapo e cada imagem se desvanecerá passados dois dias, pois é, mas no país já
não há muitos mais marcos a assinalar e muitos dos pormenores continuam bem
presentes e a Muralha de Adriano aos vinte anos e as capitais, e os miúdos dizem na escola
que já lá estiveram a cada imagem dos livros de história e geografia, certo que
só falam de cá e dos países mais próximos mas são poucos os colegas que também.
E assim queira o destino e me mantenha as pernas para pedalar e os braços para
nadar e não serão cinquenta quilómetros diários que me impedirão de montar nela
e correr mundo, literalmente, que com esta idade se algum dia tivesse que ter o
juízo de que sempre ouvi falar já o teria, que não ganharei outro daqui para a
frente.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Dos transportes aéreos
Pode o sistema público concorrer
com o privado? Pode, é o que se tem passado, pelo menos por cá, nos últimos
quarenta anos. Pode o sistema público concorrer com o privado em condições de
igualdade e justiça social? Creio que já houve provas suficientes de que não
pode. O privado é muito mais adaptável, por razão da sua sustentabilidade sem
rede, pelo que nunca haverá justiça nas retribuições entre os sistemas. Quando
o privado tira partido das circunstâncias favoráveis do mercado vai ao público
recrutar os mais capazes e distorce o equilíbrio a seu favor. Quando o público
encontra condições políticas de fragilidade estica a corda e muda os pratos da
balança para o seu lado, alterando todo um equilíbrio não só com os privados
como com os restantes funcionários públicos. Pode o país funcionar sem serviços
públicos? Há alguns que são exclusivamente públicos, pelo que não podem ser
privatizados, outros têm uma tal dimensão que colocariam uma enorme dificuldade
à sua privatização. Outros há que poderiam facilmente ser privatizados mas que
se entende terem uma importância estratégica que recomenda a sua manutenção em
moldes públicos. A RTP é um exemplo dos mais conhecidos.
Não sou entendido em nenhuma
destas matérias, mas tenho a minha opinião, como cidadão deste país. No quadro
atual em que muitos dos voos realizados pelo mundo fora, suspeito mesmo que
representam uma maioria expressiva, são realizados por companhias privadas,
entendo que o país não precisa de uma companhia de aviação. Sobretudo não
precisa destas companhia aéreas.
sexta-feira, 1 de maio de 2015
Da chuva
Chove sem parar desde as seis da manhã, pelo menos. Há meses que não, por isso bem podes estar agradecido por todos os outros dias de bicicleta a seco, hoje faltou a coragem, mas para a estrada molhada não e já não estou virado para o monte a menos que leve alforges e isso não será tão cedo.
No domingo vais cumprir um ritual suspenso há três anos, já pouco interessa o que o futuro reserva, chegou a altura de viver o presente, mas não o sabes fazer, já pensas em emendar o tiro desviado da morada para sempre, para sempre enquanto te mexes, que o outro para sempre não interessa onde, voltando aos três anos agora há que saber gerir o que o tempo levou e não devolverá, os afetos já denotam a idade de ambos mas uma aproximação aos netos dar-lhe-á uma réstea de conforto, oxalá já tenha dominado o feitio dos direitos adquiridos e da projeção nos filhos, um homem não muda e uma mulher muito menos, mas a mulher é mais adaptável à natureza, por instinto de sobrevivência.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
Das sentenças
Foram quatro. Talvez seja a moda
dos jogos com tiros, não são pessoas, não são gente, são apenas figuras que
temos que matar para ganhar o jogo. Mas não tem história, a da televisão, as
poucas palavras que se foram sabendo, para passar horas e dias e noites a jogar
contra um chinês virtual, já o do Pinhão talvez tivesse, duas miúdas de vinte e
poucos anos, será alucinação, serão filmes a mais que idolatram a personalidade
e nos fazem donos da verdade, será a ambição que gente que é gente tem carros
de luxo e come em restaurantes com estrelas e vai de férias para um paraíso nas
Maldivas. Eram a ex-mulher e os pais e o filho dela que não dele, que palavras
possam ter dito, que atos possam ter praticado que o levassem a descarregar
duas armas, a julgar pelos ditos, a deixar o filho que tinha com a falecida sem
mãe, sem avós maternos e com um pai que não o ajudará nem que seja nas escolhas
nas encruzilhadas e a quem provavelmente nunca perdoará o ato insano que
cometeu. E o repetir destas situações, afinal se calhar estamos atrás daqueles
que decapitam jornalistas e militares, lá longe, no que toca ao desenvolvimento
humano, para lá caminhamos em vez de aceitar que uma sociedade se faz de regras
e só o seu cumprimento permitirá o bem comum. Que merda é essa do bem comum,
isso são histórias de meninos e padres na missa e candidatos a
primeiro-ministro. Que dúvida pode assaltar quem vai julgar sobre a pena a
aplicar, quem com ferros mata com ferros morre, o que justifica alimentá-lo e
prestar-lhe cuidados de saúde e dar-lhe uma televisão de écran plano e uma cela
individual e depois mandá-lo embora passados dez ou quinze anos por bom
comportamento, reabilitado para uma vida que lhe passou à frente e o deixará a
atormentar a vida dos poucos que lhe venham a deitar uma mão, quiçá por
vergonha, quiçá porque ainda há boas pessoas que não merecem as provações por
que passam às mãos de quem não vale o ar que respira.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Pensamentos bons
Estão ali os vasos com a sementeira das petúnias, a
terra por cima está a ficar seca, que caralho vou eu fazer se lhes deito água e
chove ficam encharcadas e as folhinhas começam a boiar, se não rego e não chove
ficam secas e já acho que me vão desaparecer todas, isto de andar a comprar
sementes no supermercado é o que dá, bem fizeste em comprar as dos pepinos e
dos tomates no Grémio, por falar nisso estão a ficar grandes, os rebentos dos
pepinos, está a ficar na altura de os mudares para o canteiro, tens medo que os
caracóis ou as lesmas ou que raio de bicharada anda por lá os comam mas não
tens alternativa, mete lá uns quantos rebentos e logo vês. Uma estufa ali é que
ficava bem, mas o jardim ou quintal ou horta ou lá o que seja é tão pequeno que
ocupava metade daquilo e já sabes que a patroa, se sabe que lhe chamas isso
atira-te com o vaso das petúnias em crescimento à testa, é contra, que fica mal
e depois quando fores fazer o churrasco não tens onde sentar as pessoas, que
umas almofadas para pousar por cima do murete de pedra é que ficam bem, depois
calcam-me os canteiros e lá vai o projeto de mandar isto tudo à merda e passar
a cultivar tomates e pepinos e feijão verde e as favas que ficaram por semear
este ano. Entretanto a relva está a crescer e também crescem as ervas daninhas
e todos o tipo de fetos e sei lá mais o quê e os testes da catraia que são
todas as semanas e quero manter o bom hábito de rever a matéria, uma horita que
seja para cada teste e na sexta feira se a malta for andar todo o dia eu também
quero ir, se apanhar o empeno no regresso hei-de acabar por chegar mas quero
manter o bom hábito de ir a Fátima uma vez por ano, qual promessa qual caralho,
é sinal que continuo a ter pernas e me mantenho a andar com a regularidade
suficiente para aguentar a estafa, olha o homem que ia connosco no domingo,
setenta e quatro anos e lá fazia as subidas mais devagar mas chegava lá acima e
a rolar ninguém tinha que esperar por ele e ontem ia para Viana depois do
noventa do dia anterior, eu tinha que chegar aos cem e lá fui dar mais uma voltinha.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Dos filmes do verde
Pode até ser a música. E o verde.
E aqueles pubs sempre animados que aparecem nos filmes, já se sabe que os
filmes são feitos para criar ilusões, nos tempos dos morangos chegaste a entrar
na versão inglesa desses estabelecimentos de diversão, até entraste na moda das
amargas, bitter, one pint, please, o sino a tocar last drinks às onze menos
cinco, depois era acordar às cinco e meia da manhã para começar a recolher os
frutos vermelhos para um cesto pequeno, a partir das seis em ponto. Mas isso
foi em terras de Isabel segunda e o filme era passado em parte na Irlanda, onde
não foste porque a greve dos correios atrasou a entrega da carta que enviaste
já atrasada a perguntar à rapariga se te dava guarida por uns dias, qual
internet qual quê, nem com tal coisa se sonhava. Acabaste por ir sozinho para
norte, para o distrito dos lagos, lindíssimo, onde passaste por outro pub com
muita cerveja a correr, e rio de montanha logo à saída da porta.
Era largar tudo e ir viver para o
verde, haveria uma chafarica onde entrar às oito da manhã e sair às cinco da
tarde, qualquer lata com quatro rodas serviria para deslocações mais rápidas, a
de duas rodas era para levar com o vento no trombil, uma daquelas casinhas com
quartos minúsculos e uma sala com vidraria trapezóidal sobre o jardim de
brincar. E a estufa nas traseiras, aquelas casas de vidro para brincadeiras de
adultos.
Raio de filmes que me deixam de
cabeça no ar, a lata até era a banheira Volvo onde se mete a casa inteira e
ainda sobra espaço para o cão, a moça era gira e disponível depois do desgosto
amoroso, faltava o Hugh Grant que sempre imaginaste ser, com a parte do distraído
irresistível, sem a parte do menino mimado sempre à procura de um brinquedo
novo. No final a outra parte da história, aquela em que é preciso ser-se muito
parvo para deitar fora duas décadas de construção empenhada.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Das relações humanas
Não sei se pensou no que disse ou
se lhe saiu boca fora, talvez habituado a usar aquela linguagem em contexto
profissional, que pela profissão tudo lhe é permitido quando lida com quem não
está em posição de replicar. Já nem falo na atitude de dono do mundo e da
verdade, depois de ter brincado ao jogo dos espiões para ficar a saber não sei
o quê, tudo o que faço naquela casa é por gosto e por reconhecimento. E depois
fiquei mudo, nunca insultei ninguém da família, nunca ninguém encontrou razão
para me insultar, muito menos para usar a mãe de todos os insultos. Não está
bom da cabeça, é a única hipótese capaz de explicar a boca sem freio ao fim de
duas décadas de convivência com demasiados, sei-o agora, momentos de uma
intimidade que nem com os do meu sangue, desses também poderei falar um dia,
das alegrias e ilusões desfeitas, mas sem nunca terem descido o nível ao ponto
da ameaça física, o mais baixo patamar a que se pode chegar na convivência de
laços de sangue. Ou estarei errado e é possível ainda chegar mais fundo? Se é
não o quero saber, para mim não há mais épocas festivas, não se repetirão os
almoços bem regados no calor das férias, não serão assinaladas datas à mesma
mesa, tenho muitos amigos verdadeiros entre os poucos que recebo em casa e para
cujas casas sou convidado.
Não prevejo pedidos de desculpas
e verdade seja dita que não os quero, teria que os aceitar e não me apetece
nada, contam-se pelos dedos de uma mão e certamente ainda sobram alguns o
número de vezes que deixei de falar a alguém por quem passe na rua, mas se tal
acontecer espero ter força anímica para manter uma relação que passará a ser
estritamente institucional, naquilo que o termo puder ter quando se trata de
gente que partilha traços genéticos com os meus filhos. A manutenção do estado
atual das coisas fará com que haja uma ansiedade constante sem fim à vista, mas
com esse estado posso eu bem, fomos bem treinados na infância, os três, com a
passagem dos anos torna-se menos suportável mas as vantagens de não ter que me
fazer familiarmente correto serão superiores.
Mas acabo por engolir o sapo que
tão orgulhosamente mantive no pedestal ao meu lado ao longo de tantos anos, não
há nada de que me arrependa. Agora sim, tenho algo para me arrepender, algo que
fiz questão de impor no início da vida conjunta e de que abidquei com a mesma
convicção pouco tempo depois, tão longe de imaginar que um dia poderia mesmo
acontecer.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Gestos
Mais do que as mamas que se
adivinham por trás dessa camisola decotada foi o gesto de puxar o cabelo para
um molho por cima das costas, revelando a textura suave da pele levemente
dourada por cima dos ombros e a curva longa do pescoço até à covinha de pequeno
diâmetro onde a minha língua descansaria, prazenteira e feliz. Aproximar-me-ia
pelas tuas costas e deixaria que o meu nariz se encostasse ao de leve ao
cilindro do teu pescoço, revelando a respiração profunda, já acelerada pela visão
mental dos teus olhos a fecharem e a tua própria respiração em aceleração
desenfreada.
Abriria a minha boca e deixaria
os meus lábios em círculo de grande diâmetro tocarem a carne morna do teu ombro
a meio caminho entra a linha do pescoço e a curva descendente da linha para o
braço. Lentamente, os meus dentes aumentariam a pressão sobre a carne. As
minhas mãos abertas comprimiriam com pouca pressão a linha côncava acima das
ancas e sentiria as tuas mãos em concha a fecharem-se sobre a minha nuca.
sexta-feira, 9 de janeiro de 2015
Sonhos
Campo de batalha. O sonhador ausente em luta encarniçada com o racional cinzento. O atropelo dos pensamentos em convulsão atenuado pelos músculos agora menos enérgicos. O passo lento e progressivamente mais seguro do rezingão austero a permitir o maior deleite dos momentos, ainda que diminuídos em frequência.
O sonhador perde, o cinzentão ganha. Será? Não permitiu o cara de pau que o sonhador fosse cumprindo os seus pensamentos? E não tem o cabeça de vento uma lista cheia e sempre aberta? São agora diferentes, os sonhos, ou talvez sejam apenas de outro tipo, toda a gente se cansa de percorrer os mesmos caminhos embora encontre prazer em voltar um dia mais tarde.
No fundo, o sonhador nunca deixa de o ser.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
Novela III
Ora depois de passado o período doido dos últimos meses, no meio do qual consegui arranjar nem sei bem como aquela semana de desvario ciclístico, atirei-me ao OLX convencido de que encontraria o que procurava sem ter que entrar em loucuras orçamentais. Comecei a atirar por baixo, convencido de que bastava um amortecedor fiável e com bloqueio para garantir o conforto necessário. Percebi então que tinha que gastar mais qualquer coisa e fui ver duas máquinas de reconhecida qualidade, uma Scott e uma Canyon, esquecendo, ou inconscientemente ignorando, o que tinha dito há tempos, que podia ser qualquer uma desde que o nome começasse por S e terminasse em D e no meio tivesse as letras PECIALIZE. Estive para comprar a Canyon, o que só não aconteceu por um desacordo de cem euros, desacordo que só tenho a agradecer ao dono da bicicleta. E já ponderava eu pagar a tal diferença quando em conversa no meio do monte me convenceram de que precisava do sistema Brain, exclusivo da marca que estava bloqueada na minha cabeça. Voltei ao OLX e percebi, com grande espanto, que o valor usado das máquinas em causa era da mesma ordem de grandeza do que andava a ver. Então escolhi duas ou três bicicletas que me pareciam em melhores condições, contactei os vendedores e acabei por ir fazer uma compra épica, palavra que neste contexto só será entendida por quem domina a modalidade, a Santarém, aproveitando uma deslocação de cariz familiar ao sul.
Como já alguém referiu no monte, eu comprei um chasso. É roda 26, quando agora a moda é 29 ou 27,5 para as estaturas mais compactas, é de alumínio e não em carbono para redução de peso e tem amortecedor, numa altura em que se usam semi-rígidas, mais uma vez para redução do peso. Mas eu já não vou para novo, o meio século aproxima-se vertiginosamente e está a menos de três anos, pelo que não estou aqui para corridas e o meu esqueleto agradecerá certamente a redução de pancada. Na realidade, a mudança em causa corresponde a passar da saudosa R4 GTL comprada com rigor e empenho após o início da carreira profissional para o 2.0 TDI atual em que meto a 6ª à entrada da VCI e só a tiro à saída da 2ª circular. No monte costuma dizer-se que muda a carroça mas o burro é o mesmo, mas este burro tem andado muito mais perto dos cavalos de corrida.
segunda-feira, 5 de janeiro de 2015
Ano novo
Quando exprimo os meus desejos de bom ano a quem entendo que o merece estou a ser sincero. Mas em consciência não tenho motivos para acreditar que o venha a ser, ao contrário da onda otimista que me parece ser o consenso geral da época. Continuo a não conseguir entender como será possível que a civilização europeia consiga progredir economicamente à custa das outras, tendo acabado a transferência de bens e até mão de obra barata proveniente dos outros continentes. Isto em conjugação com os elevados padrões de assistência social entretanto desenvolvidos, e que no caso português, o único que conheço, implica um consumo de recursos económicos que me parece impossível de manter nas circunstâncias atuais de envelhecimento da população.
Espero, no entanto, estar a ser um velho do Restelo e vir a ficar rapidamente surpreendido pela enorme e secular capacidade de reação às adversidades sempre demonstrada do nosso povo.
Novela II
Até que me meti, nestas condições, na primeira parte da grande aventura ciclista, aquela que me preenche os sonhos há anos e que não julgava possível no quadro familiar e profissional atual e previsível nos tempos mais próximos: O Caminho Francês. A partir daqui, mesmo faltando a segunda etapa, já lá vamos, passei a designar esta como a primeira grande aventura. Ora dado o tal do quadro familiar e profissional convenci quem me fez companhia a dividir a aventura em duas partes, a primeira em seis dias de pedalada, cobrindo cerca de dois terços do percurso e cumprida em setembro, e a segunda a percorrer o restante em quatro ou cinco dias, a cumprir previsivelmente no próximo setembro.
O que tem isto a ver com a bicicleta? Ora lá fui eu com a máquina que me acompanha há mais de uma década, equipada com alforges mais uma vez, convencido de que chegava e sobrava para a encomenda. Acontece que o Caminho não é nada meigo, tem pedrinha que chegue e sobre e mesmo indo devagar e bem preparado fisicamente aquilo é coisa que mói. E depois nas descidas via os outros a passar em grande velocidade, com o amortecedor do quadro a absorver a pancada adicional do peso da bagagem enquanto a minha caía em peso sobre o quadro rígido e eu tinha que abrandar para evitar que a máquina se desintegrasse. Prometi a mim mesmo que estava na altura de me mimar com uma bicicleta de tecnologia mais atualizada.
terça-feira, 23 de dezembro de 2014
Novela para maluquinhos das biclas
Ando como se fosse o mesmo que recebeu uma Órbita Chopper como prenda da quarta classe, adiantada porque tinha sido promessa do avô e padrinho, concretizada pela avó não madrinha mas muito mais do que isso. Para quem dá por si a pensar que já não há muitas coisas, materiais ou imateriais, que possam provocar a bebedeira da novidade, nos próximos posts propositadamente curtos deixarei as impressões que tenho tido nos últimos domingos. De seguida fica o início do relato.
Tive a pior bicicleta do grupo desde a altura em que decidi parar a GT rígida, e rígida quer dizer que não tinha suspensão na forqueta logo imagine-se há quantas décadas foi, e comprar um quadro de alumínio com uma forqueta Rockshox que tinha sido boa há muito tempo. Desde essa altura fui melhorando o pouco que era possível e fui fazendo muitos quilómetros, convencendo-me de que o que conta são as pernas, se as houver o material há-de chegar onde as outras chegam.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
Começar o ano em grande
Quero fazer-te vir devagarinho, manter-te naquele ponto em que as contrações se sucedem em catadupa, em que te queres mexer descontroladamente mas sabes que isso fará terminar o processo. Não será fácil prender-te para que não o faças, mas eu gosto de desafios difíceis.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
A rotunda
Sonhei
que estava numa rotunda, uma assim grande tipo L'Étoile, e que pretendia
percorrer metade dela e sair na mesma direção em que tinha entrado. Percorri os
cento e oitenta graus e preparava-me para sair quando me deparei com um sinal
de sentido proibido descomunal mesmo à entrada da rua. Fiquei surpreso, já que
no meu percurso não constavam caminhos proibidos, mas segui até à próxima
saída. Faço um pequeno desvio, pensei, atrasar-me-á o percurso mas chegarei ao
destino na mesma. Presto-me para sair na próxima rua e qual não é a minha
surpresa quando dou de caras com outro sinal vermelho com um retângulo branco
horizontal no centro. Que raio, começo a ficar irritado, então e agora?
Continuo a circular no trânsito infernal, os condutores esbracejam, gritam de
janela aberta e tocam as buzinas furiosamente, tento sair na próxima e na
seguinte e todas estão marcadas com o sinal, chegam mais carros que entram e
não podem sair. Espera, pensei, é só um pesadelo, vais acordar e está tudo bem.
Acordei.
Tomei o meu duche, vesti-me, tomei o pequeno almoço, calcei-me e abri a porta para
sair. Começo a ouvir as buzinas e os gritos. Saio à rua e estou no meio da rotunda.
Acordei
no local errado ou o código não serve para o fim a que se destina?
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Para naum cair asiono os travoins e a bicicleta pahra
Tivese eu mais nada que
fazer e divertir me ia a provar que a lihngua portugueza naum presiza de mais
do que vinte e tries letras para que todas as palavras posam ser escritas sem
quaisquer duhvidas quanto ao seu significado. E ainda retiraria os sies
sedilhados, o duplo hese e todos os asentos grahficos. E tambeim tentaria
acabar com situasoins que me paresem duvidozas, como o uzo do sie como hese
antes dos is e dos es. E o uzo do hese como zie, em prejuhijo deste. O agah
teria um forte incremento de uzo, jah que pasaria a asentuar palavras
esdruhxulas e agudas.
Alehm disto ainda reporia
formas de distinsaum de outras palavras que jah foram abolidas em acordos
anteriores, como puarto, local de abrigo de embarcasoins, e porto, forma verbal
do verbo portar. E cuar, colorasaum, diferente de cor, falar sem recurso a
auxihlio escrito. Embora alterando a forma de escrita da sidade invicta para
Puarto, em conformidade com a palavra asima escrita, manter lhe ia a letra
maihuscula, tal como aos restantes nomes prohprios.
Jah sei que haverah outras
situasoins que naum tardaraum a apontar me, mas acredito que delas posa dar boa
conta em favor desta causa.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Olhares
Cheguei
ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o
automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da
aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o
cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido
avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos
separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para
saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o
saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que
se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no
significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses
sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar
cada um dos olhares.
A
maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são,
quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para
outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou
transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos
passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem
nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e
antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou
avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Prazeres
Gosto
de conduzir, é uma das minhas manias. E tanto encontro prazer a conduzir
depressa como o encontro em passeios calmos com a caravana atrás. Em tempos
adorava chapinhar nas estradas alagadas com o todo-o-terreno verdadeiro que
tive o privilégio de conduzir durante mais de uma dúzia de anos. Gosto de
sentir que engreno as velocidades sem deixar grilar o motor nem provocar
solavancos na embraiagem, gosto de sentir o carro equilibrado numa travagem
antes de uma curva, gosto de procurar o menor consumo possível em percursos que
repito mantendo o tempo total da viagem. Em suma, gosto de explorar todas as
vertentes do automóvel.
A
mulher é outra das minhas manias. Dela gosto também de descobrir todos os
botões escondidos, experimentar as reações às palavras, aos toques, aos sopros,
à minha língua, aos meus dentes. Gosto de acelerar o ritmo e perceber como
também se acelera ou de a conduzir com ritmo lento, mesmo até parar e ficar a
deixar que a antecipação do meu próximo movimento a deixe descontrolada. O
prazer mais intenso não está no limite físico mas sim na forma como estimulamos
os sentidos.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
No cinema
Não
se pode fumar no interior de uma sala de cinema. Mas pode-se comer pipocas.
Pode-se remexer o recipiente de cartão e deixar o vizinho do lado quase às
portas da loucura com o restolhar das bolinhas explodidas de milho. Se é para
comer aquela merda, que não passa de uma dúzia de grãos de cereal revestidas de
açúcar, porque é que não se limitam a pegar nelas uma a uma, silenciosamente, e
mastigá-las com a boca bem fechada, que já basta o cheiro enjoativo que largam
quando ainda no pacote. É preciso dar-lhes a volta, sabe-se lá a escolher o
quê, já que se acaba por comer tudo, fazendo uma chinfrineira que se ouve na
sala mais longínqua? Ou será que o objetivo é apenas chamar a atenção, vejam,
olhem para mim, eu estou aqui, sou uma gorda desconsolada que ia ver a nova
comédia nacional mas como já não havia bilhetes acabei por vir parar a esta
sala e quero lá saber que os outros se estejam a tentar concentrar para
perceber como se ligam estas personagens que o realizador entendeu meter em
cenas desligadas para prender a atenção do espetador.
Valha-nos
a cena de ginástica de alta escola sobre o para-brisas do Ferrari amarelo,
primorosamente descrita pelo Javier Bardem. Ficará, sem sombra de dúvida,
registada nos anais da cinematografia pela reinvenção do erotismo na indústria
automóvel. E a comparação com o peixe limpa-fundos não lembraria ao diabo.
Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.
Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
A paixão à portuguesa
Bastava
ter ganho os dois jogos a Israel. No final das contas, até chegava ter vencido
um deles. Dito de outra forma, era suficiente uma única das três acelerações de
ontem do Cristiano para ter resolvido tranquilamente a questão da qualificação.
Não haveria mais dois jogos, teria sido mais limpo e menos emotivo.
Mas
isso seria como aqueles casamentos do tipo olá querido, correu bem o teu dia,
correu muito bem então e o teu, o meu também correu bem, liga a televisão para
vermos as notícias. Nós, portugueses, não somos nada disso, se mais provas
fossem necessárias juntar à inevitabilidade dos play-offs para a coesão
nacional, cá temos a nova cruzada de fazer de conta que recuperamos a
independência nacional no dia em que os ditadores do orçamento forem embora.
Curiosamente, o calendário é um cabrão sádico, isso acontecerá precisamente por
altura do campeonato para o qual finalmente nos qualificámos, pelo que São
Cristiano terá nos pés a capacidade de dar ao governo a paz necessária para
negociar o famoso programa cautelar que garantirá, novamente, a ausência de
responsáveis nacionais pelas políticas de austeridade. O que, convenhamos,
representa a única forma de ter uma direção política definida.
Subscrever:
Mensagens (Atom)