quinta-feira, 7 de maio de 2015

Do juízo


O Nordkaap, La Tierra del Fuego, és um cromo das obsessões geográficas, a Aurora Boreal, e dos fenómenos naturais, a Muralha da China, Machu Pichú, e dos calhaus inúteis e erodidos, és um teso, vais deixar tudo para quando já não terás forças e a memória for um farrapo e cada imagem se desvanecerá passados dois dias, pois é, mas no país já não há muitos mais marcos a assinalar e muitos dos pormenores continuam bem presentes e a Muralha de Adriano aos vinte anos e as capitais, e os miúdos dizem na escola que já lá estiveram a cada imagem dos livros de história e geografia, certo que só falam de cá e dos países mais próximos mas são poucos os colegas que também. E assim queira o destino e me mantenha as pernas para pedalar e os braços para nadar e não serão cinquenta quilómetros diários que me impedirão de montar nela e correr mundo, literalmente, que com esta idade se algum dia tivesse que ter o juízo de que sempre ouvi falar já o teria, que não ganharei outro daqui para a frente.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Dos transportes aéreos


Pode o sistema público concorrer com o privado? Pode, é o que se tem passado, pelo menos por cá, nos últimos quarenta anos. Pode o sistema público concorrer com o privado em condições de igualdade e justiça social? Creio que já houve provas suficientes de que não pode. O privado é muito mais adaptável, por razão da sua sustentabilidade sem rede, pelo que nunca haverá justiça nas retribuições entre os sistemas. Quando o privado tira partido das circunstâncias favoráveis do mercado vai ao público recrutar os mais capazes e distorce o equilíbrio a seu favor. Quando o público encontra condições políticas de fragilidade estica a corda e muda os pratos da balança para o seu lado, alterando todo um equilíbrio não só com os privados como com os restantes funcionários públicos. Pode o país funcionar sem serviços públicos? Há alguns que são exclusivamente públicos, pelo que não podem ser privatizados, outros têm uma tal dimensão que colocariam uma enorme dificuldade à sua privatização. Outros há que poderiam facilmente ser privatizados mas que se entende terem uma importância estratégica que recomenda a sua manutenção em moldes públicos. A RTP é um exemplo dos mais conhecidos.

Não sou entendido em nenhuma destas matérias, mas tenho a minha opinião, como cidadão deste país. No quadro atual em que muitos dos voos realizados pelo mundo fora, suspeito mesmo que representam uma maioria expressiva, são realizados por companhias privadas, entendo que o país não precisa de uma companhia de aviação. Sobretudo não precisa destas companhia aéreas.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Da chuva

Chove sem parar desde as seis da manhã, pelo menos. Há meses que não, por isso bem podes estar agradecido por todos os outros dias de bicicleta a seco, hoje faltou a coragem, mas para a estrada molhada não e já não estou virado para o monte a menos que leve alforges e isso não será tão cedo.

No domingo vais cumprir um ritual suspenso há três anos, já pouco interessa o que o futuro reserva, chegou a altura de viver o presente, mas não o sabes fazer, já pensas em emendar o tiro desviado da morada para sempre, para sempre enquanto te mexes, que o outro para sempre não interessa onde, voltando aos três anos agora há que saber gerir o que o tempo levou e não devolverá, os afetos já denotam a idade de ambos mas uma aproximação aos netos dar-lhe-á uma réstea de conforto, oxalá já tenha dominado o feitio dos direitos adquiridos e da projeção nos filhos, um homem não muda e uma mulher muito menos, mas a mulher é mais adaptável à natureza, por instinto de sobrevivência.

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Das sentenças


Foram quatro. Talvez seja a moda dos jogos com tiros, não são pessoas, não são gente, são apenas figuras que temos que matar para ganhar o jogo. Mas não tem história, a da televisão, as poucas palavras que se foram sabendo, para passar horas e dias e noites a jogar contra um chinês virtual, já o do Pinhão talvez tivesse, duas miúdas de vinte e poucos anos, será alucinação, serão filmes a mais que idolatram a personalidade e nos fazem donos da verdade, será a ambição que gente que é gente tem carros de luxo e come em restaurantes com estrelas e vai de férias para um paraíso nas Maldivas. Eram a ex-mulher e os pais e o filho dela que não dele, que palavras possam ter dito, que atos possam ter praticado que o levassem a descarregar duas armas, a julgar pelos ditos, a deixar o filho que tinha com a falecida sem mãe, sem avós maternos e com um pai que não o ajudará nem que seja nas escolhas nas encruzilhadas e a quem provavelmente nunca perdoará o ato insano que cometeu. E o repetir destas situações, afinal se calhar estamos atrás daqueles que decapitam jornalistas e militares, lá longe, no que toca ao desenvolvimento humano, para lá caminhamos em vez de aceitar que uma sociedade se faz de regras e só o seu cumprimento permitirá o bem comum. Que merda é essa do bem comum, isso são histórias de meninos e padres na missa e candidatos a primeiro-ministro. Que dúvida pode assaltar quem vai julgar sobre a pena a aplicar, quem com ferros mata com ferros morre, o que justifica alimentá-lo e prestar-lhe cuidados de saúde e dar-lhe uma televisão de écran plano e uma cela individual e depois mandá-lo embora passados dez ou quinze anos por bom comportamento, reabilitado para uma vida que lhe passou à frente e o deixará a atormentar a vida dos poucos que lhe venham a deitar uma mão, quiçá por vergonha, quiçá porque ainda há boas pessoas que não merecem as provações por que passam às mãos de quem não vale o ar que respira.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Pensamentos bons

Estão ali os vasos com a sementeira das petúnias, a terra por cima está a ficar seca, que caralho vou eu fazer se lhes deito água e chove ficam encharcadas e as folhinhas começam a boiar, se não rego e não chove ficam secas e já acho que me vão desaparecer todas, isto de andar a comprar sementes no supermercado é o que dá, bem fizeste em comprar as dos pepinos e dos tomates no Grémio, por falar nisso estão a ficar grandes, os rebentos dos pepinos, está a ficar na altura de os mudares para o canteiro, tens medo que os caracóis ou as lesmas ou que raio de bicharada anda por lá os comam mas não tens alternativa, mete lá uns quantos rebentos e logo vês. Uma estufa ali é que ficava bem, mas o jardim ou quintal ou horta ou lá o que seja é tão pequeno que ocupava metade daquilo e já sabes que a patroa, se sabe que lhe chamas isso atira-te com o vaso das petúnias em crescimento à testa, é contra, que fica mal e depois quando fores fazer o churrasco não tens onde sentar as pessoas, que umas almofadas para pousar por cima do murete de pedra é que ficam bem, depois calcam-me os canteiros e lá vai o projeto de mandar isto tudo à merda e passar a cultivar tomates e pepinos e feijão verde e as favas que ficaram por semear este ano. Entretanto a relva está a crescer e também crescem as ervas daninhas e todos o tipo de fetos e sei lá mais o quê e os testes da catraia que são todas as semanas e quero manter o bom hábito de rever a matéria, uma horita que seja para cada teste e na sexta feira se a malta for andar todo o dia eu também quero ir, se apanhar o empeno no regresso hei-de acabar por chegar mas quero manter o bom hábito de ir a Fátima uma vez por ano, qual promessa qual caralho, é sinal que continuo a ter pernas e me mantenho a andar com a regularidade suficiente para aguentar a estafa, olha o homem que ia connosco no domingo, setenta e quatro anos e lá fazia as subidas mais devagar mas chegava lá acima e a rolar ninguém tinha que esperar por ele e ontem ia para Viana depois do noventa do dia anterior, eu tinha que chegar aos cem e lá fui dar mais uma voltinha.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Dos filmes do verde


Pode até ser a música. E o verde. E aqueles pubs sempre animados que aparecem nos filmes, já se sabe que os filmes são feitos para criar ilusões, nos tempos dos morangos chegaste a entrar na versão inglesa desses estabelecimentos de diversão, até entraste na moda das amargas, bitter, one pint, please, o sino a tocar last drinks às onze menos cinco, depois era acordar às cinco e meia da manhã para começar a recolher os frutos vermelhos para um cesto pequeno, a partir das seis em ponto. Mas isso foi em terras de Isabel segunda e o filme era passado em parte na Irlanda, onde não foste porque a greve dos correios atrasou a entrega da carta que enviaste já atrasada a perguntar à rapariga se te dava guarida por uns dias, qual internet qual quê, nem com tal coisa se sonhava. Acabaste por ir sozinho para norte, para o distrito dos lagos, lindíssimo, onde passaste por outro pub com muita cerveja a correr, e rio de montanha logo à saída da porta.

Era largar tudo e ir viver para o verde, haveria uma chafarica onde entrar às oito da manhã e sair às cinco da tarde, qualquer lata com quatro rodas serviria para deslocações mais rápidas, a de duas rodas era para levar com o vento no trombil, uma daquelas casinhas com quartos minúsculos e uma sala com vidraria trapezóidal sobre o jardim de brincar. E a estufa nas traseiras, aquelas casas de vidro para brincadeiras de adultos.

Raio de filmes que me deixam de cabeça no ar, a lata até era a banheira Volvo onde se mete a casa inteira e ainda sobra espaço para o cão, a moça era gira e disponível depois do desgosto amoroso, faltava o Hugh Grant que sempre imaginaste ser, com a parte do distraído irresistível, sem a parte do menino mimado sempre à procura de um brinquedo novo. No final a outra parte da história, aquela em que é preciso ser-se muito parvo para deitar fora duas décadas de construção empenhada.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Das relações humanas


Não sei se pensou no que disse ou se lhe saiu boca fora, talvez habituado a usar aquela linguagem em contexto profissional, que pela profissão tudo lhe é permitido quando lida com quem não está em posição de replicar. Já nem falo na atitude de dono do mundo e da verdade, depois de ter brincado ao jogo dos espiões para ficar a saber não sei o quê, tudo o que faço naquela casa é por gosto e por reconhecimento. E depois fiquei mudo, nunca insultei ninguém da família, nunca ninguém encontrou razão para me insultar, muito menos para usar a mãe de todos os insultos. Não está bom da cabeça, é a única hipótese capaz de explicar a boca sem freio ao fim de duas décadas de convivência com demasiados, sei-o agora, momentos de uma intimidade que nem com os do meu sangue, desses também poderei falar um dia, das alegrias e ilusões desfeitas, mas sem nunca terem descido o nível ao ponto da ameaça física, o mais baixo patamar a que se pode chegar na convivência de laços de sangue. Ou estarei errado e é possível ainda chegar mais fundo? Se é não o quero saber, para mim não há mais épocas festivas, não se repetirão os almoços bem regados no calor das férias, não serão assinaladas datas à mesma mesa, tenho muitos amigos verdadeiros entre os poucos que recebo em casa e para cujas casas sou convidado.

Não prevejo pedidos de desculpas e verdade seja dita que não os quero, teria que os aceitar e não me apetece nada, contam-se pelos dedos de uma mão e certamente ainda sobram alguns o número de vezes que deixei de falar a alguém por quem passe na rua, mas se tal acontecer espero ter força anímica para manter uma relação que passará a ser estritamente institucional, naquilo que o termo puder ter quando se trata de gente que partilha traços genéticos com os meus filhos. A manutenção do estado atual das coisas fará com que haja uma ansiedade constante sem fim à vista, mas com esse estado posso eu bem, fomos bem treinados na infância, os três, com a passagem dos anos torna-se menos suportável mas as vantagens de não ter que me fazer familiarmente correto serão superiores.

Mas acabo por engolir o sapo que tão orgulhosamente mantive no pedestal ao meu lado ao longo de tantos anos, não há nada de que me arrependa. Agora sim, tenho algo para me arrepender, algo que fiz questão de impor no início da vida conjunta e de que abidquei com a mesma convicção pouco tempo depois, tão longe de imaginar que um dia poderia mesmo acontecer.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Gestos


Mais do que as mamas que se adivinham por trás dessa camisola decotada foi o gesto de puxar o cabelo para um molho por cima das costas, revelando a textura suave da pele levemente dourada por cima dos ombros e a curva longa do pescoço até à covinha de pequeno diâmetro onde a minha língua descansaria, prazenteira e feliz. Aproximar-me-ia pelas tuas costas e deixaria que o meu nariz se encostasse ao de leve ao cilindro do teu pescoço, revelando a respiração profunda, já acelerada pela visão mental dos teus olhos a fecharem e a tua própria respiração em aceleração desenfreada.

Abriria a minha boca e deixaria os meus lábios em círculo de grande diâmetro tocarem a carne morna do teu ombro a meio caminho entra a linha do pescoço e a curva descendente da linha para o braço. Lentamente, os meus dentes aumentariam a pressão sobre a carne. As minhas mãos abertas comprimiriam com pouca pressão a linha côncava acima das ancas e sentiria as tuas mãos em concha a fecharem-se sobre a minha nuca.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sonhos

Campo de batalha. O sonhador ausente em luta encarniçada com o racional cinzento. O atropelo dos pensamentos em convulsão atenuado pelos músculos agora menos enérgicos. O passo lento e progressivamente mais seguro do rezingão austero a permitir o maior deleite dos momentos, ainda que diminuídos em frequência.

O sonhador perde, o cinzentão ganha. Será? Não permitiu o cara de pau que o sonhador fosse cumprindo os seus pensamentos? E não tem o cabeça de vento uma lista cheia e sempre aberta? São agora diferentes, os sonhos, ou talvez sejam apenas de outro tipo, toda a gente se cansa de percorrer os mesmos caminhos embora encontre prazer em voltar um dia mais tarde.

No fundo, o sonhador nunca deixa de o ser.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Novela III

Ora depois de passado o período doido dos últimos meses, no meio do qual consegui arranjar nem sei bem como aquela semana de desvario ciclístico, atirei-me ao OLX convencido de que encontraria o que procurava sem ter que entrar em loucuras orçamentais. Comecei a atirar por baixo, convencido de que bastava um amortecedor fiável e com bloqueio para garantir o conforto necessário. Percebi então que tinha que gastar mais qualquer coisa e fui ver duas máquinas de reconhecida qualidade, uma Scott e uma Canyon, esquecendo, ou inconscientemente ignorando, o que tinha dito há tempos, que podia ser qualquer uma desde que o nome começasse por S e terminasse em D e no meio tivesse as letras PECIALIZE. Estive para comprar a Canyon, o que só não aconteceu por um desacordo de cem euros, desacordo que só tenho a agradecer ao dono da bicicleta. E já ponderava eu pagar a tal diferença quando em conversa no meio do monte me convenceram de que precisava do sistema Brain, exclusivo da marca que estava bloqueada na minha cabeça. Voltei ao OLX e percebi, com grande espanto, que o valor usado das máquinas em causa era da mesma ordem de grandeza do que andava a ver. Então escolhi duas ou três bicicletas que me pareciam em melhores condições, contactei os vendedores e acabei por ir fazer uma compra épica, palavra que neste contexto só será entendida por quem domina a modalidade, a Santarém, aproveitando uma deslocação de cariz familiar ao sul.

Como já alguém referiu no monte, eu comprei um chasso. É roda 26, quando agora a moda é 29 ou 27,5 para as estaturas mais compactas, é de alumínio e não em carbono para redução de peso e tem amortecedor, numa altura em que se usam semi-rígidas, mais uma vez para redução do peso. Mas eu já não vou para novo, o meio século aproxima-se vertiginosamente e está a menos de três anos, pelo que não estou aqui para corridas e o meu esqueleto agradecerá certamente a redução de pancada. Na realidade, a mudança em causa corresponde a passar da saudosa R4 GTL comprada com rigor e empenho após o início da carreira profissional para o 2.0 TDI atual em que meto a 6ª à entrada da VCI e só a tiro à saída da 2ª circular. No monte costuma dizer-se que muda a carroça mas o burro é o mesmo, mas este burro tem andado muito mais perto dos cavalos de corrida.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ano novo

Quando exprimo os meus desejos de bom ano a quem entendo que o merece estou a ser sincero. Mas em consciência não tenho motivos para acreditar que o venha a ser, ao contrário da onda otimista que me parece ser o consenso geral da época. Continuo a não conseguir entender como será possível que a civilização europeia consiga progredir economicamente à custa das outras, tendo acabado a transferência de bens e até mão de obra barata proveniente dos outros continentes. Isto em conjugação com os elevados padrões de assistência social entretanto desenvolvidos, e que no caso português, o único que conheço, implica um consumo de recursos económicos que me parece impossível de manter nas circunstâncias atuais de envelhecimento da população.

Espero, no entanto, estar a ser um velho do Restelo e vir a ficar rapidamente surpreendido pela enorme e secular capacidade de reação às adversidades sempre demonstrada do nosso povo.

Novela II

Até que me meti, nestas condições, na primeira parte da grande aventura ciclista, aquela que me preenche os sonhos há anos e que não julgava possível no quadro familiar e profissional atual e previsível nos tempos mais próximos: O Caminho Francês. A partir daqui, mesmo faltando a segunda etapa, já lá vamos, passei a designar esta como a primeira grande aventura. Ora dado o tal do quadro familiar e profissional convenci quem me fez companhia a dividir a aventura em duas partes, a primeira em seis dias de pedalada, cobrindo cerca de dois terços do percurso e cumprida em setembro, e a segunda a percorrer o restante em quatro ou cinco dias, a cumprir previsivelmente no próximo setembro.

O que tem isto a ver com a bicicleta? Ora lá fui eu com a máquina que me acompanha há mais de uma década, equipada com alforges mais uma vez, convencido de que chegava e sobrava para a encomenda. Acontece que o Caminho não é nada meigo, tem pedrinha que chegue e sobre e mesmo indo devagar e bem preparado fisicamente aquilo é coisa que mói. E depois nas descidas via os outros a passar em grande velocidade, com o amortecedor do quadro a absorver a pancada adicional do peso da bagagem enquanto a minha caía em peso sobre o quadro rígido e eu tinha que abrandar para evitar que a máquina se desintegrasse. Prometi a mim mesmo que estava na altura de me mimar com uma bicicleta de tecnologia mais atualizada.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Novela para maluquinhos das biclas

Ando como se fosse o mesmo que recebeu uma Órbita Chopper como prenda da quarta classe, adiantada porque tinha sido promessa do avô e padrinho, concretizada pela avó não madrinha mas muito mais do que isso. Para quem dá por si a pensar que já não há muitas coisas, materiais ou imateriais, que possam provocar a bebedeira da novidade, nos próximos posts propositadamente curtos deixarei as impressões que tenho tido nos últimos domingos. De seguida fica o início do relato.

Tive a pior bicicleta do grupo desde a altura em que decidi parar a GT rígida, e rígida quer dizer que não tinha suspensão na forqueta logo imagine-se há quantas décadas foi, e comprar um quadro de alumínio com uma forqueta Rockshox que tinha sido boa há muito tempo. Desde essa altura fui melhorando o pouco que era possível e fui fazendo muitos quilómetros, convencendo-me de que o que conta são as pernas, se as houver o material há-de chegar onde as outras chegam.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Começar o ano em grande

Quero fazer-te vir devagarinho, manter-te naquele ponto em que as contrações se sucedem em catadupa, em que te queres mexer descontroladamente mas sabes que isso fará terminar o processo. Não será fácil prender-te para que não o faças, mas eu gosto de desafios difíceis.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A rotunda

Sonhei que estava numa rotunda, uma assim grande tipo L'Étoile, e que pretendia percorrer metade dela e sair na mesma direção em que tinha entrado. Percorri os cento e oitenta graus e preparava-me para sair quando me deparei com um sinal de sentido proibido descomunal mesmo à entrada da rua. Fiquei surpreso, já que no meu percurso não constavam caminhos proibidos, mas segui até à próxima saída. Faço um pequeno desvio, pensei, atrasar-me-á o percurso mas chegarei ao destino na mesma. Presto-me para sair na próxima rua e qual não é a minha surpresa quando dou de caras com outro sinal vermelho com um retângulo branco horizontal no centro. Que raio, começo a ficar irritado, então e agora? Continuo a circular no trânsito infernal, os condutores esbracejam, gritam de janela aberta e tocam as buzinas furiosamente, tento sair na próxima e na seguinte e todas estão marcadas com o sinal, chegam mais carros que entram e não podem sair. Espera, pensei, é só um pesadelo, vais acordar e está tudo bem.

Acordei. Tomei o meu duche, vesti-me, tomei o pequeno almoço, calcei-me e abri a porta para sair. Começo a ouvir as buzinas e os gritos. Saio à rua e estou no meio da rotunda.


Acordei no local errado ou o código não serve para o fim a que se destina?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Para naum cair asiono os travoins e a bicicleta pahra

Tivese eu mais nada que fazer e divertir me ia a provar que a lihngua portugueza naum presiza de mais do que vinte e tries letras para que todas as palavras posam ser escritas sem quaisquer duhvidas quanto ao seu significado. E ainda retiraria os sies sedilhados, o duplo hese e todos os asentos grahficos. E tambeim tentaria acabar com situasoins que me paresem duvidozas, como o uzo do sie como hese antes dos is e dos es. E o uzo do hese como zie, em prejuhijo deste. O agah teria um forte incremento de uzo, jah que pasaria a asentuar palavras esdruhxulas e agudas.

Alehm disto ainda reporia formas de distinsaum de outras palavras que jah foram abolidas em acordos anteriores, como puarto, local de abrigo de embarcasoins, e porto, forma verbal do verbo portar. E cuar, colorasaum, diferente de cor, falar sem recurso a auxihlio escrito. Embora alterando a forma de escrita da sidade invicta para Puarto, em conformidade com a palavra asima escrita, manter lhe ia a letra maihuscula, tal como aos restantes nomes prohprios.

Jah sei que haverah outras situasoins que naum tardaraum a apontar me, mas acredito que delas posa dar boa conta em favor desta causa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Olhares

Cheguei ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar cada um dos olhares.

A maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são, quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Prazeres


Gosto de conduzir, é uma das minhas manias. E tanto encontro prazer a conduzir depressa como o encontro em passeios calmos com a caravana atrás. Em tempos adorava chapinhar nas estradas alagadas com o todo-o-terreno verdadeiro que tive o privilégio de conduzir durante mais de uma dúzia de anos. Gosto de sentir que engreno as velocidades sem deixar grilar o motor nem provocar solavancos na embraiagem, gosto de sentir o carro equilibrado numa travagem antes de uma curva, gosto de procurar o menor consumo possível em percursos que repito mantendo o tempo total da viagem. Em suma, gosto de explorar todas as vertentes do automóvel.


A mulher é outra das minhas manias. Dela gosto também de descobrir todos os botões escondidos, experimentar as reações às palavras, aos toques, aos sopros, à minha língua, aos meus dentes. Gosto de acelerar o ritmo e perceber como também se acelera ou de a conduzir com ritmo lento, mesmo até parar e ficar a deixar que a antecipação do meu próximo movimento a deixe descontrolada. O prazer mais intenso não está no limite físico mas sim na forma como estimulamos os sentidos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

No cinema

Não se pode fumar no interior de uma sala de cinema. Mas pode-se comer pipocas. Pode-se remexer o recipiente de cartão e deixar o vizinho do lado quase às portas da loucura com o restolhar das bolinhas explodidas de milho. Se é para comer aquela merda, que não passa de uma dúzia de grãos de cereal revestidas de açúcar, porque é que não se limitam a pegar nelas uma a uma, silenciosamente, e mastigá-las com a boca bem fechada, que já basta o cheiro enjoativo que largam quando ainda no pacote. É preciso dar-lhes a volta, sabe-se lá a escolher o quê, já que se acaba por comer tudo, fazendo uma chinfrineira que se ouve na sala mais longínqua? Ou será que o objetivo é apenas chamar a atenção, vejam, olhem para mim, eu estou aqui, sou uma gorda desconsolada que ia ver a nova comédia nacional mas como já não havia bilhetes acabei por vir parar a esta sala e quero lá saber que os outros se estejam a tentar concentrar para perceber como se ligam estas personagens que o realizador entendeu meter em cenas desligadas para prender a atenção do espetador.


Valha-nos a cena de ginástica de alta escola sobre o para-brisas do Ferrari amarelo, primorosamente descrita pelo Javier Bardem. Ficará, sem sombra de dúvida, registada nos anais da cinematografia pela reinvenção do erotismo na indústria automóvel. E a comparação com o peixe limpa-fundos não lembraria ao diabo.

Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A paixão à portuguesa

Bastava ter ganho os dois jogos a Israel. No final das contas, até chegava ter vencido um deles. Dito de outra forma, era suficiente uma única das três acelerações de ontem do Cristiano para ter resolvido tranquilamente a questão da qualificação. Não haveria mais dois jogos, teria sido mais limpo e menos emotivo.

Mas isso seria como aqueles casamentos do tipo olá querido, correu bem o teu dia, correu muito bem então e o teu, o meu também correu bem, liga a televisão para vermos as notícias. Nós, portugueses, não somos nada disso, se mais provas fossem necessárias juntar à inevitabilidade dos play-offs para a coesão nacional, cá temos a nova cruzada de fazer de conta que recuperamos a independência nacional no dia em que os ditadores do orçamento forem embora. Curiosamente, o calendário é um cabrão sádico, isso acontecerá precisamente por altura do campeonato para o qual finalmente nos qualificámos, pelo que São Cristiano terá nos pés a capacidade de dar ao governo a paz necessária para negociar o famoso programa cautelar que garantirá, novamente, a ausência de responsáveis nacionais pelas políticas de austeridade. O que, convenhamos, representa a única forma de ter uma direção política definida.