segunda-feira, 27 de abril de 2015

Dos filmes do verde


Pode até ser a música. E o verde. E aqueles pubs sempre animados que aparecem nos filmes, já se sabe que os filmes são feitos para criar ilusões, nos tempos dos morangos chegaste a entrar na versão inglesa desses estabelecimentos de diversão, até entraste na moda das amargas, bitter, one pint, please, o sino a tocar last drinks às onze menos cinco, depois era acordar às cinco e meia da manhã para começar a recolher os frutos vermelhos para um cesto pequeno, a partir das seis em ponto. Mas isso foi em terras de Isabel segunda e o filme era passado em parte na Irlanda, onde não foste porque a greve dos correios atrasou a entrega da carta que enviaste já atrasada a perguntar à rapariga se te dava guarida por uns dias, qual internet qual quê, nem com tal coisa se sonhava. Acabaste por ir sozinho para norte, para o distrito dos lagos, lindíssimo, onde passaste por outro pub com muita cerveja a correr, e rio de montanha logo à saída da porta.

Era largar tudo e ir viver para o verde, haveria uma chafarica onde entrar às oito da manhã e sair às cinco da tarde, qualquer lata com quatro rodas serviria para deslocações mais rápidas, a de duas rodas era para levar com o vento no trombil, uma daquelas casinhas com quartos minúsculos e uma sala com vidraria trapezóidal sobre o jardim de brincar. E a estufa nas traseiras, aquelas casas de vidro para brincadeiras de adultos.

Raio de filmes que me deixam de cabeça no ar, a lata até era a banheira Volvo onde se mete a casa inteira e ainda sobra espaço para o cão, a moça era gira e disponível depois do desgosto amoroso, faltava o Hugh Grant que sempre imaginaste ser, com a parte do distraído irresistível, sem a parte do menino mimado sempre à procura de um brinquedo novo. No final a outra parte da história, aquela em que é preciso ser-se muito parvo para deitar fora duas décadas de construção empenhada.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Das relações humanas


Não sei se pensou no que disse ou se lhe saiu boca fora, talvez habituado a usar aquela linguagem em contexto profissional, que pela profissão tudo lhe é permitido quando lida com quem não está em posição de replicar. Já nem falo na atitude de dono do mundo e da verdade, depois de ter brincado ao jogo dos espiões para ficar a saber não sei o quê, tudo o que faço naquela casa é por gosto e por reconhecimento. E depois fiquei mudo, nunca insultei ninguém da família, nunca ninguém encontrou razão para me insultar, muito menos para usar a mãe de todos os insultos. Não está bom da cabeça, é a única hipótese capaz de explicar a boca sem freio ao fim de duas décadas de convivência com demasiados, sei-o agora, momentos de uma intimidade que nem com os do meu sangue, desses também poderei falar um dia, das alegrias e ilusões desfeitas, mas sem nunca terem descido o nível ao ponto da ameaça física, o mais baixo patamar a que se pode chegar na convivência de laços de sangue. Ou estarei errado e é possível ainda chegar mais fundo? Se é não o quero saber, para mim não há mais épocas festivas, não se repetirão os almoços bem regados no calor das férias, não serão assinaladas datas à mesma mesa, tenho muitos amigos verdadeiros entre os poucos que recebo em casa e para cujas casas sou convidado.

Não prevejo pedidos de desculpas e verdade seja dita que não os quero, teria que os aceitar e não me apetece nada, contam-se pelos dedos de uma mão e certamente ainda sobram alguns o número de vezes que deixei de falar a alguém por quem passe na rua, mas se tal acontecer espero ter força anímica para manter uma relação que passará a ser estritamente institucional, naquilo que o termo puder ter quando se trata de gente que partilha traços genéticos com os meus filhos. A manutenção do estado atual das coisas fará com que haja uma ansiedade constante sem fim à vista, mas com esse estado posso eu bem, fomos bem treinados na infância, os três, com a passagem dos anos torna-se menos suportável mas as vantagens de não ter que me fazer familiarmente correto serão superiores.

Mas acabo por engolir o sapo que tão orgulhosamente mantive no pedestal ao meu lado ao longo de tantos anos, não há nada de que me arrependa. Agora sim, tenho algo para me arrepender, algo que fiz questão de impor no início da vida conjunta e de que abidquei com a mesma convicção pouco tempo depois, tão longe de imaginar que um dia poderia mesmo acontecer.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Gestos


Mais do que as mamas que se adivinham por trás dessa camisola decotada foi o gesto de puxar o cabelo para um molho por cima das costas, revelando a textura suave da pele levemente dourada por cima dos ombros e a curva longa do pescoço até à covinha de pequeno diâmetro onde a minha língua descansaria, prazenteira e feliz. Aproximar-me-ia pelas tuas costas e deixaria que o meu nariz se encostasse ao de leve ao cilindro do teu pescoço, revelando a respiração profunda, já acelerada pela visão mental dos teus olhos a fecharem e a tua própria respiração em aceleração desenfreada.

Abriria a minha boca e deixaria os meus lábios em círculo de grande diâmetro tocarem a carne morna do teu ombro a meio caminho entra a linha do pescoço e a curva descendente da linha para o braço. Lentamente, os meus dentes aumentariam a pressão sobre a carne. As minhas mãos abertas comprimiriam com pouca pressão a linha côncava acima das ancas e sentiria as tuas mãos em concha a fecharem-se sobre a minha nuca.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sonhos

Campo de batalha. O sonhador ausente em luta encarniçada com o racional cinzento. O atropelo dos pensamentos em convulsão atenuado pelos músculos agora menos enérgicos. O passo lento e progressivamente mais seguro do rezingão austero a permitir o maior deleite dos momentos, ainda que diminuídos em frequência.

O sonhador perde, o cinzentão ganha. Será? Não permitiu o cara de pau que o sonhador fosse cumprindo os seus pensamentos? E não tem o cabeça de vento uma lista cheia e sempre aberta? São agora diferentes, os sonhos, ou talvez sejam apenas de outro tipo, toda a gente se cansa de percorrer os mesmos caminhos embora encontre prazer em voltar um dia mais tarde.

No fundo, o sonhador nunca deixa de o ser.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Novela III

Ora depois de passado o período doido dos últimos meses, no meio do qual consegui arranjar nem sei bem como aquela semana de desvario ciclístico, atirei-me ao OLX convencido de que encontraria o que procurava sem ter que entrar em loucuras orçamentais. Comecei a atirar por baixo, convencido de que bastava um amortecedor fiável e com bloqueio para garantir o conforto necessário. Percebi então que tinha que gastar mais qualquer coisa e fui ver duas máquinas de reconhecida qualidade, uma Scott e uma Canyon, esquecendo, ou inconscientemente ignorando, o que tinha dito há tempos, que podia ser qualquer uma desde que o nome começasse por S e terminasse em D e no meio tivesse as letras PECIALIZE. Estive para comprar a Canyon, o que só não aconteceu por um desacordo de cem euros, desacordo que só tenho a agradecer ao dono da bicicleta. E já ponderava eu pagar a tal diferença quando em conversa no meio do monte me convenceram de que precisava do sistema Brain, exclusivo da marca que estava bloqueada na minha cabeça. Voltei ao OLX e percebi, com grande espanto, que o valor usado das máquinas em causa era da mesma ordem de grandeza do que andava a ver. Então escolhi duas ou três bicicletas que me pareciam em melhores condições, contactei os vendedores e acabei por ir fazer uma compra épica, palavra que neste contexto só será entendida por quem domina a modalidade, a Santarém, aproveitando uma deslocação de cariz familiar ao sul.

Como já alguém referiu no monte, eu comprei um chasso. É roda 26, quando agora a moda é 29 ou 27,5 para as estaturas mais compactas, é de alumínio e não em carbono para redução de peso e tem amortecedor, numa altura em que se usam semi-rígidas, mais uma vez para redução do peso. Mas eu já não vou para novo, o meio século aproxima-se vertiginosamente e está a menos de três anos, pelo que não estou aqui para corridas e o meu esqueleto agradecerá certamente a redução de pancada. Na realidade, a mudança em causa corresponde a passar da saudosa R4 GTL comprada com rigor e empenho após o início da carreira profissional para o 2.0 TDI atual em que meto a 6ª à entrada da VCI e só a tiro à saída da 2ª circular. No monte costuma dizer-se que muda a carroça mas o burro é o mesmo, mas este burro tem andado muito mais perto dos cavalos de corrida.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ano novo

Quando exprimo os meus desejos de bom ano a quem entendo que o merece estou a ser sincero. Mas em consciência não tenho motivos para acreditar que o venha a ser, ao contrário da onda otimista que me parece ser o consenso geral da época. Continuo a não conseguir entender como será possível que a civilização europeia consiga progredir economicamente à custa das outras, tendo acabado a transferência de bens e até mão de obra barata proveniente dos outros continentes. Isto em conjugação com os elevados padrões de assistência social entretanto desenvolvidos, e que no caso português, o único que conheço, implica um consumo de recursos económicos que me parece impossível de manter nas circunstâncias atuais de envelhecimento da população.

Espero, no entanto, estar a ser um velho do Restelo e vir a ficar rapidamente surpreendido pela enorme e secular capacidade de reação às adversidades sempre demonstrada do nosso povo.

Novela II

Até que me meti, nestas condições, na primeira parte da grande aventura ciclista, aquela que me preenche os sonhos há anos e que não julgava possível no quadro familiar e profissional atual e previsível nos tempos mais próximos: O Caminho Francês. A partir daqui, mesmo faltando a segunda etapa, já lá vamos, passei a designar esta como a primeira grande aventura. Ora dado o tal do quadro familiar e profissional convenci quem me fez companhia a dividir a aventura em duas partes, a primeira em seis dias de pedalada, cobrindo cerca de dois terços do percurso e cumprida em setembro, e a segunda a percorrer o restante em quatro ou cinco dias, a cumprir previsivelmente no próximo setembro.

O que tem isto a ver com a bicicleta? Ora lá fui eu com a máquina que me acompanha há mais de uma década, equipada com alforges mais uma vez, convencido de que chegava e sobrava para a encomenda. Acontece que o Caminho não é nada meigo, tem pedrinha que chegue e sobre e mesmo indo devagar e bem preparado fisicamente aquilo é coisa que mói. E depois nas descidas via os outros a passar em grande velocidade, com o amortecedor do quadro a absorver a pancada adicional do peso da bagagem enquanto a minha caía em peso sobre o quadro rígido e eu tinha que abrandar para evitar que a máquina se desintegrasse. Prometi a mim mesmo que estava na altura de me mimar com uma bicicleta de tecnologia mais atualizada.