Não sei se pensou no que disse ou
se lhe saiu boca fora, talvez habituado a usar aquela linguagem em contexto
profissional, que pela profissão tudo lhe é permitido quando lida com quem não
está em posição de replicar. Já nem falo na atitude de dono do mundo e da
verdade, depois de ter brincado ao jogo dos espiões para ficar a saber não sei
o quê, tudo o que faço naquela casa é por gosto e por reconhecimento. E depois
fiquei mudo, nunca insultei ninguém da família, nunca ninguém encontrou razão
para me insultar, muito menos para usar a mãe de todos os insultos. Não está
bom da cabeça, é a única hipótese capaz de explicar a boca sem freio ao fim de
duas décadas de convivência com demasiados, sei-o agora, momentos de uma
intimidade que nem com os do meu sangue, desses também poderei falar um dia,
das alegrias e ilusões desfeitas, mas sem nunca terem descido o nível ao ponto
da ameaça física, o mais baixo patamar a que se pode chegar na convivência de
laços de sangue. Ou estarei errado e é possível ainda chegar mais fundo? Se é
não o quero saber, para mim não há mais épocas festivas, não se repetirão os
almoços bem regados no calor das férias, não serão assinaladas datas à mesma
mesa, tenho muitos amigos verdadeiros entre os poucos que recebo em casa e para
cujas casas sou convidado.
Não prevejo pedidos de desculpas
e verdade seja dita que não os quero, teria que os aceitar e não me apetece
nada, contam-se pelos dedos de uma mão e certamente ainda sobram alguns o
número de vezes que deixei de falar a alguém por quem passe na rua, mas se tal
acontecer espero ter força anímica para manter uma relação que passará a ser
estritamente institucional, naquilo que o termo puder ter quando se trata de
gente que partilha traços genéticos com os meus filhos. A manutenção do estado
atual das coisas fará com que haja uma ansiedade constante sem fim à vista, mas
com esse estado posso eu bem, fomos bem treinados na infância, os três, com a
passagem dos anos torna-se menos suportável mas as vantagens de não ter que me
fazer familiarmente correto serão superiores.
Mas acabo por engolir o sapo que
tão orgulhosamente mantive no pedestal ao meu lado ao longo de tantos anos, não
há nada de que me arrependa. Agora sim, tenho algo para me arrepender, algo que
fiz questão de impor no início da vida conjunta e de que abidquei com a mesma
convicção pouco tempo depois, tão longe de imaginar que um dia poderia mesmo
acontecer.