segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Novela II

Até que me meti, nestas condições, na primeira parte da grande aventura ciclista, aquela que me preenche os sonhos há anos e que não julgava possível no quadro familiar e profissional atual e previsível nos tempos mais próximos: O Caminho Francês. A partir daqui, mesmo faltando a segunda etapa, já lá vamos, passei a designar esta como a primeira grande aventura. Ora dado o tal do quadro familiar e profissional convenci quem me fez companhia a dividir a aventura em duas partes, a primeira em seis dias de pedalada, cobrindo cerca de dois terços do percurso e cumprida em setembro, e a segunda a percorrer o restante em quatro ou cinco dias, a cumprir previsivelmente no próximo setembro.

O que tem isto a ver com a bicicleta? Ora lá fui eu com a máquina que me acompanha há mais de uma década, equipada com alforges mais uma vez, convencido de que chegava e sobrava para a encomenda. Acontece que o Caminho não é nada meigo, tem pedrinha que chegue e sobre e mesmo indo devagar e bem preparado fisicamente aquilo é coisa que mói. E depois nas descidas via os outros a passar em grande velocidade, com o amortecedor do quadro a absorver a pancada adicional do peso da bagagem enquanto a minha caía em peso sobre o quadro rígido e eu tinha que abrandar para evitar que a máquina se desintegrasse. Prometi a mim mesmo que estava na altura de me mimar com uma bicicleta de tecnologia mais atualizada.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Novela para maluquinhos das biclas

Ando como se fosse o mesmo que recebeu uma Órbita Chopper como prenda da quarta classe, adiantada porque tinha sido promessa do avô e padrinho, concretizada pela avó não madrinha mas muito mais do que isso. Para quem dá por si a pensar que já não há muitas coisas, materiais ou imateriais, que possam provocar a bebedeira da novidade, nos próximos posts propositadamente curtos deixarei as impressões que tenho tido nos últimos domingos. De seguida fica o início do relato.

Tive a pior bicicleta do grupo desde a altura em que decidi parar a GT rígida, e rígida quer dizer que não tinha suspensão na forqueta logo imagine-se há quantas décadas foi, e comprar um quadro de alumínio com uma forqueta Rockshox que tinha sido boa há muito tempo. Desde essa altura fui melhorando o pouco que era possível e fui fazendo muitos quilómetros, convencendo-me de que o que conta são as pernas, se as houver o material há-de chegar onde as outras chegam.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Começar o ano em grande

Quero fazer-te vir devagarinho, manter-te naquele ponto em que as contrações se sucedem em catadupa, em que te queres mexer descontroladamente mas sabes que isso fará terminar o processo. Não será fácil prender-te para que não o faças, mas eu gosto de desafios difíceis.

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A rotunda

Sonhei que estava numa rotunda, uma assim grande tipo L'Étoile, e que pretendia percorrer metade dela e sair na mesma direção em que tinha entrado. Percorri os cento e oitenta graus e preparava-me para sair quando me deparei com um sinal de sentido proibido descomunal mesmo à entrada da rua. Fiquei surpreso, já que no meu percurso não constavam caminhos proibidos, mas segui até à próxima saída. Faço um pequeno desvio, pensei, atrasar-me-á o percurso mas chegarei ao destino na mesma. Presto-me para sair na próxima rua e qual não é a minha surpresa quando dou de caras com outro sinal vermelho com um retângulo branco horizontal no centro. Que raio, começo a ficar irritado, então e agora? Continuo a circular no trânsito infernal, os condutores esbracejam, gritam de janela aberta e tocam as buzinas furiosamente, tento sair na próxima e na seguinte e todas estão marcadas com o sinal, chegam mais carros que entram e não podem sair. Espera, pensei, é só um pesadelo, vais acordar e está tudo bem.

Acordei. Tomei o meu duche, vesti-me, tomei o pequeno almoço, calcei-me e abri a porta para sair. Começo a ouvir as buzinas e os gritos. Saio à rua e estou no meio da rotunda.


Acordei no local errado ou o código não serve para o fim a que se destina?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Para naum cair asiono os travoins e a bicicleta pahra

Tivese eu mais nada que fazer e divertir me ia a provar que a lihngua portugueza naum presiza de mais do que vinte e tries letras para que todas as palavras posam ser escritas sem quaisquer duhvidas quanto ao seu significado. E ainda retiraria os sies sedilhados, o duplo hese e todos os asentos grahficos. E tambeim tentaria acabar com situasoins que me paresem duvidozas, como o uzo do sie como hese antes dos is e dos es. E o uzo do hese como zie, em prejuhijo deste. O agah teria um forte incremento de uzo, jah que pasaria a asentuar palavras esdruhxulas e agudas.

Alehm disto ainda reporia formas de distinsaum de outras palavras que jah foram abolidas em acordos anteriores, como puarto, local de abrigo de embarcasoins, e porto, forma verbal do verbo portar. E cuar, colorasaum, diferente de cor, falar sem recurso a auxihlio escrito. Embora alterando a forma de escrita da sidade invicta para Puarto, em conformidade com a palavra asima escrita, manter lhe ia a letra maihuscula, tal como aos restantes nomes prohprios.

Jah sei que haverah outras situasoins que naum tardaraum a apontar me, mas acredito que delas posa dar boa conta em favor desta causa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Olhares

Cheguei ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar cada um dos olhares.

A maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são, quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Prazeres


Gosto de conduzir, é uma das minhas manias. E tanto encontro prazer a conduzir depressa como o encontro em passeios calmos com a caravana atrás. Em tempos adorava chapinhar nas estradas alagadas com o todo-o-terreno verdadeiro que tive o privilégio de conduzir durante mais de uma dúzia de anos. Gosto de sentir que engreno as velocidades sem deixar grilar o motor nem provocar solavancos na embraiagem, gosto de sentir o carro equilibrado numa travagem antes de uma curva, gosto de procurar o menor consumo possível em percursos que repito mantendo o tempo total da viagem. Em suma, gosto de explorar todas as vertentes do automóvel.


A mulher é outra das minhas manias. Dela gosto também de descobrir todos os botões escondidos, experimentar as reações às palavras, aos toques, aos sopros, à minha língua, aos meus dentes. Gosto de acelerar o ritmo e perceber como também se acelera ou de a conduzir com ritmo lento, mesmo até parar e ficar a deixar que a antecipação do meu próximo movimento a deixe descontrolada. O prazer mais intenso não está no limite físico mas sim na forma como estimulamos os sentidos.