Quero fazer-te vir devagarinho, manter-te naquele ponto em que as contrações se sucedem em catadupa, em que te queres mexer descontroladamente mas sabes que isso fará terminar o processo. Não será fácil prender-te para que não o faças, mas eu gosto de desafios difíceis.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
quinta-feira, 16 de janeiro de 2014
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
A rotunda
Sonhei
que estava numa rotunda, uma assim grande tipo L'Étoile, e que pretendia
percorrer metade dela e sair na mesma direção em que tinha entrado. Percorri os
cento e oitenta graus e preparava-me para sair quando me deparei com um sinal
de sentido proibido descomunal mesmo à entrada da rua. Fiquei surpreso, já que
no meu percurso não constavam caminhos proibidos, mas segui até à próxima
saída. Faço um pequeno desvio, pensei, atrasar-me-á o percurso mas chegarei ao
destino na mesma. Presto-me para sair na próxima rua e qual não é a minha
surpresa quando dou de caras com outro sinal vermelho com um retângulo branco
horizontal no centro. Que raio, começo a ficar irritado, então e agora?
Continuo a circular no trânsito infernal, os condutores esbracejam, gritam de
janela aberta e tocam as buzinas furiosamente, tento sair na próxima e na
seguinte e todas estão marcadas com o sinal, chegam mais carros que entram e
não podem sair. Espera, pensei, é só um pesadelo, vais acordar e está tudo bem.
Acordei.
Tomei o meu duche, vesti-me, tomei o pequeno almoço, calcei-me e abri a porta para
sair. Começo a ouvir as buzinas e os gritos. Saio à rua e estou no meio da rotunda.
Acordei
no local errado ou o código não serve para o fim a que se destina?
quarta-feira, 11 de dezembro de 2013
Para naum cair asiono os travoins e a bicicleta pahra
Tivese eu mais nada que
fazer e divertir me ia a provar que a lihngua portugueza naum presiza de mais
do que vinte e tries letras para que todas as palavras posam ser escritas sem
quaisquer duhvidas quanto ao seu significado. E ainda retiraria os sies
sedilhados, o duplo hese e todos os asentos grahficos. E tambeim tentaria
acabar com situasoins que me paresem duvidozas, como o uzo do sie como hese
antes dos is e dos es. E o uzo do hese como zie, em prejuhijo deste. O agah
teria um forte incremento de uzo, jah que pasaria a asentuar palavras
esdruhxulas e agudas.
Alehm disto ainda reporia
formas de distinsaum de outras palavras que jah foram abolidas em acordos
anteriores, como puarto, local de abrigo de embarcasoins, e porto, forma verbal
do verbo portar. E cuar, colorasaum, diferente de cor, falar sem recurso a
auxihlio escrito. Embora alterando a forma de escrita da sidade invicta para
Puarto, em conformidade com a palavra asima escrita, manter lhe ia a letra
maihuscula, tal como aos restantes nomes prohprios.
Jah sei que haverah outras
situasoins que naum tardaraum a apontar me, mas acredito que delas posa dar boa
conta em favor desta causa.
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Olhares
Cheguei
ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o
automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da
aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o
cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido
avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos
separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para
saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o
saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que
se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no
significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses
sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar
cada um dos olhares.
A
maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são,
quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para
outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou
transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos
passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem
nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e
antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou
avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
Prazeres
Gosto
de conduzir, é uma das minhas manias. E tanto encontro prazer a conduzir
depressa como o encontro em passeios calmos com a caravana atrás. Em tempos
adorava chapinhar nas estradas alagadas com o todo-o-terreno verdadeiro que
tive o privilégio de conduzir durante mais de uma dúzia de anos. Gosto de
sentir que engreno as velocidades sem deixar grilar o motor nem provocar
solavancos na embraiagem, gosto de sentir o carro equilibrado numa travagem
antes de uma curva, gosto de procurar o menor consumo possível em percursos que
repito mantendo o tempo total da viagem. Em suma, gosto de explorar todas as
vertentes do automóvel.
A
mulher é outra das minhas manias. Dela gosto também de descobrir todos os
botões escondidos, experimentar as reações às palavras, aos toques, aos sopros,
à minha língua, aos meus dentes. Gosto de acelerar o ritmo e perceber como
também se acelera ou de a conduzir com ritmo lento, mesmo até parar e ficar a
deixar que a antecipação do meu próximo movimento a deixe descontrolada. O
prazer mais intenso não está no limite físico mas sim na forma como estimulamos
os sentidos.
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
No cinema
Não
se pode fumar no interior de uma sala de cinema. Mas pode-se comer pipocas.
Pode-se remexer o recipiente de cartão e deixar o vizinho do lado quase às
portas da loucura com o restolhar das bolinhas explodidas de milho. Se é para
comer aquela merda, que não passa de uma dúzia de grãos de cereal revestidas de
açúcar, porque é que não se limitam a pegar nelas uma a uma, silenciosamente, e
mastigá-las com a boca bem fechada, que já basta o cheiro enjoativo que largam
quando ainda no pacote. É preciso dar-lhes a volta, sabe-se lá a escolher o
quê, já que se acaba por comer tudo, fazendo uma chinfrineira que se ouve na
sala mais longínqua? Ou será que o objetivo é apenas chamar a atenção, vejam,
olhem para mim, eu estou aqui, sou uma gorda desconsolada que ia ver a nova
comédia nacional mas como já não havia bilhetes acabei por vir parar a esta
sala e quero lá saber que os outros se estejam a tentar concentrar para
perceber como se ligam estas personagens que o realizador entendeu meter em
cenas desligadas para prender a atenção do espetador.
Valha-nos
a cena de ginástica de alta escola sobre o para-brisas do Ferrari amarelo,
primorosamente descrita pelo Javier Bardem. Ficará, sem sombra de dúvida,
registada nos anais da cinematografia pela reinvenção do erotismo na indústria
automóvel. E a comparação com o peixe limpa-fundos não lembraria ao diabo.
Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.
Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
A paixão à portuguesa
Bastava
ter ganho os dois jogos a Israel. No final das contas, até chegava ter vencido
um deles. Dito de outra forma, era suficiente uma única das três acelerações de
ontem do Cristiano para ter resolvido tranquilamente a questão da qualificação.
Não haveria mais dois jogos, teria sido mais limpo e menos emotivo.
Mas
isso seria como aqueles casamentos do tipo olá querido, correu bem o teu dia,
correu muito bem então e o teu, o meu também correu bem, liga a televisão para
vermos as notícias. Nós, portugueses, não somos nada disso, se mais provas
fossem necessárias juntar à inevitabilidade dos play-offs para a coesão
nacional, cá temos a nova cruzada de fazer de conta que recuperamos a
independência nacional no dia em que os ditadores do orçamento forem embora.
Curiosamente, o calendário é um cabrão sádico, isso acontecerá precisamente por
altura do campeonato para o qual finalmente nos qualificámos, pelo que São
Cristiano terá nos pés a capacidade de dar ao governo a paz necessária para
negociar o famoso programa cautelar que garantirá, novamente, a ausência de
responsáveis nacionais pelas políticas de austeridade. O que, convenhamos,
representa a única forma de ter uma direção política definida.
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