quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Olhares

Cheguei ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar cada um dos olhares.

A maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são, quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Prazeres


Gosto de conduzir, é uma das minhas manias. E tanto encontro prazer a conduzir depressa como o encontro em passeios calmos com a caravana atrás. Em tempos adorava chapinhar nas estradas alagadas com o todo-o-terreno verdadeiro que tive o privilégio de conduzir durante mais de uma dúzia de anos. Gosto de sentir que engreno as velocidades sem deixar grilar o motor nem provocar solavancos na embraiagem, gosto de sentir o carro equilibrado numa travagem antes de uma curva, gosto de procurar o menor consumo possível em percursos que repito mantendo o tempo total da viagem. Em suma, gosto de explorar todas as vertentes do automóvel.


A mulher é outra das minhas manias. Dela gosto também de descobrir todos os botões escondidos, experimentar as reações às palavras, aos toques, aos sopros, à minha língua, aos meus dentes. Gosto de acelerar o ritmo e perceber como também se acelera ou de a conduzir com ritmo lento, mesmo até parar e ficar a deixar que a antecipação do meu próximo movimento a deixe descontrolada. O prazer mais intenso não está no limite físico mas sim na forma como estimulamos os sentidos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

No cinema

Não se pode fumar no interior de uma sala de cinema. Mas pode-se comer pipocas. Pode-se remexer o recipiente de cartão e deixar o vizinho do lado quase às portas da loucura com o restolhar das bolinhas explodidas de milho. Se é para comer aquela merda, que não passa de uma dúzia de grãos de cereal revestidas de açúcar, porque é que não se limitam a pegar nelas uma a uma, silenciosamente, e mastigá-las com a boca bem fechada, que já basta o cheiro enjoativo que largam quando ainda no pacote. É preciso dar-lhes a volta, sabe-se lá a escolher o quê, já que se acaba por comer tudo, fazendo uma chinfrineira que se ouve na sala mais longínqua? Ou será que o objetivo é apenas chamar a atenção, vejam, olhem para mim, eu estou aqui, sou uma gorda desconsolada que ia ver a nova comédia nacional mas como já não havia bilhetes acabei por vir parar a esta sala e quero lá saber que os outros se estejam a tentar concentrar para perceber como se ligam estas personagens que o realizador entendeu meter em cenas desligadas para prender a atenção do espetador.


Valha-nos a cena de ginástica de alta escola sobre o para-brisas do Ferrari amarelo, primorosamente descrita pelo Javier Bardem. Ficará, sem sombra de dúvida, registada nos anais da cinematografia pela reinvenção do erotismo na indústria automóvel. E a comparação com o peixe limpa-fundos não lembraria ao diabo.

Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A paixão à portuguesa

Bastava ter ganho os dois jogos a Israel. No final das contas, até chegava ter vencido um deles. Dito de outra forma, era suficiente uma única das três acelerações de ontem do Cristiano para ter resolvido tranquilamente a questão da qualificação. Não haveria mais dois jogos, teria sido mais limpo e menos emotivo.

Mas isso seria como aqueles casamentos do tipo olá querido, correu bem o teu dia, correu muito bem então e o teu, o meu também correu bem, liga a televisão para vermos as notícias. Nós, portugueses, não somos nada disso, se mais provas fossem necessárias juntar à inevitabilidade dos play-offs para a coesão nacional, cá temos a nova cruzada de fazer de conta que recuperamos a independência nacional no dia em que os ditadores do orçamento forem embora. Curiosamente, o calendário é um cabrão sádico, isso acontecerá precisamente por altura do campeonato para o qual finalmente nos qualificámos, pelo que São Cristiano terá nos pés a capacidade de dar ao governo a paz necessária para negociar o famoso programa cautelar que garantirá, novamente, a ausência de responsáveis nacionais pelas políticas de austeridade. O que, convenhamos, representa a única forma de ter uma direção política definida.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Talvez poético, em português arcaico ou evitando-o elegantemente.

Em arcaico

Deleito-me, com o meu olfaqueto apurado pela visão edílica do teu corpo descoberto, enquanto o teu odor fresco e doce me faz cravar-te as unhas curtas nas nádegas retesadas..

Taqueteio-te a pele, milímetro a milímetro, desde o pináculo erequeto do teu mamilo escurecido até ao rio doce e de sabor a mel que corre em turbilhão no cimo das tuas pernas.

Elegante

Aspiro, inebriado, o cheiro perfumado do teu cabelo, enquanto deixo que o meu nariz descreva círculos imperfeitos em redor do teu pescoço.


Toco-te a pele, milímetro a milímetro, pelo interior das tuas coxas, desde a curva do joelho até ao contorno quente da tua rosa em ebulição.



Digam-me, divas inalcançáveis que por aqui passais, qual das grafias preferis?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dos tralhos

Felizmente dou poucos, mas acontece. Sou meio nabo a descer em pisos escorregadios, sobretudo daqueles onde a pedra fica coberta com uma fina camada vegetal que parece gelo quando está molhada. É certo que quanto mais depressa descer menos probabilidades tenho de cair, mas os estragos potenciais são maiores, pelo que a prudência ensinou-me, numa manhã fria e luminosa vai para sete anos e nas duas semanas seguintes em que faltei à regra de boa educação de comer com faca e garfo e parecia uma cegonha com a trouxa mas em vez da criança era mesmo um braço, a andar devagar e usar uns pneus que mais pareciam de uma mota. Agora os que uso são menos agressivos visualmente, mas mantém os tacos laterais, que muito jeito dão nos trilhos inclinados. Puxam mais no monte, é verdade, mas para quem pedala num portão de quinta tanto dá como deu e o objetivo é queimar calorias e fazer músculo, que num tipo conhecido uma vida inteira pelas pernas de arame quaisquer dois centímetros a mais no diâmetro dá um efeito visual notório. Estás a ficar com pernas de gaja foi o maior dos elogios, dito pelo calmeirão com o vozeirão. Para ti sou uma gaja lésbica, resposta a dissipar todas as dúvidas.


Dos últimos, e continuamos a falar de tralhos, conta-se um voo sobre a bicla após ter entrado demasiado devagar numa vala de água, tendo a roda da frente ficado presa no fundo. Curiosamente vinha muito satisfeito com a descida, a pensar que esta época a minha técnica está num apuro fora de série. O bom destas coisas é que a seguir se cerram os dentes e fiz uma subida que nunca tinha feito até ao topo e já lá passo há mais de uma dúzia de anos. Desconfio que a forma física ganha na estrada deve ter alguma coisa a ver com o assunto, mas pode ser só impressão. Por falar em estrada lembrei-me do único tralho até agora, se descontar aquele em que parei e não consegui tirar o pé do encaixe a tempo. Íamos num grupo pequeno e colocou-se a dúvida sobre a idade da caminheira que seguia sozinha na berma da estrada, no mesmo sentido, pelo que ao longe se vislumbrava a silhueta posterior, de aspeto firme e bem constituído. À passagem pela visada todo o grupo virou a cabeça, tendo o atleta à minha frente abrandado o ritmo, pecado mortal, já se sabe, resultando no encontro da minha roda da frente com a de trás dele e consequente medição da temperatura do asfalto. Pouco perspicaz como sou nem fui capaz de arranjar melhor resposta do que um estou bem, para responder à senhora, que afinal já não era uma jovem mas mantinha uma excelente forma física, certamente com o contributo das caminhadas, e se mostrou preocupada com as consequências da minha avaliação.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Do sexo, finalmente.

As pernas doridas, naquele ponto em que a quase dor sabe tão bem, esticam-se e sente-se que somos donos do mundo, prontos a ir onde nos apetecer. A respiração profunda, cheia. E o cansaço, aquele que desaparece mal o cérebro, limpo, leve, grande e vazio como o profundo nada universal, se ilumina apontando para a próxima direção do prazer.


Sexo tântrico, era o que era. Para começar.