quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dos tralhos

Felizmente dou poucos, mas acontece. Sou meio nabo a descer em pisos escorregadios, sobretudo daqueles onde a pedra fica coberta com uma fina camada vegetal que parece gelo quando está molhada. É certo que quanto mais depressa descer menos probabilidades tenho de cair, mas os estragos potenciais são maiores, pelo que a prudência ensinou-me, numa manhã fria e luminosa vai para sete anos e nas duas semanas seguintes em que faltei à regra de boa educação de comer com faca e garfo e parecia uma cegonha com a trouxa mas em vez da criança era mesmo um braço, a andar devagar e usar uns pneus que mais pareciam de uma mota. Agora os que uso são menos agressivos visualmente, mas mantém os tacos laterais, que muito jeito dão nos trilhos inclinados. Puxam mais no monte, é verdade, mas para quem pedala num portão de quinta tanto dá como deu e o objetivo é queimar calorias e fazer músculo, que num tipo conhecido uma vida inteira pelas pernas de arame quaisquer dois centímetros a mais no diâmetro dá um efeito visual notório. Estás a ficar com pernas de gaja foi o maior dos elogios, dito pelo calmeirão com o vozeirão. Para ti sou uma gaja lésbica, resposta a dissipar todas as dúvidas.


Dos últimos, e continuamos a falar de tralhos, conta-se um voo sobre a bicla após ter entrado demasiado devagar numa vala de água, tendo a roda da frente ficado presa no fundo. Curiosamente vinha muito satisfeito com a descida, a pensar que esta época a minha técnica está num apuro fora de série. O bom destas coisas é que a seguir se cerram os dentes e fiz uma subida que nunca tinha feito até ao topo e já lá passo há mais de uma dúzia de anos. Desconfio que a forma física ganha na estrada deve ter alguma coisa a ver com o assunto, mas pode ser só impressão. Por falar em estrada lembrei-me do único tralho até agora, se descontar aquele em que parei e não consegui tirar o pé do encaixe a tempo. Íamos num grupo pequeno e colocou-se a dúvida sobre a idade da caminheira que seguia sozinha na berma da estrada, no mesmo sentido, pelo que ao longe se vislumbrava a silhueta posterior, de aspeto firme e bem constituído. À passagem pela visada todo o grupo virou a cabeça, tendo o atleta à minha frente abrandado o ritmo, pecado mortal, já se sabe, resultando no encontro da minha roda da frente com a de trás dele e consequente medição da temperatura do asfalto. Pouco perspicaz como sou nem fui capaz de arranjar melhor resposta do que um estou bem, para responder à senhora, que afinal já não era uma jovem mas mantinha uma excelente forma física, certamente com o contributo das caminhadas, e se mostrou preocupada com as consequências da minha avaliação.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Do sexo, finalmente.

As pernas doridas, naquele ponto em que a quase dor sabe tão bem, esticam-se e sente-se que somos donos do mundo, prontos a ir onde nos apetecer. A respiração profunda, cheia. E o cansaço, aquele que desaparece mal o cérebro, limpo, leve, grande e vazio como o profundo nada universal, se ilumina apontando para a próxima direção do prazer.


Sexo tântrico, era o que era. Para começar.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Das vias férreas


Como obras de engenharia, as linhas de comboio são construções extraordinárias, do melhor que se fez e faz. As inclinações são reduzidas, porque as rodas são metálicas e derrapariam sobre os carris se fosse necessária muita força para vencer as subidas e travar nas descidas. As curvas são muito suaves, para que as composições não saltem fora dos carris devido à velocidade. Isto leva a que se abram canais nos montes, se construam pontes e se façam túneis. Com a proliferação de estradas e a prosperidade económica que trouxe automóveis para quase toda a gente o número de passageiros em muitas linhas diminuiu drasticamente e ditou a morte do serviço de transporte. Mas será de vistas curtas e uma enorme falta de bom senso deixar degradar estas obras. E pior ainda permitir que sejam inutilizadas pelo utilização como estradas, como já em alguns locais se fez.

No já longínquo ano de 1988 tomei o gosto por percorrer estas infra-estruturas adaptadas ao lazer individual de quem por lá caminha ou pedala, numa zona mineira de Inglaterra, pejada de curvas e pontes metálicas. Com muita pena, não viajei por linhas míticas como as do Tua ou do Corgo, por exemplo, mas tenho-o feito nas vias agora adaptadas, imaginando o apito das míticas máquina a vapor, o tum-tum das rodas nas emendas entre carris, o cheiro do carvão queimado que enchia o recreio da escola na saudosa primeira classe.
 


No passado domingo conheci mais uma, a linha do Tâmega, da Livração até Arco de Baúlhe, 53 km para cada lado de pura diversão. O troço de cerca de 10 km até Amarante não está arranjado, mas os carris foram levantados e passa-se bem de bicicleta. Há uma ponte metálica comprida que requer muito cuidado e grande desprendimento mental para atravessar, operação que não deixaria os meus filhos fazerem. O percurso entre Amarante e o destino está muito bom, mesmo melhor do que um exemplo recente por onde passeei, de novo em Inglaterra. Será até um luxo, atendendo ao resultado do que agora vemos como excessos. Depois deste passeio já houve quem falasse na linha do Corgo, da Régua a Chaves. São 97 km, de acordo com a minha pesquisa, e já fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu acho que há um enorme potencial turístico no aproveitamento das linhas antigas, embora tal desiderato implique investimentos não desprezáveis. Mas acredito que os novos "Caminhos de Santiago" serão nos milhares de quilómetros de linhas férreas desativados em todo o mundo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Conversas no monte

"- Os halterofilistas Ucranianos masturbam-se e bebem o seu próprio sémen antes das provas. (As palavras não foram rigorosamente estas, uma dúzia de homens no monte excitados pelos saltos e exaustos pela subida ao radar usam uma linguagem um pouco diferente).

- Isso não faz sentido. Se já veio de dentro porque é que foi lá parar outra vez?"

Porque é que se trocam horas de sono e lazer para ouvir e dizer disparates destes? Porque estes raros momentos de insanidade mental são uma ótima forma de enfrentar os assuntos sérios da semana seguinte.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Cá está ela!

Tive acesso, em primeira mão, ao guião da reforma do estado. Sim, sou bem relacionado. Reza assim:

  1. O estado, na sua versão atual nascido a 25 de Abril de 1974, tem 39 anos de idade. Como tal faltam-lhe ainda 27 anos para a aposentação, a manter-se até lá a idade legal atualmente em discussão. Daqui se conclui que o estado não tem direito a reforma tão cedo.
  2. Os pais do estado atual foram perseguidos, presos e amordaçados pelo anterior, o então novo. Agora, como forma de compensação pelo que passaram, este estado manter-lhes-á as compensações que entenderam justas, ainda que quem se mantém a trabalhar não tenha condições de gerar os recursos necessários. Aplica-se esta condição com especial prioridade a quem teve nas mãos os destinos do país.
  3. A viúva do estado falecido, por coincidência, no mesmo dia do nascimento do atual, então designado por novo, Srª Dª Ditadura dos Santos, não obstante ter residência fixada na maior das ex-colónias africanas, beneficiará de um regime de exceção que lhe permitirá ficar isenta do corte na acumulação de pensões, recentemente anunciado.

Cumpre-se, assim, sem margem para dúvidas, mais uma das tarefas hercúleas que o atual governo tem em mãos.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Da má educação

Fui enganado. Tenho que o admitir e confesso-o aqui publicamente. E deixei-me enganar por duas vezes. Acreditava, na altura, que as maiorias de partido único constituíam a única forma de levar à prática um trabalho com princípio, meio e fim. Depois deste infeliz exemplo e da experiência adquirida ao longo destes anos que já começam a tornar-se muitos, chego à conclusão de que quem nos governa é míope por definição da profissão, por isso trabalhos com horizonte para cumprir só poderão ser levados a cabo por via de pessoas e entidades exteriores à coisa pública. A não ser que a profissão volte a ser atrativa para quem tem essa capacidade, do que duvido para as próximas décadas.


Voltando ao engano, pergunto-me como pude ser tão ingénuo e deixar-me ir na conversa de quem parecia ter certezas sobre tudo e encontrava sempre os argumentos mais contundentes para justificar cada passo dado em frente, na direção do abismo que agora reveste a forma de poço sem fundo. As árvores não crescem até ao céu, dizia quem tinha a sapiência da experiência. Mas aquilo que me deixa, agora, profundamente angustiado é ouvir a mesma pessoa justificar os seus atos com a mesma certeza que então demonstrava e reafirmar que o caminho era o correto e que agora tudo seria diferente se o tivessem deixado terminar a tarefa. E que quem o impediu foi um alargado bando de malfeitores em conluio, inclusivamente quem ele escolheu para o acompanhar. Lembra o famoso ministro iraquiano, quando já tinha os americanos à porta. Com uma diferença, é que este senhor pode voltar num dia mau para a história.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Defeito de personalidade

É o que se pode chamar um defeito bom. Porque quem perde sou sempre eu. Não consigo estabelecer um balanço entre ganhos e perdas, porque só o faço porque sei que pode ser eficaz em situações onde o pedido direto não funcionaria. 

Quando eu quiser algo de ti, não esperes que o faça senão na minha forma particular de pedir, ou seja, usando outras palavras, o meu sorriso ingenuamente sedutor e o meu olhar penetrante.