terça-feira, 22 de outubro de 2013

Da má educação

Fui enganado. Tenho que o admitir e confesso-o aqui publicamente. E deixei-me enganar por duas vezes. Acreditava, na altura, que as maiorias de partido único constituíam a única forma de levar à prática um trabalho com princípio, meio e fim. Depois deste infeliz exemplo e da experiência adquirida ao longo destes anos que já começam a tornar-se muitos, chego à conclusão de que quem nos governa é míope por definição da profissão, por isso trabalhos com horizonte para cumprir só poderão ser levados a cabo por via de pessoas e entidades exteriores à coisa pública. A não ser que a profissão volte a ser atrativa para quem tem essa capacidade, do que duvido para as próximas décadas.


Voltando ao engano, pergunto-me como pude ser tão ingénuo e deixar-me ir na conversa de quem parecia ter certezas sobre tudo e encontrava sempre os argumentos mais contundentes para justificar cada passo dado em frente, na direção do abismo que agora reveste a forma de poço sem fundo. As árvores não crescem até ao céu, dizia quem tinha a sapiência da experiência. Mas aquilo que me deixa, agora, profundamente angustiado é ouvir a mesma pessoa justificar os seus atos com a mesma certeza que então demonstrava e reafirmar que o caminho era o correto e que agora tudo seria diferente se o tivessem deixado terminar a tarefa. E que quem o impediu foi um alargado bando de malfeitores em conluio, inclusivamente quem ele escolheu para o acompanhar. Lembra o famoso ministro iraquiano, quando já tinha os americanos à porta. Com uma diferença, é que este senhor pode voltar num dia mau para a história.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Defeito de personalidade

É o que se pode chamar um defeito bom. Porque quem perde sou sempre eu. Não consigo estabelecer um balanço entre ganhos e perdas, porque só o faço porque sei que pode ser eficaz em situações onde o pedido direto não funcionaria. 

Quando eu quiser algo de ti, não esperes que o faça senão na minha forma particular de pedir, ou seja, usando outras palavras, o meu sorriso ingenuamente sedutor e o meu olhar penetrante.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Lembrando o rei de Espanha

Tenho um grande respeito, cada vez maior, pelos idosos. Quando penso que as sociedades que ainda se regem por leis tribais confiam os seus destinos aos mais velhos, penso que todos poderíamos beneficiar se essa regra fosse adaptada ao governo dos países ditos democráticos, que cada vez mais tendem a desprezar a sabedoria de quem já passou por quase tudo na vida e sabe prever nas palavras e atitudes dos mais novos as suas verdadeiras intenções. Naturalmente, há gente nova com enorme capacidade e maior motivação para dirigir, mas cada vez é mais difícil conseguir escolher essas pessoas dentre um numeroso grupo que utiliza técnicas cada vez mais sofisticadas para se fazer sobressair, apenas pela vontade de ser conhecido a todo o custo.

Voltando aos idosos, aprecio neles a qualidade da discrição, muitos sabem exatamente o que se passa no mundo que os rodeia, seja na esfera familiar ou no universo mais alargado do público, mas mantém-se calados até que alguém lhes peça ajuda. Já me entristece quando vejo que há outros, que até tiveram papéis muito relevantes à escala das nações, onde granjearam respeito e admiração, que tentam usar os seus créditos em prol de objetivos sectários, quiçá até pessoais, fazendo afirmações de grande exagero e a roçar o ridículo. E eu fico hesitante entre a falta de lucidez que me custa admitir em quem tanto tempo se mostrou muito perspicaz e a tentativa de subverter um sistema apenas porque se deixou se fazer parte dele. Seja qual for a razão, fico incomodado.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Os olhos também comem

O desejo tem essa caraterística deliciosa de tornar a visão de alguém ou algo que tão bem conhecemos num prazer semelhante ao sentido da primeira vez que essa experiência foi vivenciada. Pode ser uma pessoa, um animal, uma paisagem, um alimento, um objeto. Pode ser uma parte do corpo humano que esteja geralmente oculta. Cuja visão desperte na mente de quem olha uma reação de apreço, demonstrada por um brilho no olhar, um suspiro, a aceleração da respiração como resposta ao aumento do ritmo cardíaco.


Mas realmente belo é sentir que quem nos olha como se da primeira vez, quem procura o físico escondido e se vai, lentamente, passo a passo, aproximando do objetivo ocular, quem liberta finalmente aquilo que se engrandece sob a expetativa de vislumbrar no rosto da exploradora algum pequeno traço revelador da sua satisfação, quem nos vê, demonstra que o que vê corresponde ao que esperava e lhe incute um impulso irreprimível de passar à prática o que na sua mente se desenhava durante o percurso até então realizado.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aproveitando a moda

Apareceu com o cabelo impecavelmente alinhado, apanhado atrás, os longos fios num tronco regular de diâmetro constante, qual torrente jorrando de uma bica refrescante. Olhou-a apreciativamente num esboço de sorriso enigmático que a eletrizava de curiosidade e a deixava com o pensamento num turbilhão, enquanto revia mentalmente o seu aspeto, tentando decifrar o significado do seu olhar.


Perderam-se nos braços um do outro, em beijos e carícias cuja intensidade o tempo amplificara, suspiros e gemidos que confirmavam a primazia da contenção como meio de potenciar a satisfação. Pediu-lhe que não se deitasse enquanto lhe segurava firmemente, com ambas as mãos, o cordão que lhe pendia da cabeça. Os puxões suaves que a embalavam ao ritmo das investidas que fazia nas suas costas faziam-na estremecer e da sua garganta saíam pequenos gritos abafados que o incitavam a aumentar o ritmo. Enquanto fechava os olhos reviu mentalmente a expressão facial que a intrigara.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Pés ao caminho



Parei o carro, saí e dirigi-me à porta do escritório. Abri-a e entrei, deslocando-me pelo corredor até à cadeira que habitualmente ocupo. Sentei-me. Ou seja, resumindo, andei uns passos.

Saí de casa e fui à padaria, que fica na mesma rua, a três ou quatro minutos a pé. Comprei seis pães e regressei pelo mesmo caminho. Entrei em casa e tomei o pequeno almoço. Fui ao pão.

Calcei as sapatilhas e liguei os auriculares no telefone esperto. Escolhi o "Dark side of the moon" e fechei a porta atrás de mim. Percorri a rua onde moro até à rotunda, virei em direção ao mar e acelerei o passo ao ritmo da música. Entrei no passadiço junto às dunas, percorri-o até ao final da zona com distância marcada no chão e o álbum acabou. Carreguei em "L. A. woman" e voltei para trás. O vento fresco no trombil e a batida agora mais rápida fizeram-me alargar ainda mais o passo. Fiz uma derivação no caminho após a saída do passadiço e regressei a casa para tomar um duche. Duas horas depois de ter começado, estava de alma lavada. Tinha ido caminhar.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Notícias da horta



É um interesse antigo, tem piada colocar uma semente na terra preparada com cuidado, regá-la, ter a surpresa de ver emergir uma planta muito verde e frágil, continuar a regá-la, retirar as ervas daninhas que vão nascendo nas imediações. Cientista falhado, procedo a experiências com pequenas amostras colocadas em locais mais abrigados, com diferentes tipos de terra. A primeira conclusão é que a terra usada como base é fraca, a segunda é que a densidade de sementes usada é grande, face ao diminuto espaço disponível. A terceira é que são demasiadas experiências em simultâneo e, ano após ano, os progressos são muito reduzidos, o melhor é mesmo escolher apenas uma ou duas espécies e começar a estudar com maior profundidade.

O feijão verde até deu resultado, já recolhi semente para a próxima época. As cenouras germinaram por todo o lado mas cresceram muito pouco, não me parece que cheguem sequer a dimensão que permita a prova.


Já os tomates, senhores, depois de ter passado um ano a vê-los crescer e amadurecer aos milhares de toneladas em estufas, dando a sensação de que aquilo é só deitar a semente à terra ir amarrando a planta à medida que cresce, foram a minha grande desilusão. Até germinaram em quantidade, até mantiveram uma cor verde e viçosa, mas nem uma única flor, para amostra, apareceu. Não me cresceram os tomates!