Fui enganado. Tenho que o admitir
e confesso-o aqui publicamente. E deixei-me enganar por duas vezes. Acreditava,
na altura, que as maiorias de partido único constituíam a única forma de levar
à prática um trabalho com princípio, meio e fim. Depois deste infeliz exemplo e
da experiência adquirida ao longo destes anos que já começam a tornar-se
muitos, chego à conclusão de que quem nos governa é míope por definição da
profissão, por isso trabalhos com horizonte para cumprir só poderão ser levados
a cabo por via de pessoas e entidades exteriores à coisa pública. A não ser que
a profissão volte a ser atrativa para quem tem essa capacidade, do que duvido
para as próximas décadas.
Voltando ao engano, pergunto-me
como pude ser tão ingénuo e deixar-me ir na conversa de quem parecia ter certezas sobre tudo e encontrava sempre os argumentos mais contundentes para
justificar cada passo dado em frente, na direção do abismo que agora reveste a
forma de poço sem fundo. As árvores não crescem até ao céu, dizia quem tinha a
sapiência da experiência. Mas aquilo que me deixa, agora, profundamente
angustiado é ouvir a mesma pessoa justificar os seus atos com a mesma certeza
que então demonstrava e reafirmar que o caminho era o correto e que agora tudo
seria diferente se o tivessem deixado terminar a tarefa. E que quem o impediu
foi um alargado bando de malfeitores em conluio, inclusivamente quem ele
escolheu para o acompanhar. Lembra o famoso ministro iraquiano, quando já tinha
os americanos à porta. Com uma diferença, é que este senhor pode voltar num dia
mau para a história.

