sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Notícias da horta



É um interesse antigo, tem piada colocar uma semente na terra preparada com cuidado, regá-la, ter a surpresa de ver emergir uma planta muito verde e frágil, continuar a regá-la, retirar as ervas daninhas que vão nascendo nas imediações. Cientista falhado, procedo a experiências com pequenas amostras colocadas em locais mais abrigados, com diferentes tipos de terra. A primeira conclusão é que a terra usada como base é fraca, a segunda é que a densidade de sementes usada é grande, face ao diminuto espaço disponível. A terceira é que são demasiadas experiências em simultâneo e, ano após ano, os progressos são muito reduzidos, o melhor é mesmo escolher apenas uma ou duas espécies e começar a estudar com maior profundidade.

O feijão verde até deu resultado, já recolhi semente para a próxima época. As cenouras germinaram por todo o lado mas cresceram muito pouco, não me parece que cheguem sequer a dimensão que permita a prova.


Já os tomates, senhores, depois de ter passado um ano a vê-los crescer e amadurecer aos milhares de toneladas em estufas, dando a sensação de que aquilo é só deitar a semente à terra ir amarrando a planta à medida que cresce, foram a minha grande desilusão. Até germinaram em quantidade, até mantiveram uma cor verde e viçosa, mas nem uma única flor, para amostra, apareceu. Não me cresceram os tomates!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O tempo



Passou-se um quarto de século, algo que parecia impensável não há muito tempo atrás.

Acaba por ser a primeira etapa daquilo que permite aos verdadeiros escritores, que não manifestamente o caso, a bagagem suficiente para saberem do que falam. Olhando para trás, desapareceu gente que deveria ainda por cá andar se as leis da vida se regessem por verdades estatísticas, desfizeram-se casamentos que durante muito tempo passaram por inabaláveis e viveram-se acontecimentos que se passados ao cinema pareceriam desfasados da realidade mundana.

Foi um regresso a onde fui feliz, aparentemente contra a regra inabalável. Mas foi um regresso fugaz, numa posição diferente, num cenário completamente diverso. Também ali nada está como dantes, o tempo entretanto passado resultaria igualmente numa película cinematográfica de final feliz, com peripécias suficientes para manter o ritmo intenso das cenas.


Foi um dia para não esquecer, na companhia de verdadeiros amigos intemporais, daqueles que a distância apenas consolida o sentimento. Foi ali que os meus horizontes se abriram definitivamente e onde tive a certeza de que estava pronto para todos os caminhos que se abrissem diante dos meus olhos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Demissão

Demitiste-te. Demitiste-te de uma função que não admite demissão. Mas pediste, pediste não, que tu não pedes nada, exiges sem o dizer, reclamas com silêncios e frases geladas, impuseste que me mantivesse no meu posto, numa missão que só tem sentido se a tua função continuar ativa, pela própria definição semântica das palavras. Que tens direitos. Que tens trabalho feito. Ensinaste-me que os direitos existem se associados a deveres. Ou então não foste tu, apenas quem contigo partilhou a função de que te demitiste. Que nunca acaba, é função vitalícia, assim recordo de me teres ensinado, parece que quem disso se esqueceu foste tu. Não me passa pela cabeça exigir um dia com base naquilo que é meu dever, como quem tem um crédito e decide resgatá-lo. Para mim isso coloca um ponto final numa relação comercial. E eu tenho poucas relações pessoais para me dar ao luxo de as mercantilizar. Pensava que também assim pensavas, que também de ti brotava esta quase generosidade. Agora concluo que não, que foi mais uma coisa que desapareceu com o mentor deste espírito.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Ainda o verão

Vens de camisa branca, para contrastar com esse moreno profundo do verão excecionalmente ensolarado, que aproveitaste até ao tutano. Metes no meio esses olhos verdes, que de tão brilhantes à luz do sol me incutem impulsos suicidas de mergulhos de cabeça para lagos desconhecidos.

Sabes que não te posso tocar mas gostas de me desconcertar para me teres à mão das tuas necessidades. De ti levo estremecimentos fugazes que alimentam o meu ego narciso e ações que protelas até que eu te saiba empurrar com palavras que aprendi certeiras aos ouvidos femininos.


Resta-me o prazer supremo do teu sorriso quando te dou uma tarefa nova capaz de te estimular o cérebro. Mas é tão raro.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Até oiço a música no ar

Falta um ano e meio para reviver, durante aí uns bons dois meses, o sentimento de esperança e prosperidade que se seguiu às grandes arruadas dos meados da década de setenta. Acabarão os cortes nas pensões, o desemprego e o IVA na restauração. Depois virá o dia seguinte e os maus de agora acusarão os novos maus, enquanto o forem, de terem faltado à verdade. Toda a gente sabe disto. Porque que é que se finge que não?

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Das estradas


Tivesse eu a possibilidade de fazer apenas o que me dá na real gana, como aconteceu durante a adolescência e uma parte do início da vida adulta, e agarrava na bicicleta e percorria o país inteiro durante umas boas três semanas. Já tive uma fase de muita estrada de carro, já tive outra fase de querer ver outras paragens garantindo o meu próprio sustento durante a estadia fora de portas. Neste momento gostava de percorrer as vilas deste país e as estradas que as ligam com lentidão e sem outra produção de dióxido de carbono que não a da minha própria respiração.

Sendo independente e autónomo pergunto-me por que razão não conseguiria viver emocionalmente sozinho. Quando entro numa estrada não me contento sem lhe chegar ao fim. Quando uma mulher bonita me deixa entrar no mais fundo da sua cabecinha, tenho que saber o que se esconde para lá de cada curva, numa viagem sem fim à vista. Felizmente conheço poucas mulheres que escondam frondosas paisagens floridas e coloridas para lá da fronteira que o meu passaporte permitiu transpor.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O verdadeiro culpado

Por cá só se ouve o click click dos ratos de alguns computadores. Nem os telefones tocam. Acho que o país está parado à espera do sol.

Esta tese merece reflexão profunda e pode facilmente tornar-se na alavanca de inovação potenciadora da onda crescente, retumbante e imparável de confiança, empenho e produtividade que nos devolverá à liderança incontestável dos destinos do planeta.

Se o estado do tempo for unanimemente eleito como o verdadeiro culpado da crise então está terá fim à vista e após a chegada do sol e do calor os políticos unirão as mãos apenas pelo tempo suficiente para soltar um grito de felicidade, agarrando de seguida nas enxadas e correndo para os campos para plantar as batatas, atrasadas pela terra encharcada. Os jornalistas deixarão de fazer perguntas parvas e correrão a conduzir os rebanhos para os pastos e os comentadores políticos, classe mais despontante do que cogumelos em dias quentes e húmidos, limparão as matas e recolherão biomassa suficiente para a produção de energia renovável para todo o país.

O tempo escuro e frio é terrível, voltei a adormecer depois do despertador tocar.