Demitiste-te. Demitiste-te de uma
função que não admite demissão. Mas pediste, pediste não, que tu não pedes
nada, exiges sem o dizer, reclamas com silêncios e frases geladas, impuseste
que me mantivesse no meu posto, numa missão que só tem sentido se a tua função
continuar ativa, pela própria definição semântica das palavras. Que tens
direitos. Que tens trabalho feito. Ensinaste-me que os direitos existem se
associados a deveres. Ou então não foste tu, apenas quem contigo partilhou a
função de que te demitiste. Que nunca acaba, é função vitalícia, assim recordo
de me teres ensinado, parece que quem disso se esqueceu foste tu. Não me passa
pela cabeça exigir um dia com base naquilo que é meu dever, como quem tem um crédito
e decide resgatá-lo. Para mim isso coloca um ponto final numa relação
comercial. E eu tenho poucas relações pessoais para me dar ao luxo de as
mercantilizar. Pensava que também assim pensavas, que também de ti brotava esta
quase generosidade. Agora concluo que não, que foi mais uma coisa que desapareceu
com o mentor deste espírito.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
segunda-feira, 23 de setembro de 2013
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Ainda o verão
Vens de camisa branca, para
contrastar com esse moreno profundo do verão excecionalmente ensolarado, que
aproveitaste até ao tutano. Metes no meio esses olhos verdes, que de tão
brilhantes à luz do sol me incutem impulsos suicidas de mergulhos de cabeça
para lagos desconhecidos.
Sabes que não te posso tocar mas
gostas de me desconcertar para me teres à mão das tuas necessidades. De ti levo
estremecimentos fugazes que alimentam o meu ego narciso e ações que protelas
até que eu te saiba empurrar com palavras que aprendi certeiras aos ouvidos
femininos.
Resta-me o prazer supremo do teu
sorriso quando te dou uma tarefa nova capaz de te estimular o cérebro. Mas é tão
raro.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
Até oiço a música no ar
Falta um ano e meio para reviver,
durante aí uns bons dois meses, o sentimento de esperança e prosperidade que se
seguiu às grandes arruadas dos meados da década de setenta. Acabarão os cortes
nas pensões, o desemprego e o IVA na restauração. Depois virá o dia seguinte e
os maus de agora acusarão os novos maus, enquanto o forem, de terem faltado à
verdade. Toda a gente sabe disto. Porque que é que se finge que não?
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Das estradas
Tivesse eu a possibilidade de fazer apenas o que me dá na real gana, como
aconteceu durante a adolescência e uma parte do início da vida adulta, e
agarrava na bicicleta e percorria o país inteiro durante umas boas três
semanas. Já tive uma fase de muita estrada de carro, já tive outra fase de
querer ver outras paragens garantindo o meu próprio sustento durante a estadia
fora de portas. Neste momento gostava de percorrer as vilas deste país e as
estradas que as ligam com lentidão e sem outra produção de dióxido de carbono
que não a da minha própria respiração.
Sendo independente e autónomo pergunto-me por que razão não conseguiria
viver emocionalmente sozinho. Quando entro numa estrada não me contento sem lhe
chegar ao fim. Quando uma mulher bonita me deixa entrar no mais fundo da sua
cabecinha, tenho que saber o que se esconde para lá de cada curva, numa viagem
sem fim à vista. Felizmente conheço poucas mulheres que escondam frondosas
paisagens floridas e coloridas para lá da fronteira que o meu passaporte
permitiu transpor.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
O verdadeiro culpado
Por cá só se ouve o click click dos ratos de alguns computadores. Nem os telefones tocam. Acho que o país está parado à espera do sol.
Esta tese merece reflexão profunda e pode facilmente tornar-se na alavanca de inovação potenciadora da onda crescente, retumbante e imparável de confiança, empenho e produtividade que nos devolverá à liderança incontestável dos destinos do planeta.
Se o estado do tempo for unanimemente eleito como o verdadeiro culpado da crise então está terá fim à vista e após a chegada do sol e do calor os políticos unirão as mãos apenas pelo tempo suficiente para soltar um grito de felicidade, agarrando de seguida nas enxadas e correndo para os campos para plantar as batatas, atrasadas pela terra encharcada. Os jornalistas deixarão de fazer perguntas parvas e correrão a conduzir os rebanhos para os pastos e os comentadores políticos, classe mais despontante do que cogumelos em dias quentes e húmidos, limparão as matas e recolherão biomassa suficiente para a produção de energia renovável para todo o país.
O tempo escuro e frio é terrível, voltei a adormecer depois do despertador tocar.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Eu também mostro a minha
Não podia deixar deixar a minha amiga Pseudo mostrar o que tem de bonito sem lhe retribuir a gentileza. Eu apenas mostro o que tenho, que de bonito não tem nada. Ora então cá vai:
E sim, eu sou persistente.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Da coerência
Será coerente andar no pátio de guarda-chuva aberto a tirar à mangueirada a lama acumulada nos sapatos, nas meias, nas calças de alças, nas luvas e no impermeável depois de ter andado toda a manhã a apanhar chuva pelo capacete abaixo e lama por tudo acima?
E para a especialista, como se mantém a porcaria dos óculos sem embaciar, para não se levar nos olhos com a lama das rodas dos gajos da frente?
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