Falta um ano e meio para reviver,
durante aí uns bons dois meses, o sentimento de esperança e prosperidade que se
seguiu às grandes arruadas dos meados da década de setenta. Acabarão os cortes
nas pensões, o desemprego e o IVA na restauração. Depois virá o dia seguinte e
os maus de agora acusarão os novos maus, enquanto o forem, de terem faltado à
verdade. Toda a gente sabe disto. Porque que é que se finge que não?
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
quinta-feira, 19 de setembro de 2013
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Das estradas
Tivesse eu a possibilidade de fazer apenas o que me dá na real gana, como
aconteceu durante a adolescência e uma parte do início da vida adulta, e
agarrava na bicicleta e percorria o país inteiro durante umas boas três
semanas. Já tive uma fase de muita estrada de carro, já tive outra fase de
querer ver outras paragens garantindo o meu próprio sustento durante a estadia
fora de portas. Neste momento gostava de percorrer as vilas deste país e as
estradas que as ligam com lentidão e sem outra produção de dióxido de carbono
que não a da minha própria respiração.
Sendo independente e autónomo pergunto-me por que razão não conseguiria
viver emocionalmente sozinho. Quando entro numa estrada não me contento sem lhe
chegar ao fim. Quando uma mulher bonita me deixa entrar no mais fundo da sua
cabecinha, tenho que saber o que se esconde para lá de cada curva, numa viagem
sem fim à vista. Felizmente conheço poucas mulheres que escondam frondosas
paisagens floridas e coloridas para lá da fronteira que o meu passaporte
permitiu transpor.
sexta-feira, 12 de abril de 2013
O verdadeiro culpado
Por cá só se ouve o click click dos ratos de alguns computadores. Nem os telefones tocam. Acho que o país está parado à espera do sol.
Esta tese merece reflexão profunda e pode facilmente tornar-se na alavanca de inovação potenciadora da onda crescente, retumbante e imparável de confiança, empenho e produtividade que nos devolverá à liderança incontestável dos destinos do planeta.
Se o estado do tempo for unanimemente eleito como o verdadeiro culpado da crise então está terá fim à vista e após a chegada do sol e do calor os políticos unirão as mãos apenas pelo tempo suficiente para soltar um grito de felicidade, agarrando de seguida nas enxadas e correndo para os campos para plantar as batatas, atrasadas pela terra encharcada. Os jornalistas deixarão de fazer perguntas parvas e correrão a conduzir os rebanhos para os pastos e os comentadores políticos, classe mais despontante do que cogumelos em dias quentes e húmidos, limparão as matas e recolherão biomassa suficiente para a produção de energia renovável para todo o país.
O tempo escuro e frio é terrível, voltei a adormecer depois do despertador tocar.
terça-feira, 9 de abril de 2013
Eu também mostro a minha
Não podia deixar deixar a minha amiga Pseudo mostrar o que tem de bonito sem lhe retribuir a gentileza. Eu apenas mostro o que tenho, que de bonito não tem nada. Ora então cá vai:
E sim, eu sou persistente.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Da coerência
Será coerente andar no pátio de guarda-chuva aberto a tirar à mangueirada a lama acumulada nos sapatos, nas meias, nas calças de alças, nas luvas e no impermeável depois de ter andado toda a manhã a apanhar chuva pelo capacete abaixo e lama por tudo acima?
E para a especialista, como se mantém a porcaria dos óculos sem embaciar, para não se levar nos olhos com a lama das rodas dos gajos da frente?
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Fim de ciclo
Sempre gostei de carros, não foi
por acaso que fui parar a uma profissão que a eles poderia estar intimamente
ligada, muito embora por artes do destino não trabalhe nesse ramo.
O primeiro automóvel que comprei
obedeceu a três critérios de racionalidade, teria que ser fiável, estar em bom
estado e não ser caro. Feita a pesquisa optei por juntar um critério de
irracionalidade, que foi a aptidão para andar por terrenos não pavimentados.
Escolhi um Renault 4, das últimas séries, já na versão GTL, que conduzi durante
três anos e me deixou imensas boas recordações.
Mas o bichinho de um verdadeiro
todo-o-terreno não deixou de morder e a oportunidade apareceu dois anos após a
venda da chamada 4L. Foi então que comprei o que queria, um veículo de quatro
rodas motrizes, com caixa de transferência, vulgarmente denominado de
redutoras. O objetivo inicial, de andar no monte, pouco passou de umas centenas
de quilómetros de estrada de terra e uns quantos estradões mais estragados, já
que rapidamente concluí que era muito mais excitante e incomparavelmente mais
barato andar no monte de bicicleta. Além de mais saudável. Mas o dito jipe não
ficou na garagem, passou a andar de casa às costas pelo país inteiro e mesmo
pelos países vizinhos mais próximos, permitindo cumprir o sonho antigo de
conhecer novas paragens. Além disso, sempre permitia estacionar nas praias em
locais inacessíveis aos veículos tradicionais, fazendo com que a alavanca
pequena mantivesse algum uso, ainda que reduzido. Os mais novos sempre foram
adeptos incondicionais do veículo, protestando sempre que se insinuava ao de
leve que fosse a possibilidade de o deixar ir embora. Foi sendo religiosamente
bem tratado, sabendo que não era um desporto barato e que a qualquer momento um
acontecimento com responsabilidade alheia poderia terminar com a brincadeira. E
foi precisamente o que aconteceu, felizmente sem qualquer consequência física
para os habituais quatro ocupantes. Um veículo com dezoito anos de existência não
merece ser cuidado das mazelas que sofreu, de acordo com a lei do país.
Foram catorze anos de peripécias,
até a da viagem falhada à Suíça, interrompida à chegada a França e ainda não
retomada. Os miúdos cresceram naquele carro. Mas é apenas um objeto inanimado e
aquilo que senti no preciso momento em que, ao sair para avaliar os estragos,
tive a certeza de que não o voltaria a conduzir, foi rapidamente ultrapassado
pela pequenez dos sentimentos face à grandeza das relações humanas, essas sim
verdadeiramente importantes.
Entretanto, a tarefa de levar a
casa às costas para fora dos limites do país já tinha sido entregue a outro veículo,
mais potente e, sobretudo, mais económico, pelo que, face aos valores
entretanto exorbitantes para um carro semelhante, se fecha aqui um ciclo longo
da minha vida. Ficarão as boas recordações e a vontade de que o substituto também
deixe as suas.
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Ó Pedro, vê lá se aprendes com o Tó Zé
O Tó Zé disse hoje que não defende a extinção da ADSE mas é a favor da sua reformulação. Isto, em Segurês, língua própria do Tó Zé mas nada diferente do antigo Socratês, quer dizer que a ADSE deve continuar a ser um subsistema mas de futuro as suas regalias serão as mesmas do SNS.
Eu acho que falta algo de Coelhês à linguagem do Pedro.
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