Sempre gostei de carros, não foi
por acaso que fui parar a uma profissão que a eles poderia estar intimamente
ligada, muito embora por artes do destino não trabalhe nesse ramo.
O primeiro automóvel que comprei
obedeceu a três critérios de racionalidade, teria que ser fiável, estar em bom
estado e não ser caro. Feita a pesquisa optei por juntar um critério de
irracionalidade, que foi a aptidão para andar por terrenos não pavimentados.
Escolhi um Renault 4, das últimas séries, já na versão GTL, que conduzi durante
três anos e me deixou imensas boas recordações.
Mas o bichinho de um verdadeiro
todo-o-terreno não deixou de morder e a oportunidade apareceu dois anos após a
venda da chamada 4L. Foi então que comprei o que queria, um veículo de quatro
rodas motrizes, com caixa de transferência, vulgarmente denominado de
redutoras. O objetivo inicial, de andar no monte, pouco passou de umas centenas
de quilómetros de estrada de terra e uns quantos estradões mais estragados, já
que rapidamente concluí que era muito mais excitante e incomparavelmente mais
barato andar no monte de bicicleta. Além de mais saudável. Mas o dito jipe não
ficou na garagem, passou a andar de casa às costas pelo país inteiro e mesmo
pelos países vizinhos mais próximos, permitindo cumprir o sonho antigo de
conhecer novas paragens. Além disso, sempre permitia estacionar nas praias em
locais inacessíveis aos veículos tradicionais, fazendo com que a alavanca
pequena mantivesse algum uso, ainda que reduzido. Os mais novos sempre foram
adeptos incondicionais do veículo, protestando sempre que se insinuava ao de
leve que fosse a possibilidade de o deixar ir embora. Foi sendo religiosamente
bem tratado, sabendo que não era um desporto barato e que a qualquer momento um
acontecimento com responsabilidade alheia poderia terminar com a brincadeira. E
foi precisamente o que aconteceu, felizmente sem qualquer consequência física
para os habituais quatro ocupantes. Um veículo com dezoito anos de existência não
merece ser cuidado das mazelas que sofreu, de acordo com a lei do país.
Foram catorze anos de peripécias,
até a da viagem falhada à Suíça, interrompida à chegada a França e ainda não
retomada. Os miúdos cresceram naquele carro. Mas é apenas um objeto inanimado e
aquilo que senti no preciso momento em que, ao sair para avaliar os estragos,
tive a certeza de que não o voltaria a conduzir, foi rapidamente ultrapassado
pela pequenez dos sentimentos face à grandeza das relações humanas, essas sim
verdadeiramente importantes.
Entretanto, a tarefa de levar a
casa às costas para fora dos limites do país já tinha sido entregue a outro veículo,
mais potente e, sobretudo, mais económico, pelo que, face aos valores
entretanto exorbitantes para um carro semelhante, se fecha aqui um ciclo longo
da minha vida. Ficarão as boas recordações e a vontade de que o substituto também
deixe as suas.