Tento manter o bom hábito de ir à piscina duas vezes por semana. Apesar de ver os miúdos nas pistas ao lado a passarem por mim como se levassem barbatanas nos pés, ou como se eu arrastasse um petroleiro, o que vai dar no mesmo, passo ali três quartos de hora sem parar, o que me deixa muito satisfeito, dada a minha já avançada idade. Há, no entanto, um mistério que me anda a intrigar. Sou cerca de um minuto mais rápido, o que equivale a cerca de um longo segundo a menos por percurso, para a mesma distância e igual programa, na segunda sessão semanal, que tem sido à sexta-feira. Será o cheiro a fim-de-semana? Não sei, não encontro explicação racional, não tenho sequer distrações a meio da semana, não sei bem porquê mas as poucas sereias que de vez em quando me faziam voltar a cabeça e me torturavam passeando-se em trajos menores nas pistas ao lado parecem ter emigrado para águas mais quentes.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
terça-feira, 13 de março de 2012
sexta-feira, 9 de março de 2012
A chegada do tempo quente
O dia cheira a Primavera, o céu de um azul metalizado empresta um tom apenas um pouco mais escuro ao espelho de água que enche o horizonte. A seus pés estende-se o tapete verde que se prolonga até à água, ao longe avistam outro verde, o dos pinheiros da margem oposta, levando-os a inspirar profundamente o ar ameno esquecido durante o Inverno. Lígia sente-se de novo adolescente, lança um riso breve, quase gritado, avança dois passos e tira a camisola de uma só vez, num gesto tão rápido como teatral. Vasco percebeu imediatamente onde iria parar a brincadeira, deixou-a ganhar a distância suficiente para que começasse sozinha a livrar-se da restante indumentária e atirou-a ao chão de areia no momento em que tinha desapertado os botões das calças de ganga. Lígia, às gargalhadas, levantou as pernas para que Vasco lhe puxasse as calças, levantou-se de um salto e ajudou-o a livrar-se da camisa e dos seus jeans. Vasco beijou-a, pegou nela ao colo e dirigiu-se para a água, fazendo com que mergulhassem em simultâneo. Depois dos risos e beijos que a excitação do momento impunha, Lígia lembrou:
- Tenho a minha roupa interior vestida!
- Não faz mal, tiro-ta e ponho a secar.
- E enquanto seca?
- Não podemos sair da água.
- Vou ficar com a pele enrugada.
- Não, eu aqueço-te quantas vezes for preciso para que não tenhas frio.
Saíram da água pouco depois, subiram apenas alguns metros até à intimidade proporcionada por um velho carvalho, sobre o tapete relvado aconchegante. Depois de colocar as peças molhadas ao sol, Vasco entendeu a toalha que trouxera na mochila de passeio e cumpriu a sua promessa, comemorando desta forma perfeita a chegada dos dias quentes.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Das áreas de serviço
Tenho uma visão quase mítica das áreas de serviço das auto-estradas ou daquelas estações de serviço das antigas estradas nacionais que se encontram isoladas do mundo exterior. Em Espanha até parecem cenários de filmes americanos. Quem as usa fá-lo como complemento das viagens que empreende, uns em meio profissional, outros por prazer ou simplesmente como forma de chegar a um local distante. Eu uso-as mais vezes em contexto profissional, mas como tenho o estranho prazer de percorrer grandes distâncias por via rodoviária durante as férias também as frequento por motivos lúdicos. Por vezes tento imaginar de onde vem e para onde vai aquela família que está sentada na mesa ao lado, por onde já andou o casal da auto-caravana italiana ou quantas estradas diferentes já percorreu o camionista que dormita na cadeira de praia, à sombra do mastodonte que conduz. Outras vezes observo o rosto da senhora que me serve o café do lado de lá do balcão, na esperança de ler o seu pensamento enquanto me olha. Tentará adivinhar porque estou eu ali, o que faço na vida, estará contente por morar longe da confusão das grandes metrópoles ou sonhará ser o viajante que descansa por uns momentos antes de se voltar a fazer à estrada a grande velocidade?
Muitas vezes olho para as casas térreas com jardins e uma horta para toda a família ao lado das quais passo e imagino o sossego que será ali viver, sem filas de trânsito nem encontrões no supermercado. E penso em como ansiaria pelo ritmo frenético da cidade se ali morasse.
terça-feira, 6 de março de 2012
Não me consigo decidir
Ontem ouvi duas notícias, perdão, duas não notícias, que me deixaram indeciso sobre qual seria a mais idiota. Alguém me quer dar uma mão?
Primeiro foi a suposta polémica sobre as audiências. Uma vez ouvi uma explicação sobre como se fazem as avaliações, diz que colocam um aparelho em casas seleccionadas e sabem por essa via o que as pessoas estão a ver. Ora eu não conheço ninguém que tenha esse zingarelho, nunca ninguém me perguntou o que estou a ver na televisão, por isso concluo que a avaliação dos famosos shares deve ter uma base científica de elevado gabarito. Vir a companhia A dizer que o telejornal da RTP teve ontem uma quota de 20% e depois chegar a companhia B e dizer que foram 30% deve dar azo a pareceres científicos e teses de doutoramento até, pelo menos, ao ano 2078.
Não contentes com isto, ontem outros estudiosos fizeram saber que 40% dos portugueses disseram que não iam passar férias ao estrangeiro este ano. Espera, então isto quer dizer que 60%, números redondos tantos quantos os adeptos do Benfica, vão para o estrangeiro? Apelo desde já ao senhor primeiro-ministro que preste muita atenção a este facto, porque se calhar tem espaço para mais um aumento da dita austeridade, que afinal parece que não o é.
Como se nota, a crise não é só na economia.
quinta-feira, 1 de março de 2012
Da dança da chuva
Gosto do cheiro da terra quente quando molhada, entra pelas narinas despertando metáforas de vales de relva com aroma inebriante, dilatados pelo calor de um sol cujo toque de raios intensos provoca arrepios, suspiros, batidas aceleradas e faz fluir o mel, prelúdio da dança da natureza em ritmos inicialmente calmos e depois em crescendo, ao sabor do aumento da temperatura rumo ao clímax estival que dá descanso aos corpos exaustos.
segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012
O golo do Crixiano
Como jogador de futebol, tenho uma grande admiração pelo nosso compatriota. Em casa há momentos de saudável picardia com o adepto mais novo de futebol, porque a juventude, vá-se lá saber porquê, prefere o homem da camisola 10 azul e vermelha.
O golo de ontem foi mais um momento de inspiração, um golo monumental de simplicidade, de tal forma que a concorrência parece ter admitido que a questão do campeonato está resolvida. O sucesso de uma equipa que, em Espanha, tem mais portugueses que a maior parte, senão a totalidade, das equipas do nosso campeonato, equipa técnica incluída, deixa-me satisfeito. Não gosto da atitude de Mourinho, como profissional, mas não posso deixar de reconhecer os seus resultados e de o admirar por isso. Sobretudo no ambiente que imagino seja de cortar à faca da capital do país rival histórico.
Quanto a Cristiano Ronaldo, só desejo que faça a sua melhor época de sempre e que o corolário seja no Verão.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A máquina infernal
Ao longo de vários anos, em longas caminhadas, naquilo que agora se designa por autonomia, nas zonas mais elevadas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, sonhava com dias intensos de libertação de adrenalina ao volante de um veículo para todos os terrenos equipado com tracção integral e caixa de transferência para permitir subidas a locais inacessíveis ao comum dos automóveis.
Alguns desses pensamentos auxiliaram os dias igualmente longos imersos em livros, lápis e papéis que permitiram, anos mais tarde, com maior rapidez face à maior parte dos meus concidadãos, aceder a esse e a outros pequenos luxos.
Passei vários dias como tinha sonhado, chegando à conclusão de que a descarga de adrenalina era diretamente proporcional ao esvaziamento do depósito e que a relação entre a quantidade libertada da substância química e o esvaziamento da conta bancária se regia por uma lei exponencial.
Paralelamente, e até antes das caminhadas na montanha, já percorria os montes e vales das redondezas na famosa Órbita de três velocidades e roda pequena à frente, imaginando-me um Markku Alén ao volante dos saudosos Lancia Stratos e Fiat 131 Abarth.
Foi, pois, pacífica e previsível a adesão à bicicleta de todos os terrenos, com travões em vê e forqueta rígida. A evolução que se seguiu levou o apuro da técnica a expoentes que fazem com que haja automóveis mais baratos do que algumas das bicicletas que competem nos campeonatos, com quadros em fibra de carbono, suspensão à frente e atrás, travões de disco e utilização de metais leves e resistentes.
A minha máquina infernal, a que levo para o monte, está a anos-luz desse apuro tecnológico, é uma semi-rígida com uma suspensão interessante à frente e travões hidráulicos básicos, quase a máquina mais modesta do grupo, mas que é capaz de se transformar radicalmente quando a conduzo por descidas longas e rápidas onde as descargas de adrenalina são constantes e custam pouco mais do que uns calços de travões e uns pneus de longe a longe. Nesses momentos torna-se um veículo de possibilidades infinitas, levando-me a admirar como tão simples conjunto mecânico é capaz de proporcionar tão bons momentos.
O prazer proporcionado por um dia no monte pode ser insuperável e é apenas igualado por 36 horas de bons tratos, num hotel com spa e a melhor companhia do mundo.
Subscrever:
Mensagens (Atom)