terça-feira, 6 de março de 2012

Não me consigo decidir


Ontem ouvi duas notícias, perdão, duas não notícias, que me deixaram indeciso sobre qual seria a mais idiota. Alguém me quer dar uma mão?

Primeiro foi a suposta polémica sobre as audiências. Uma vez ouvi uma explicação sobre como se fazem as avaliações, diz que colocam um aparelho em casas seleccionadas e sabem por essa via o que as pessoas estão a ver. Ora eu não conheço ninguém que tenha esse zingarelho, nunca ninguém me perguntou o que estou a ver na televisão, por isso concluo que a avaliação dos famosos shares deve ter uma base científica de elevado gabarito. Vir a companhia A dizer que o telejornal da RTP teve ontem uma quota de 20% e depois chegar a companhia B e dizer que foram 30% deve dar azo a pareceres científicos e teses de doutoramento até, pelo menos, ao ano 2078.

Não contentes com isto, ontem outros estudiosos fizeram saber que 40% dos portugueses disseram que não iam passar férias ao estrangeiro este ano. Espera, então isto quer dizer que 60%, números redondos tantos quantos os adeptos do Benfica, vão para o estrangeiro? Apelo desde já ao senhor primeiro-ministro que preste muita atenção a este facto, porque se calhar tem espaço para mais um aumento da dita austeridade, que afinal parece que não o é.

Como se nota, a crise não é só na economia.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Da dança da chuva

Gosto do cheiro da terra quente quando molhada, entra pelas narinas despertando metáforas de vales de relva com aroma inebriante, dilatados pelo calor de um sol cujo toque de raios intensos provoca arrepios, suspiros, batidas aceleradas e faz fluir o mel, prelúdio da dança da natureza em ritmos inicialmente calmos e depois em crescendo, ao sabor do aumento da temperatura rumo ao clímax estival que dá descanso aos corpos exaustos.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O golo do Crixiano


Como jogador de futebol, tenho uma grande admiração pelo nosso compatriota. Em casa há momentos de saudável picardia com o adepto mais novo de futebol, porque a juventude, vá-se lá saber porquê, prefere o homem da camisola 10 azul e vermelha.

O golo de ontem foi mais um momento de inspiração, um golo monumental de simplicidade, de tal forma que a concorrência parece ter admitido que a questão do campeonato está resolvida. O sucesso de uma equipa que, em Espanha, tem mais portugueses que a maior parte, senão a totalidade, das equipas do nosso campeonato, equipa técnica incluída, deixa-me satisfeito. Não gosto da atitude de Mourinho, como profissional, mas não posso deixar de reconhecer os seus resultados e de o admirar por isso. Sobretudo no ambiente que imagino seja de cortar à faca da capital do país rival histórico.

Quanto a Cristiano Ronaldo, só desejo que faça a sua melhor época de sempre e que o corolário seja no Verão.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A máquina infernal


Ao longo de vários anos, em longas caminhadas, naquilo que agora se designa por autonomia, nas zonas mais elevadas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, sonhava com dias intensos de libertação de adrenalina ao volante de um veículo para todos os terrenos equipado com tracção integral e caixa de transferência para permitir subidas a locais inacessíveis ao comum dos automóveis.

Alguns desses pensamentos auxiliaram os dias igualmente longos imersos em livros, lápis e papéis que permitiram, anos mais tarde, com maior rapidez face à maior parte dos meus concidadãos, aceder a esse e a outros pequenos luxos.

Passei vários dias como tinha sonhado, chegando à conclusão de que a descarga de adrenalina era diretamente proporcional ao esvaziamento do depósito e que a relação entre a quantidade libertada da substância química e o esvaziamento da conta bancária se regia por uma lei exponencial.

Paralelamente, e até antes das caminhadas na montanha, já percorria os montes e vales das redondezas na famosa Órbita de três velocidades e roda pequena à frente, imaginando-me um Markku Alén ao volante dos saudosos Lancia Stratos e Fiat 131 Abarth.

Foi, pois, pacífica e previsível a adesão à bicicleta de todos os terrenos, com travões em vê e forqueta rígida. A evolução que se seguiu levou o apuro da técnica a expoentes que fazem com que haja automóveis mais baratos do que algumas das bicicletas que competem nos campeonatos, com quadros em fibra de carbono, suspensão à frente e atrás, travões de disco e utilização de metais leves e resistentes.

A minha máquina infernal, a que levo para o monte, está a anos-luz desse apuro tecnológico, é uma semi-rígida com uma suspensão interessante à frente e travões hidráulicos básicos, quase a máquina mais modesta do grupo, mas que é capaz de se transformar radicalmente quando a conduzo por descidas longas e rápidas onde as descargas de adrenalina são constantes e custam pouco mais do que uns calços de travões e uns pneus de longe a longe. Nesses momentos torna-se um veículo de possibilidades infinitas, levando-me a admirar como tão simples conjunto mecânico é capaz de proporcionar tão bons momentos.

O prazer proporcionado por um dia no monte pode ser insuperável e é apenas igualado por 36 horas de bons tratos, num hotel com spa e a melhor companhia do mundo.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Não era por isto que gostava de voltar a falar de bola


No único texto por aqui escrito sobre futebol deixei bem vincada a minha simpatia por Domingos Paciência. É alguém que admiro pelo seu passado como desportista, assim como pelo seu trabalho como treinador, sobretudo no S. C. Braga. Ontem fiquei estarrecido pela notícia da sua saída do Sporting, porque acreditava que o clube tinha um projeto sólido baseado no treinador e na equipa de futebol. É certo que os resultados têm sido maus, é verdade que não compreendo porque ganhou o clube dez jogos seguidos e depois deixou de saber jogar à bola, mas o que me deixa verdadeiramente incrédulo é mudar de treinador três vezes em menos de um ano. Não aceito que Domingos tivesse tido todas as condições, os jogadores que compõe a equipa são quase todos oriundos de campeonatos estrangeiros há menos de um ano, não é possível pedir-lhes que componham uma equipa em menos de uma época. Há jogadores bons, sem dúvida, embora sem terem a qualidade dos melhores das equipas rivais. Mas não se conhecem, Mourinho sempre disse por onde andou que a equipa só jogaria a sério no segundo ano e sempre herdou estruturas já existentes. Continuo a ter a opinião de que os dirigentes do Sporting não se dão ao clube, usam-no para promoção pessoal.

Sá Pinto tresanda a Paulo Bento, com a diferença de ser muito mais impulsivo, para usar um eufemismo. Não acredito nele como condutor de homens. Até acredito que consiga motivar os jogadores durante algum tempo, mas não tardarão as questiúnculas com os jogadores, nunca conseguirá deixar de ser um companheiro de balneário, que se impõe pela hierarquia e não por qualidades de liderança. Quem expulsou para uma época de sonho bem longe daqui o melhor avançado do campeonato português dos últimos dez anos não conseguirá certamente comandar uma equipa de futebol.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Do dia dos namorados


É daquelas datas que me faz revirar os olhos. Mesmo desgastando o lugar-comum, não se namora com data marcada. Sobretudo quando é uma data marcada para o país inteiro e mais alguns por esse planeta fora.

Eu sou bom com datas, não é uma coisa pela qual faça qualquer esforço, apenas as sei porque sim. Há algum tempo atrás perguntaram-me a data do meu casamento, num contexto da catequese dos miúdos. Percebi o sorriso trocista na cara de quem o fez, antecipando algum embaraço que a situação me pudesse causar. Naturalmente, respondi sem hesitar, sem qualquer necessidade de ler a cábula no lado interior da aliança. Comemoro essa data com muito prazer e espero ansiosamente que chegue o dia, o único que os mais novos passam longe da companhia dos pais, pelo menos por iniciativa dos adultos.

A publicidade, no entanto, é uma indústria desenvolvida e faz muito bem o seu papel de criar necessidades na cabeça das pessoas. Eu sou imune à que rodeia esta época, mas não o sou relativamente a outros assuntos. A minha cara-metade já tem mais dificuldade em lidar friamente com o São Valentim. Amanhã haverá jantar cuidado, a quatro, em casa, que os restaurantes estarão cheios não obstante os tempos que se vivem. Eu levarei um ramo de flores. Pensando bem no assunto, acabará por ser uma excelente forma de lidar com o dia. E, se fizer mais um esforço de memória, terei que reconhecer que é uma boa maneira de não me manter indefinidamente afastado da florista.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

A queda do general solitário


Portugal é um país corporativo. Há classes profissionais que moldam as leis de forma a protegerem-se, inclusivamente das ameaças daqueles que aspiram a fazer parte da própria classe. Há grupos que se fazem valer da dependência a que conseguiram votar a sociedade para exercerem pressões no sentido de terem regalias, mascaradas com o termo direitos, que se tornam claros abusos, desproporcionados relativamente aos seus concidadãos.

De vez em quando alguém com poder para o efeito aparece empenhado em alterar radicalmente este estado de coisas. Na maior parte das vezes a vontade desaparece rapidamente, ou porque a pessoa só pretendia fazer-se notar ou porque alguém do lado dos potencialmente afetados demonstrou que não era uma boa ideia.

Ontem ficámos a saber que em Espanha as coisas não serão muito diferentes. No entanto, a pessoa que detinha o poder avançou no sentido de alterar o estado da situação e acabou vítima daquilo que pretendia alterar. Tivesse sido por movimentação política, tivesse sido por influência corporativa, a verdade é que a caravana seguirá o seu caminho e o juiz justiceiro será mantido à margem. Aquilo que os delinquentes não conseguiram, travar o temerário juiz, foi alcançado pelos seus pares.

Já não sou partidário de soluções radicais, a menos de uma situação em que já nada mais reste do que passar uma esponja e começar de novo, o que até poderá nem estar tão longe. Mas isso seria um sistema completo e não só um dos pilares da sociedade. Entendo que vale mais vencer pequenas batalhas do que partir para a guerra pura e dura, já que o exército a enfrentar pode ser poderoso e aniquilar facilmente em general sozinho. Espanha perderá um dos seus mais empenhados generais, diminuindo-se assim a sua capacidade para moralizar aos poucos um sistema de vícios. Igual a tantos outros bem perto de nós.