terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Devaneios poéticos

Palavra puxa palavra, que é como quem diz, verso puxa verso, foram há algum tempo saindo estas linhas que não estão terminadas, encontrando-se à espera que o tempo ameno da Primavera traga com calor do Sul, quiçá nas asas das andorinhas, a inspiração que faltou no frio do Inverno. Escrito a quatro mãos, é bem visível aqui o talento inato da inexcedível Orquídea Selvagem, que publicou os mesmo versos em simultâneo.


                           I
 Percorrendo o teu rosto com o olhar
Olho fixamente os teus lábios molhados.
Eles chamam por mim numa prece velada
Seduzindo-me e embalando-me em vontades
Imitando sorrisos de criança traquina
Almejando o mel da minha boca.
                II
Voz rouca e falso tom de acento grave
Altera a entoação normal aguda
Com ela te embalo num tom suave
Recitando poemas de Neruda
                III

Nestas noites frias de Dezembro
Embala-me em teus braços quentes e fortes
Recitando poesia sussurrada p'la tua voz suave.
Uma lareira acesa faz-nos companhia
Dá-nos o calor que o corpo pede
Afagando-nos a pele nua como uma carícia.
                 IV

E o brilho dos teus olhos não mente
Neles a chama, rival da lareira
Suspiras, resistes, forte, valente
Avanço em fulgor minha mão matreira
                   V

Leves, lentos, dedos atrevidos...
Alcançam o meu seio em arrepio
Rios de prazer inundam os meus sentidos.
Escuto tua voz, doce delírio
Imitando o som do vento em meus cabelos.
Rezam os meus lábios suave prece
Aguardando o beijo que apetece.
                   VI
Arqueias as costas, mordo-te os peitos
Beijo, lambuzo, aperto a pele que queima
Contemplo a forma dos montes perfeitos
Resisto à vontade de ti, que teima

Deixamos aqui o convite para que outras mentes inspiradas contribuam para o enriquecimento deste devaneio poético.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

De volta às mulheres exigentes


Não consegui uma resposta satisfatória à questão sobre as mulheres exigente. Sendo assim, terei que me expor mais do que queria e atirar-me-ei para a frente de peito aberto, sujeito a ser trespassado com flechas certeiras. Ou isso ou uma pneumonia, o mais provável com a temperatura exterior de hoje. À cautela já engoli dois comprimidos de ibuprofeno ao pequeno almoço.

Eu gosto de mulheres exigentes, que não se contentam em aceitar passivamente aquilo que me dê na real gana oferecer-lhes. Que me peçam mais, que me incentivem a chegar mais longe, que me agucem a imaginação. Admiro a capacidade de quem é capaz de me fazer correr sem abrir o jogo, mulheres que deixem no ar, levemente, sem alaridos, a escolha a fazer na encruzilhada seguinte. Gosto de ser picado quando me desleixo, desde que feito com subtileza e elevação. Imagino que esta condição também me torne exigente para com quem interajo. Dentro do que referi neste parágrafo, considero que o tipo de mulheres que cumprem estas premissas são as boas exigentes. Se, além disso, forem exigentes boas, então terei acertado no euromilhões.

No outro pólo da questão estarão as más exigentes, boas ou não. Felizmente não tenho muitas experiências com tal tipo, a única de que me recordo tem a ver com a pessoa que devia estar no topo da cadeia, aquela que me devia orientar como função principal e sem exigir mais do que o respeito geracional. As más exigentes reclamam aquilo que não dão, apenas por estarem ao nosso lado. Crêem que a promoção pessoal é baseada em bens materiais e não naquilo que são. Estão convencidas de que o mundo gira em seu torno. Essas, sejam quem forem, serão sempre mantidas à distância.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Linguagem de ciclista

"Vai devagar que vem aí uma puuuuuuuuutaaaaa!"

Não, não são senhoras que enveredaram pelo difícil caminho da profissão fácil, muito embora também ainda as haja em locais ermos e improváveis. No calor da pedalada, que facilmente deixa para trás as manhãs frias de Janeiro, o emprego do calão vernáculo refere-se a uma subida íngreme e paciente, numa relação baixa, a velocidade quase de passo.

E, no contexto, relação baixa quer dizer uma combinação em que o diâmetro da cremalheira é quase igual ao do carreto.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Das mulheres exigentes

Podem distinguir-se as mulheres entre as boas exigentes e as más exigentes? Assim a modos que tal como a teimosia, há os bons teimosos e os casmurros, marrões, orgulhosos que só servem para tramar a vida aos outros.

 Ou todas as mulheres podem ser ambas as coisas, dependendo de variados factores como aquele a quem se exige, a cor da moda ou a fase da lua?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Diz que é cultura

Já nem falo da comissão de honra, os tais que ganhavam mais pela participação numa reunião do que eu num mês. E eu nem estou mal para o panorama nacional.

Já nem falo no momento actual do país, afinal a candidatura fez-se numa altura em que toda a gente sabia o que ia acontecer mas ainda se pensava que não ia ser nada.

Nem falo, tão pouco, da mobilização que levou uns milhares de pessoas, dizem que 60 milhares, que não contei mas pareceu-me que quem os contou só deve conhecer a tabuada dos cinco, à cidade.

Mas chamar uns tipos catalães, contra quem nada tenho, até me dou muito bem com os poucos que conheço, para fazer movimentar um cavalo mecânico e um crash test dummy gigantescos, pendurados de gruas, numa coreografia do tipo gigantones na romaria da Senhora da Aflição está muito para além da minha sensibilidade artística. Mas isto sou só eu a falar.

Gostei do fogo de artifício coordenado com a música e das projecções no edifício da praça. Tive pena que o som gravado se sobrepusesse ao da orquestra.

Onze anos depois do Porto continua a parecer que há pouca cultura nacional.

Diz que é cultura

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

A médica MSN

Dor de cabeça, dores nos ouvidos, pingo no nariz, mais uma vez lá paguei, olha, não paguei nada que, por agora, a miúda ainda está isenta, uma visita de urgência ao Centro de Saúde. Tradicionalmente, quem se encontrava a desoras neste mítico local eram os médicos mais experientes, nunca soube se pela referida maior formação prática, se por maior disponibilidade familiar ou outro motivo qualquer. Essas senhoras e esses senhores cresceram num tempo em que a televisão começava às seis da tarde, ou por aí, e as máquinas de escrever se limitavam aos escritórios, pelo que, quando lhes deram um teclado para prescrever receitas era vê-los com os indicadores em riste à procura da próxima tecla que comporia o nome do medicamento. Nada contra, eu não sou capaz de escrever mensagens no telemóvel sem olhar para o visor, ao contrário de quem tenho lá em casa.

Ora com a corrida às  aposentações dos últimos anos tem-se assistido ao renovar dos profissionais que prestam serviço público de saúde, dando lugar a gente mais jovem, alguns nascidos já no tempo dos telemóveis. Consequência disto é a velocidade vertiginosa com que a Senhora Doutora Médica que ontem tratou a minha mais nova preencheu o formulário para levar à farmácia. E, já agora, o empenho que demonstrou durante a consulta, pouco mais do que de rotina, a provar, mais uma vez, que é útil reflectir se as condições que temos para trabalhar são ou não adequadas à realidade que vivemos.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Os paradoxos da crise

Por natureza, todas as crises são férteis em paradoxos. Esta não lhes é alheia, aliás, sendo, muito provavelmente, uma das mais marcantes dos últimos 60 anos, será geradora de uma boa mão cheia deles.

No caso particular da entidade onde passo os meus dias ditos úteis, vive-se um desses paradoxos. Enquanto muitos estão em casa sem o desejarem, os de cá têm dificuldade em respirar tal a carga que têm em cima dos ombros. Também paradoxalmente, ninguém garante que este ritmo não acabe abruptamente num futuro muito próximo.

Mas, enquanto isto se mantiver, eu estarei pouco presente por aqui e pelos locais que costumo observar. Mas com muita vontade de voltar.