quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Finalmente uma nova música de Natal

Esta é a época do ano que me deixa mais irritadiço, é a silly season do Inverno, bem pior do que a de Verão porque nessa desloco-me para um local quase deserto e transformo os meus dias em banhos de tranquilidade, verde e mar. Ou afogo-me em estrada e pedras velhas e fotografias sem máquina.

Mas este ano estou bem menos tenso, parece que a crise teve o efeito perverso de limitar as luzinhas imbecis a piscar, os bonecos insufláveis por fora das janelas e as musiquinhas idiotas repetidas até à exaustão ano após ano, como se as crianças que fizeram parte do Coro de Santo Amaro de Oeiras fossem obrigadas, como castigo, a ouvir as suas vozes até ao dia em que disserem aos netos que faziam parte do grupo que nos entra em casa, sem pedir licença, todos os dias durante um mês inteiro em cada ano.

A este propósito não posso deixar de enaltecer a música de Natal do MEO Go, um prodígio de imaginação, orquestração e dotes vocais das crianças, quiçá algumas descendentes do grupo acima referido, e a prova de que há gente muito mais habilitada para compor poemas musicais do que alguns cantores que se intitulam autores, e nem me atrevo a escrever a novel palavra que alguém desencantou para os designar, que pululam pelo nosso reduzido universo musical.

Eu, que não tenho nada a ver com a Meo e até sou assinante da concorrência há longos anos, sorrio todos os dias ao ouvir a peça do Gato Fedorento, dignos sucessores do grande mestre Herman José, a quem reconheço um enorme talento e a falta de coragem para ter parado no momento certo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

36 horas (I)

Chamavam-lhes as loucas 36 horas. Quando conseguiam conciliar agendas o programa começava já tarde, no final dos dias de sexta-feira. Vasco saía do escritório já depois das 10, passava por casa para tomar um duche rápido, parava ao balcão do Capa Negra para engolir três rissóis e um fino, que complementava com dois cafés para o manter desperto na auto-estrada. Girava a chave do Giulietta, fazendo roncar suavemente o potente motor do carro do trevo verde e rumava a sul, sabendo que o pouco trânsito da hora adiantada e os 235 cavalos da máquina vermelha, único carro ao qual consentiria a cor, tirando os inatingíveis Ferrari, o levariam até às portas da capital em pouco menos de duas horas.

Lígia, por seu turno, preparava minuciosamente o cenário para mais um dos guiões em que se tornavam peritos. Não sabia onde acabaria a noite, não quando ele vinha de norte, chegaria a sua vez de o planear, sabia que alguma surpresa ele traria e tinha que o surpreender à altura. Ambos fanáticos por pormenores, não descurava os mínimos detalhes que a faziam ansiar por cada nova aventura.

Vasco chegou ao Carregado e deu um toque para o telemóvel de Lígia, sinal de que estava perto. Parou no local combinado e esperou apenas o tempo suficiente para fazer desaparecer a papelada que juntava no banco do lado direito. Viu-a sair do seu carro, abriu a porta e guardou na bagageira o saco da rapariga, enquanto lhe mergulhava o nariz nos cabelos longos e aspirava o aroma suave do champô, misturado com o perfume escolhido para a noite. Sabia o efeito que a sua inspiração profunda provocava.

Atravessaram a ponte para sul comentando a troca de mensagens dos últimos dias e Vasco deixou escorregar a sua mão até ao joelho de Lígia, aproveitando a subida intencional e provocante do vestido de malha na posição de sentada. Tinha uns clássicos collants pretos, adivinhando a fraca impressão que as modas recentes imprimiam no condutor. Vasco subia a mão em círculos, ao ritmo da música dos Doors que ainda restava do percurso a solo. Quando chegou ao ponto mais elevado do caminho dos dedos, Lígia aconchegou-se no banco de couro com o símbolo no topo, levou a mão ao leitor múltiplo de CDs, sabendo que do quatro ao seis haveria alguns dos seus preferidos, seleccionou o quatro e descontraiu-se completamente quando Sade fez ecoar “Jezebel” pelo automóvel. Vasco seguia agora dentro dos limites de velocidade, minimizando os efeitos da distracção, e iniciou movimentos circulares com o dedo médio, lentamente, esperando pela altura em que Lígia tomaria o controlo dos acontecimentos e ele teria apenas que a ir contrariando de vez em quando, prolongando o jogo. Ela abria agora ligeiramente as pernas, levantando os braços e passando as mãos por cima dos mamilos que já se faziam notar sob a malha. Rapidamente passou a controlar os seus próprios movimentos, mostrando-lhe qual a zona onde pretendia ser estimulada. Sabendo que o caminho não deveria terminar tão cedo, fez prolongar o seu prazer como se estivesse só, mas com a vantagem de ter ao seu lado quem gostava de a sentir molhada e excitada e apreciava toda a beleza do momento. Quando já não aguentava mais enfiou a sua mão nas calças de Vasco e deixou que o toque na erecção que sabia estar ali potenciasse o seu orgasmo.

Aproveitaram o restante percurso até ao hotel para ouvir a música, num silêncio feito de mensagens telepáticas que prometiam muito mais acção nas horas seguintes.

Dúvida linguística

Tenho ouvido dizer na televisão frases do tipo "O clube A venceu ao clube B". Desde que me recordo, a expressão que se usa é "O clube A venceu o clube B". No entanto, pensando um pouco mais a fundo na questão, também sempre ouvi dizer que "O clube A ganhou ao clube B". Sendo que ganhou e venceu são sinónimos, acabo por ficar na dúvida sobre qual das expressões é correcta.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A loira do 77

Foi num local nada próprio, a entrada dos lavabos de um antro de alimentação nada saudável, aquele do boneco com fatiota de palhaço e nome de origem escocesa. Virou﷓se não sabe porquê e deu com um daqueles olhares com duração de duas milésimas de segundo mas que não deixam qualquer dúvida de que a pessoa sabe quem olha. Passaram-se mais de vinte anos desde o último olhar trocado, furtivamente, entre ambos. Lembra-se da expectativa de a ver na fila da paragem, duas depois do local onde entrava, do olhar dela a procurá-lo, da saída para a escola, algumas paragens antes da dele. Lembra-se do dia em que ela aproveitou o lugar deixado vago ao lado dele para se sentar quase violentamente, num grito abafado de não sejas parvo e diz qualquer coisa. Sabia que ela estava à espera mas não foi capaz de lhe dizer que os seus olhos lhe lembravam barcos à vela ao longe, movendo-se vagarosamente em dia de calor intenso. O estupor do desbloqueador de conversa que quebraria o gelo que só na sua cabeça estava presente. Terá com certeza um nome médico-psiquátrico qualquer, mas para ele será sempre apenas estupidez. Ainda hoje, a doutora da farmácia.

Foi assim que se lhe referiu no diário da viagem a terras longínquas, livro de reflexões ainda hoje guardado num lugar poeirento da casa onde cresceu, à espera do melhor dia para que sirva de memória revivalista. Propositadamente não quis saber o seu nome por terceiros, só valia se lho perguntasse de viva voz. Nunca o soube, embora soubesse o nome da própria irmã.

Ela com dois a reboque, ele com dois a reboque, ainda que apenas três por circunstâncias acidentais, não deixou de achar curiosa a coincidência. Continua loira. Continua linda.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Chapinhar

Já foi um carro da moda. Não foi comprado por essa razão, era uma aspiração antiga, de antes de o conceito de ter tornado popular. Tanto que a moda passou e o carro ficou, por convicção, porque continua a poder chegar onde a esmagadora maioria não vai, apesar de fazer em raríssimas ocasiões. É um trambolho, um charuto, mas proporciona sensações únicas como a de permitir chapinhar alegremente quando o dilúvio se abate sobre a estrada. É divertido, é traquina, sabe bem, ainda que apenas por alguns minutos.

O jipe que não é, é de outra marca, que está sempre pronto a andar, é quase um membro da família, tanto que os mais novos nem querem ouvir falar na sua reforma. Se os ventos continuarem a soprar na direcção certa, será suficiente para o curto percurso diário em dias ditos úteis e manter-se-á no activo por muitos e bons anos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dia de Primavera

No sussurro do ribeiro
Sinto a tua pele macia
Misturada com o cheiro
De alecrim e malvasia

Teu sorriso inebriante
Lábios doces de prazer
Beijo sentido, gigante
Que deixa o sangue a ferver

Oiço a música envolvente
Perco-me, mergulho em ti
Não há horas, só presente

Fogo, desejo premente
Onde estou? Não me perdi
Há noite e tu, simplesmente

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Gostei, apesar da derrota

Tenho que reconhecer que Jorge Jesus, que é seguramente muito mais conhecedor de futebol do que eu, foi capaz de usar os seus recursos para se impor às debilidades do meu Sporting. O que não retira nenhum do brilhantismo que Domingos levou para o clube, o seu trabalho está ainda no início e estou certo de que há-de encontrar uma solução para os centrais e para o defeito de Rui Patrício, a saída aos cruzamentos. O Sporting não marcou qualquer golo, mas teve oportunidades para o fazer. Ficou a sensação de que o clube está consistente e pronto para embates difíceis.

Quanto a Jesus, só reforçou a sensação de que devia ter sido contratado em vez de Paulo Bento, já lá vai uma boa meia dúzia de anos. É que pior do que não ter, é tê-lo num dos adversários directos.

Nota final para o reprovável incidente já depois do apito final, com o incêndio das cadeiras. Não tem qualquer justificação e espero sinceramente que haja consequências para quem provocou o acto.