Um homem foi condenado pelo assassinato do dono de um posto de abastecimento de combustível. Cumpriu parte da pena e evadiu-se da cadeia. Passado algum tempo participou no sequestro de um avião, incidente com várias peripécias que custaram certamente rios de dinheiro em prejuízos, envolvendo episódios nos Estados Unidos, Argélia e França. Conseguiu escapar e pediu asilo político na Guiné-Bissau. Alguns anos volvidos acabou por vir para Portugal, casou com uma cidadã nacional e adquiriu a nacionalidade portuguesa. Pergunto-me como terá sido feita a tramitação legal, uma vez que me parece que se tivesse apresentado a sua identificação verdadeira teria despoletado a atenção das autoridades.
Foi identificado há dois meses como foragido das autoridades americanas. O tribunal da relação de Portugal decidiu não o extraditar. Ouvi eminentes advogados da nossa praça declararem que concordam com a decisão uma vez que os prazos já prescreveram segundo a lei portuguesa e a pessoa em causa é agora outro homem.
Reconheço às pessoas o dever de emendarem os seus erros. Não sei se concordo com a argumentação das pessoas que ouvi na televisão, certamente o homem que foi assassinado tinha família e não creio que esses concordem com o que foi dito.
Mas aquilo que me choca é que alguns órgãos de comunicação social avancem para entrevistas de branqueamento da situação. Além de vários crimes, há muitos artifícios pouco ou nada claros na vida daquele homem. E há muitas pessoas que mataram outras, umas porque foram abusadas e espancadas durante anos, outras porque não aceitaram os abusos sobre terceiros, pessoas que cumpriram as suas penas, imagino que tenham tido grandes dificuldades na sua reintegração social, mas a quem a comunicação social nunca deu qualquer destaque além da notícia do crime.
Se isto é serviço público de televisão, então, por favor, dêem-me apenas estações privadas.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
terça-feira, 22 de novembro de 2011
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Viajar
Foto retirada da Wikipedia. Loch Ness, fonte inspiradora, viagem de sonho ainda em projecto.
Viajar é um dos sonhos mais referidos pelas pessoas, basta ver as respostas dadas à pergunta fatal dos concursos televisivos sobre o destino a dar ao prémio. Mas há diferentes formas de viajar. Há quem só queira melhorar até à exaustão aquilo que faz em casa, basicamente comer, ver televisão e ir praia, de preferência sem contacto com os pobres dos indígenas que tiveram a sorte de nascer em terras de sol e mar quente e despoluído, mas se querem longe dos árduos trabalhadores de países mais frios que lhes levam o dinheiro para comerem.
Há quem goste desses luxos e ainda aproveitar para tirar umas fotos de alguns monumentos, desde que o autocarro com ar condicionado pare mesmo ao lado e não desligue o motor, para que a temperatura se mantenha fresca.
Há outras variantes, para todos os gostos, algumas até muito radicais, polegar levantado e mochila com duas t-shirts e um par de sapatilhas de reserva às botas.
Viajar até varia ao longo do tempo, desde os verões em Inglaterra na apanha dos morangos durante a semana e visitas à boleia a Cambridge ou Cardiff, fins de semana em Londres e semana no Lake District já com dinheiro no bolso resultante do trabalho de dois meses, passando pelas descobertas galegas em 4L, noites na tenda de campismo e dias de verde e mar, até à versão já de carro cheio com a casa às costas, Veneza, Florença e Roma de mapa numa mão e mão pequena na outra, ai aqueles gelados, pinturas e calhaus velhos periclitantes e as famílias dos filmes de Fellini na praia do mar Adrático.
Curioso, até se chega ao ponto, depois do alargamento geográfico, a suspirar por peregrinações em bicicleta ou simplesmente a pé. Mas não é para todos.
Viajar é um dos sonhos mais referidos pelas pessoas, basta ver as respostas dadas à pergunta fatal dos concursos televisivos sobre o destino a dar ao prémio. Mas há diferentes formas de viajar. Há quem só queira melhorar até à exaustão aquilo que faz em casa, basicamente comer, ver televisão e ir praia, de preferência sem contacto com os pobres dos indígenas que tiveram a sorte de nascer em terras de sol e mar quente e despoluído, mas se querem longe dos árduos trabalhadores de países mais frios que lhes levam o dinheiro para comerem.
Há quem goste desses luxos e ainda aproveitar para tirar umas fotos de alguns monumentos, desde que o autocarro com ar condicionado pare mesmo ao lado e não desligue o motor, para que a temperatura se mantenha fresca.
Há outras variantes, para todos os gostos, algumas até muito radicais, polegar levantado e mochila com duas t-shirts e um par de sapatilhas de reserva às botas.
Viajar até varia ao longo do tempo, desde os verões em Inglaterra na apanha dos morangos durante a semana e visitas à boleia a Cambridge ou Cardiff, fins de semana em Londres e semana no Lake District já com dinheiro no bolso resultante do trabalho de dois meses, passando pelas descobertas galegas em 4L, noites na tenda de campismo e dias de verde e mar, até à versão já de carro cheio com a casa às costas, Veneza, Florença e Roma de mapa numa mão e mão pequena na outra, ai aqueles gelados, pinturas e calhaus velhos periclitantes e as famílias dos filmes de Fellini na praia do mar Adrático.
Curioso, até se chega ao ponto, depois do alargamento geográfico, a suspirar por peregrinações em bicicleta ou simplesmente a pé. Mas não é para todos.
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Arma de devoração maciça
Prendeu-o entre os dentes enquanto se aproximava do pescoço de pele luzidia, já desnudado dos longos cabelos negros, que o desafiava a demoradas e insinuantes carícias. Aproximou-se a menos de um centímetro de distância e expirou suavemente um sopro que refrescava em contacto com a superfície gelada do líquido habitual, por agora em estado sólido. Sentiu um gemido leve e iniciou o movimento lento, semi-circular, ao longo do rebordo de intersecção com o troco, de um ombro até ao outro.
Deixou que uma ou duas gotas pingassem na depressão traqueal e iniciou uma linha, agora em contacto de pena de andorinha, até ao vale dos montes gémeos, contornando a base do lado direito, já em oscilação crescente. Levantou o lápis de água e esperou que uma gota se desprendesse em direcção ao pináculo escuro que já se erguia na antevisão do arrepio refrescante. Como sempre se pautou por uma conduta de equilíbrios, dirigiu a massa arrefecida para a vertical do pináculo adjacente e deixou tombar uma nova gota.
Regressou aos trajectos rectos e iniciou novo vagaroso percurso entre a base das elevações e a pequena cratera meteorítica que guarda a entrada da descida vertiginosa para o centro do luxuriante planeta das emoções. Decidiu deixar repousar o sólido no cálice improvisado, despertando de imediato um gemido mais intenso, e matou a sede com lábios hipotérmicos nos mamilos cada vez mais eriçados. Não te mexas senão perde-se o mágico, sussurrou-lhe. Regressou ao centro e resgatou o cristal cada vez mais pequeno, continuou a recta num percurso descendente cada vez mais inclinado e curvou agora à esquerda para nova linha de intersecção, por onde deixou escorrer mais alguma da massa em transição de estado.
Procurou o centro, aproximou-se da pele mais rosada e voltou a arrefecer o sopro de encontro à superfície em frente, sentindo o fervor que aumentava de intensidade. Continuou a brisa fresca até que a impaciência venceu e sentiu a superfície quente e húmida de encontro aos seus lábios. Deixou que a massa gelada rolasse entre a sua língua e os outros lábios, forçou o cristal para que subisse e descesse repetidamente no cone que refrescava, agradava-lhe particularmente a visão do desaparecimento e subsequente regresso à sua boca, hiato que aproveitava para passar a língua gelada no extremo superior da abertura. Os movimentos tornavam-se frenéticos, o frio percorria toda a extensão da zona em ebulição, num gesto repentino agarrou no que restava entre os dedos e fê-lo subir pelo pequeno círculo até então alheado da brincadeira, provocando o desaparecimento da arma de devoração maciça no preciso momento que os gemidos passaram a gritos abafados.
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Aquilo que me custa
Não é olhar para os teus olhos verdes imensos, aqueles que
de tanto brilharem em dias de sol intenso me deixam rendido e atordoado.
Não é o teu sorriso quente e alegre, quase ingénuo, não
fosses sempre tão defensiva, que me desarma e me deixa sem argumentos.
Não é o teu cabelo loiro, ondulado, que imagino espalhado
pela almofada em cachos de frescura, onde mergulharia como numa cascata
havaiana.
Não é o tom inebriante da tua voz quando respondes evasivamente
às minhas provocações, deixando a porta aberta para novas investidas mas
lembrando-me sempre que o risco está bem visível.
Tudo isto apenas me tortura.
Aquilo que me custa é, tão somente, nada disto te poder dizer.
quinta-feira, 3 de novembro de 2011
Da sabedoria III
- Gostas de mim?
- Gosto.
- Porquê?
(Porque és bonita.
E se não fosse?)
(Porque és inteligente.
Se fosse burra?)
(Porque cozinhas bem.
Se não soubesse?)
(Porque me dás miminhos.
E se andar triste?)
- Porque sim. Gosto e pronto.
segunda-feira, 31 de outubro de 2011
Seria um anjo?
Podia ter sido o sorriso nos lábios, ou a volta no cabelo,ou o verde cintilante do olhar, qualquer um, presente ou não, que numa mulher há sempre um detalhe que sobressai à frente dos outros. Mas não, foi a voz, cristalina, decidida, quase imperativa no modo suave e delicado com que a usava.
Apetecia ficar ali e pedir que trouxesse o bacalhau no forno, depois o cabrito assado, a seguir a vitela e depois viriam as sobremesas, uma por uma desde que as anunciasse demoradamente antes de as colocar sobre a mesa. E faria uma ode ao café e descreveria as virtudes da Senhora dos Remédios durante o digestivo, recitaria a conta e leria as informações do ecrã do terminal de pagamento automático.
Há vozes assim, que nos deixam a vaguear ao sabor do vento.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Da falta de sabedoria I
Estava o Sr. Ministro Miguel Relvas a falar com Judite de Sousa na TVI. Ouvi com atenção aquilo que disse, enquanto em rodapé, como habitualmente, apareciam citadas as frases mais marcantes. É então que dou um salto na cadeira ao ver escrito "Temos um longo caminho a percorrer mais ainda estamos a começar". Ora a letra i está muito longe, no teclado, quer do a, quer do esse, que curiosamente até estão juntos. Parece-me, pois, que quem redigiu a frase se deixou levar por aquilo que poderei caracterizar como um defeito linguístico do português do Brasil.
Não tenho nada contra o trabalho de cidadãos estrangeiros no nosso país, eu próprio não deixo de parte a possibilidade de me mudar para outro país. Espero, apenas, que sejam competentes.
Subscrever:
Mensagens (Atom)

