Não te rias, não agora, há poucas
coisas mais excitantes do que uma mulher nua deitada de bruços, deixa-me
olhar-te bem, sabes que gosto de encher os olhos e tens muitos pequenos
detalhes por onde me possa perder, o formato longo do segundo dedo do teu pé, o
espaço entre esse e o dedo maior, que a minha língua preenche enquanto te
contorces, não mexas esse pé porque sei que queres mais e eu não quero ficar
com um olho negro, os altos dos outros dedos, que percorro agora qual trepador
em contagens de segunda e terceira categoria, espraio-me de seguida ao longo da
linha exterior do teu pé de planta alva, faço um círculo em redor do tornozelo
e prossigo por cima do tendão de Aquiles, que rapidamente se transforma numa
linha imaginária no lugar da costura dos collants usados pelas pin-ups
americanas dos anos cinquenta, chego ao vinco atrás do joelho e deixo que o meu
queixo se afunde entre eles, levantando os olhos para mais uma visão
paradisíaca, o traço rosado e já brilhante, de rebordos escuros, as suaves
elevações simétricas, regresso às depressões suaves que a minha língua afaga em
vários movimentos rápidos, antes de voltar a subir vagarosamente de volta à
linha central, deixo que a respiração profunda assinale o caminho enquanto a
ponta do meu nariz serve de batedor. Termino a lenta ascensão e faço uma deriva
sem pressas para o centro nevrálgico do turbilhão em crescendo. Permito às
minhas mãos abertas o deleite do toque e, sôfregas, elevam um pouco cada uma
das nádegas que sinto enrijecerem. De novo o meu queixo se posiciona sobre o
eixo de reflexão e deixo que os meus lábios em círculo reduzido iniciem um
sopro refrescante de velocidade elevada.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
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sexta-feira, 19 de junho de 2015
terça-feira, 12 de maio de 2015
Da passagem do tempo
Havia um tempo em que tudo era lá longe. No início da caminhada o fim parecia inatingível, as Minas dos Carris eram lá no cimo do monte e a mochila pesava tanto, cada passo parecia o último antes de voltar para trás, o segundo ano do curso parecia intransponível e mesmo que o terminasse havia os outros três que estavam num futuro inalcançável, passam depressa e quando der conta está a olhar para trás e a pensar que foi tão rápido, dizia a doutora da farmácia a olhar para o grelo na pasta, a primeira prestação do empréstimo da casa não augurava nada de bom quando se olhava para o que sobrava para o mês à frente.
Agora já se olha para o caminho que enche os olhos a pensar que está a começar e vai deixar tanta vontade de lá voltar, a curiosidade dos dias e das paisagens que estão a chegar perdeu o travo a mistério, muito embora mantenha a curiosidade inabalável da descoberta e da captação mental, aquela que fica na memória e nunca é igual, nem sequer comparável, à que se vê na fotografia, é por isso que cada vez perco menos tempo atrás do aparelho, o tempo que se lá dedica nuca mais se recupera para aqueles momentos de puro prazer.
Lá atrás, tão atrás já, está a memória do simpático casal que nos levou a Cambridge, os nomes já lá vão, devem estar no caderno soterrado no sótão da casa onde cresci, a senhora com tanta vida sentada na cadeira de rodas onde se deslocava, de sorriso encantador nos lábios, os dedais com os membros da família real nas estantes impecavelmente limpas da casa de paredes de tijolo burro, as memórias das sirenes a mandá-la ainda criança para os abrigos contra as bombas voadoras, a assegurar que a vida continuava a passar cada vez mais depressa. Tanta razão tinha ela.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
Do juízo
O Nordkaap, La Tierra del Fuego,
és um cromo das obsessões geográficas, a Aurora Boreal, e dos fenómenos
naturais, a Muralha da China, Machu Pichú, e dos calhaus inúteis e erodidos, és
um teso, vais deixar tudo para quando já não terás forças e a memória for um
farrapo e cada imagem se desvanecerá passados dois dias, pois é, mas no país já
não há muitos mais marcos a assinalar e muitos dos pormenores continuam bem
presentes e a Muralha de Adriano aos vinte anos e as capitais, e os miúdos dizem na escola
que já lá estiveram a cada imagem dos livros de história e geografia, certo que
só falam de cá e dos países mais próximos mas são poucos os colegas que também.
E assim queira o destino e me mantenha as pernas para pedalar e os braços para
nadar e não serão cinquenta quilómetros diários que me impedirão de montar nela
e correr mundo, literalmente, que com esta idade se algum dia tivesse que ter o
juízo de que sempre ouvi falar já o teria, que não ganharei outro daqui para a
frente.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Das vias férreas
Como obras de engenharia, as
linhas de comboio são construções extraordinárias, do melhor que se fez e faz.
As inclinações são reduzidas, porque as rodas são metálicas e derrapariam sobre
os carris se fosse necessária muita força para vencer as subidas e travar nas
descidas. As curvas são muito suaves, para que as composições não saltem fora
dos carris devido à velocidade. Isto leva a que se abram canais nos montes, se
construam pontes e se façam túneis. Com a proliferação de estradas e a
prosperidade económica que trouxe automóveis para quase toda a gente o número
de passageiros em muitas linhas diminuiu drasticamente e ditou a morte do
serviço de transporte. Mas será de vistas curtas e uma enorme falta de bom
senso deixar degradar estas obras. E pior ainda permitir que sejam inutilizadas
pelo utilização como estradas, como já em alguns locais se fez.
No já longínquo ano de 1988
tomei o gosto por percorrer estas infra-estruturas adaptadas ao lazer
individual de quem por lá caminha ou pedala, numa zona mineira de Inglaterra,
pejada de curvas e pontes metálicas. Com muita pena, não viajei por linhas
míticas como as do Tua ou do Corgo, por exemplo, mas tenho-o feito nas vias
agora adaptadas, imaginando o apito das míticas máquina a vapor, o tum-tum das
rodas nas emendas entre carris, o cheiro do carvão queimado que enchia o
recreio da escola na saudosa primeira classe.
No passado domingo conheci
mais uma, a linha do Tâmega, da Livração até Arco de Baúlhe, 53 km para cada
lado de pura diversão. O troço de cerca de 10 km até Amarante não está
arranjado, mas os carris foram levantados e passa-se bem de bicicleta. Há uma
ponte metálica comprida que requer muito cuidado e grande desprendimento mental
para atravessar, operação que não deixaria os meus filhos fazerem. O percurso
entre Amarante e o destino está muito bom, mesmo melhor do que um exemplo
recente por onde passeei, de novo em Inglaterra. Será até um luxo, atendendo ao
resultado do que agora vemos como excessos. Depois deste passeio já houve quem
falasse na linha do Corgo, da Régua a Chaves. São 97 km, de acordo com a minha
pesquisa, e já fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu acho que há um enorme
potencial turístico no aproveitamento das linhas antigas, embora tal desiderato
implique investimentos não desprezáveis. Mas acredito que os novos
"Caminhos de Santiago" serão nos milhares de quilómetros de linhas férreas
desativados em todo o mundo.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
O tempo
Passou-se um quarto de século,
algo que parecia impensável não há muito tempo atrás.
Acaba por ser a primeira etapa
daquilo que permite aos verdadeiros escritores, que não manifestamente o caso,
a bagagem suficiente para saberem do que falam. Olhando para trás, desapareceu
gente que deveria ainda por cá andar se as leis da vida se regessem por
verdades estatísticas, desfizeram-se casamentos que durante muito tempo
passaram por inabaláveis e viveram-se acontecimentos que se passados ao cinema
pareceriam desfasados da realidade mundana.
Foi um regresso a onde fui feliz,
aparentemente contra a regra inabalável. Mas foi um regresso fugaz, numa
posição diferente, num cenário completamente diverso. Também ali nada está como
dantes, o tempo entretanto passado resultaria igualmente numa película
cinematográfica de final feliz, com peripécias suficientes para manter o ritmo
intenso das cenas.
Foi um dia para não esquecer, na
companhia de verdadeiros amigos intemporais, daqueles que a distância apenas
consolida o sentimento. Foi ali que os meus horizontes se abriram
definitivamente e onde tive a certeza de que estava pronto para todos os caminhos
que se abrissem diante dos meus olhos.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Ainda que o motivo seja diferente
Costumo ansiar pelas férias porque são mais uma oportunidade para conhecer novas paragens, novos costumes, percorrer estradas por onde nunca passei, aprender mais sobre o mundo enorme que nos rodeia.
Este ano preciso de férias porque do ponto de vista físico já noto alterações, sobretudo ao nível da atenção que costumo dispensar às tarefas mais básicas. Continuo a gostar de trabalhar, a gostar do meu trabalho, não me importo de sair de casa às 6 da manhã ou de regressar depois do jantar, mas fico preocupado quando dou por mim sem me lembrar quando virei em determinada rua.
Ainda falta um mês para o dia já reclamado. Mas, apesar do cansaço, será com a expectativa e a vontade do costume que me farei à estrada. Mesmo sendo um percurso conhecido, tenho a certeza de que encontrarei novos motivos de interesse.
quarta-feira, 7 de março de 2012
Das áreas de serviço
Tenho uma visão quase mítica das áreas de serviço das auto-estradas ou daquelas estações de serviço das antigas estradas nacionais que se encontram isoladas do mundo exterior. Em Espanha até parecem cenários de filmes americanos. Quem as usa fá-lo como complemento das viagens que empreende, uns em meio profissional, outros por prazer ou simplesmente como forma de chegar a um local distante. Eu uso-as mais vezes em contexto profissional, mas como tenho o estranho prazer de percorrer grandes distâncias por via rodoviária durante as férias também as frequento por motivos lúdicos. Por vezes tento imaginar de onde vem e para onde vai aquela família que está sentada na mesa ao lado, por onde já andou o casal da auto-caravana italiana ou quantas estradas diferentes já percorreu o camionista que dormita na cadeira de praia, à sombra do mastodonte que conduz. Outras vezes observo o rosto da senhora que me serve o café do lado de lá do balcão, na esperança de ler o seu pensamento enquanto me olha. Tentará adivinhar porque estou eu ali, o que faço na vida, estará contente por morar longe da confusão das grandes metrópoles ou sonhará ser o viajante que descansa por uns momentos antes de se voltar a fazer à estrada a grande velocidade?
Muitas vezes olho para as casas térreas com jardins e uma horta para toda a família ao lado das quais passo e imagino o sossego que será ali viver, sem filas de trânsito nem encontrões no supermercado. E penso em como ansiaria pelo ritmo frenético da cidade se ali morasse.
quarta-feira, 4 de janeiro de 2012
A mãe natureza não dorme
O ano que agora chega não promete nada de bom para a maioria de nós. Mas não há nada como a mãe natureza para nos recordar que as criações mais belas podem despontar na altura mais inesperada e mesmo ao lado, quando não é mesmo no meio, da maior montanha da matéria resultante da incompetência de uns quantos na gestão daquilo que é de todos.
Se a imagem acima não servir para pintar de verde os tempos mais próximos, pelo menos recordará que não é preciso consumir toneladas de combustível para poder disfrutar de umas férias retemperadoras e de contenção económica, num local que o autor da fotografia terá todo o gosto em recomendar, promover e divulgar.
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
Viajar
Foto retirada da Wikipedia. Loch Ness, fonte inspiradora, viagem de sonho ainda em projecto.
Viajar é um dos sonhos mais referidos pelas pessoas, basta ver as respostas dadas à pergunta fatal dos concursos televisivos sobre o destino a dar ao prémio. Mas há diferentes formas de viajar. Há quem só queira melhorar até à exaustão aquilo que faz em casa, basicamente comer, ver televisão e ir praia, de preferência sem contacto com os pobres dos indígenas que tiveram a sorte de nascer em terras de sol e mar quente e despoluído, mas se querem longe dos árduos trabalhadores de países mais frios que lhes levam o dinheiro para comerem.
Há quem goste desses luxos e ainda aproveitar para tirar umas fotos de alguns monumentos, desde que o autocarro com ar condicionado pare mesmo ao lado e não desligue o motor, para que a temperatura se mantenha fresca.
Há outras variantes, para todos os gostos, algumas até muito radicais, polegar levantado e mochila com duas t-shirts e um par de sapatilhas de reserva às botas.
Viajar até varia ao longo do tempo, desde os verões em Inglaterra na apanha dos morangos durante a semana e visitas à boleia a Cambridge ou Cardiff, fins de semana em Londres e semana no Lake District já com dinheiro no bolso resultante do trabalho de dois meses, passando pelas descobertas galegas em 4L, noites na tenda de campismo e dias de verde e mar, até à versão já de carro cheio com a casa às costas, Veneza, Florença e Roma de mapa numa mão e mão pequena na outra, ai aqueles gelados, pinturas e calhaus velhos periclitantes e as famílias dos filmes de Fellini na praia do mar Adrático.
Curioso, até se chega ao ponto, depois do alargamento geográfico, a suspirar por peregrinações em bicicleta ou simplesmente a pé. Mas não é para todos.
Viajar é um dos sonhos mais referidos pelas pessoas, basta ver as respostas dadas à pergunta fatal dos concursos televisivos sobre o destino a dar ao prémio. Mas há diferentes formas de viajar. Há quem só queira melhorar até à exaustão aquilo que faz em casa, basicamente comer, ver televisão e ir praia, de preferência sem contacto com os pobres dos indígenas que tiveram a sorte de nascer em terras de sol e mar quente e despoluído, mas se querem longe dos árduos trabalhadores de países mais frios que lhes levam o dinheiro para comerem.
Há quem goste desses luxos e ainda aproveitar para tirar umas fotos de alguns monumentos, desde que o autocarro com ar condicionado pare mesmo ao lado e não desligue o motor, para que a temperatura se mantenha fresca.
Há outras variantes, para todos os gostos, algumas até muito radicais, polegar levantado e mochila com duas t-shirts e um par de sapatilhas de reserva às botas.
Viajar até varia ao longo do tempo, desde os verões em Inglaterra na apanha dos morangos durante a semana e visitas à boleia a Cambridge ou Cardiff, fins de semana em Londres e semana no Lake District já com dinheiro no bolso resultante do trabalho de dois meses, passando pelas descobertas galegas em 4L, noites na tenda de campismo e dias de verde e mar, até à versão já de carro cheio com a casa às costas, Veneza, Florença e Roma de mapa numa mão e mão pequena na outra, ai aqueles gelados, pinturas e calhaus velhos periclitantes e as famílias dos filmes de Fellini na praia do mar Adrático.
Curioso, até se chega ao ponto, depois do alargamento geográfico, a suspirar por peregrinações em bicicleta ou simplesmente a pé. Mas não é para todos.
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