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quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Olhares

Cheguei ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar cada um dos olhares.

A maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são, quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Do sexo, finalmente.

As pernas doridas, naquele ponto em que a quase dor sabe tão bem, esticam-se e sente-se que somos donos do mundo, prontos a ir onde nos apetecer. A respiração profunda, cheia. E o cansaço, aquele que desaparece mal o cérebro, limpo, leve, grande e vazio como o profundo nada universal, se ilumina apontando para a próxima direção do prazer.


Sexo tântrico, era o que era. Para começar.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Com a idade a satisfação do pensamento é cada vez menor

A antecipação mental de uma viagem de vários dias de bicicleta nunca chegará ao prazer real de a fazer, por muito sofrimento físico que implique.

Da mesma forma, a imaginação de um olhar insinuante e tenso de desejo, de um corpo voluptuoso cuidadosamente vestido para ser liberto de amarras que provocam arrepios de calor será sempre largamente superada pela realidade da entrega, do empenho colocado no ansiado momento.

sexta-feira, 9 de março de 2012

A chegada do tempo quente


O dia cheira a Primavera, o céu de um azul metalizado empresta um tom apenas um pouco mais escuro ao espelho de água que enche o horizonte. A seus pés estende-se o tapete verde que se prolonga até à água, ao longe avistam outro verde, o dos pinheiros da margem oposta, levando-os a inspirar profundamente o ar ameno esquecido durante o Inverno. Lígia sente-se de novo adolescente, lança um riso breve, quase gritado, avança dois passos e tira a camisola de uma só vez, num gesto tão rápido como teatral. Vasco percebeu imediatamente onde iria parar a brincadeira, deixou-a ganhar a distância suficiente para que começasse sozinha a livrar-se da restante indumentária e atirou-a ao chão de areia no momento em que tinha desapertado os botões das calças de ganga. Lígia, às gargalhadas, levantou as pernas para que Vasco lhe puxasse as calças, levantou-se de um salto e ajudou-o a livrar-se da camisa e dos seus jeans. Vasco beijou-a, pegou nela ao colo e dirigiu-se para a água, fazendo com que mergulhassem em simultâneo. Depois dos risos e beijos que a excitação do momento impunha, Lígia lembrou:

-         Tenho a minha roupa interior vestida!
-         Não faz mal, tiro-ta e ponho a secar.
-         E enquanto seca?
-         Não podemos sair da água.
-         Vou ficar com a pele enrugada.
-         Não, eu aqueço-te quantas vezes for preciso para que não tenhas frio.

Saíram da água pouco depois, subiram apenas alguns metros até à intimidade proporcionada por um velho carvalho, sobre o tapete relvado aconchegante. Depois de colocar as peças molhadas ao sol, Vasco entendeu a toalha que trouxera na mochila de passeio e cumpriu a sua promessa, comemorando desta forma perfeita a chegada dos dias quentes.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

36 horas (II)

Chegados ao hotel quase correram até ao quarto, onde trocaram o longo beijo de reencontro que calavam. Mas de seguida, recuperando o ritual já antigo, Lígia agarrou no saco grande que trazia e refugiou-se na casa de banho. Vasco abriu igualmente o seu saco das surpresas e retirou um casaco impermeável de bombeiro e o capacete respectivo, que tinha pedido emprestados a um amigo de infância e que envergou depois de se ter despido por completo. Ligou o portátil e deixou que os Doors ecoassem pelo quarto, sincronizando “Light my fire” com o preciso momento em que Lígia entrava no quarto, de botas de saltos altíssimos, lingerie vermelha fogo e uma écharpe negra à volta do pescoço, cobrindo desafiadoramente os seios desenvolvidos. Contendo com dificuldade o riso, a rapariga balbuciou “Sr. Bombeiro, estou em chamas, venha apagar-me este fogo que me consome”. Amaram-se demoradamente até que o sono os venceu, sabendo que o dia seguinte seria longo e começaria cedo.

Lígia despertou à hora do costume, pouco antes das sete da manhã, tendo Vasco acordado logo que a pressentiu desperta. Abriu o reposteiro, deixando entrar o sol, e foi vestir os calções de banho sabendo que a lembrança da piscina interior deserta levaria a companheira a saltar da cama. Dirigiram-se à piscina e brincaram na água, atiçando-se mutuamente como adolescentes a aproveitar a ausência de outros hóspedes. Sentindo os estômagos vazios voltaram ao quarto, tomaram um duche rápido e dirigiram-se à sala para tomar o pequeno-almoço. A manhã foi dedicada à exploração das imediações do hotel, incluindo a vila próxima, por cujas ruas deambularam demoradamente, visitando a igreja, o museu e os jardins. Escolheram um dos restaurantes por onde tinham passado para o almoço, sabendo que regressariam ao hotel para uma tarde que se previa tão relaxante quanto intensa. O vinho branco escolhido tinha já contribuído para o estado descontraído, embora potenciasse a vontade de se terem novamente. Mas antes ainda teriam a massagem a dois, ministrada por um casal jovem e simpático, ele nela e ela nele. Num ambiente de penumbra, com o ruído abafado da água a cair numa cascata artificial na sala e música de Enya, com uma mistura de aromas suaves e estimulantes. As mãos de pena nas costas de Vasco deixavam-no num estado dificilmente disfarçável de satisfação, enquanto os toques firmes em Lígia a deixavam num estado de alta tensão eléctrica. Quando terminaram, mal se conseguindo equilibrar nas pernas, dirigiram-se ao banho turco, que encontraram vazio para gáudio de ambos. Sentando-se um em cada extremo do banco corrido deixaram que os pés começassem o trabalho que os olhos suplicavam. Lígia desfez-se da parte superior do bikini, imediatamente substituído pelo pé livre de Vasco. Não necessitavam de muitas carícias para atingir o clímax que sentiam à flor da pele, num gesto tão rápido quanto o permitido pela atmosfera tórrida e húmida, Vasco sentou Lígia sobre as suas pernas, vigiando de soslaio a entrada da porta. Ela puxou-lhe os calções para baixo apenas o suficiente para libertar o membro que ameaçava furar o tecido, desviou o pouco pano que a cobria e deixou-se escorregar lentamente sobre ele, completamente fora de si com o pensamento de que alguém poderia entrar a qualquer momento. A invasão da língua de Vasco na boca dela foi a gota final para despoletar o inevitável e cravou as suas unhas nas costas do companheiro sabendo que ficariam marcadas, enquanto se debatia furiosamente de encontro às suas pernas. Quando diminuiu a intensidade dos movimentos foi a vez de Vasco erguer o rabo, em várias estocadas que a levantavam como se estivesse montada num touro num rodeo americano. Ainda estava sobre ele quando se ouviram risos e vozes em aproximação do lado exterior da porta, dando-lhe tempo apenas para cobrir os seios com o bikini encharcado.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dia de Primavera

No sussurro do ribeiro
Sinto a tua pele macia
Misturada com o cheiro
De alecrim e malvasia

Teu sorriso inebriante
Lábios doces de prazer
Beijo sentido, gigante
Que deixa o sangue a ferver

Oiço a música envolvente
Perco-me, mergulho em ti
Não há horas, só presente

Fogo, desejo premente
Onde estou? Não me perdi
Há noite e tu, simplesmente

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Do deslumbramento

Olho o teu corpo de contornos suaves e voluptuosos através do reflexo devolvido pelo espelho redondo do tecto, a tua pele morena, já recuperada das carícias longas e quentes do sol do verão em vias de esquecimento, esse sol que invejo por lhe teres permitido tão prolongado deleite, os teus joelhos levemente flectidos em pose de modelo renascentista ante os olhos dos pintores flamengos de vida boémia, os braços ainda conformados no arco de êxtase com que rodearam os meus ombros, teus olhos escuros e expressivos irradiando uma luz intensa tal qual a luz negra que realça os brancos na escuridão profunda, o teu sorriso travesso e provocante a lembrar que o descanso é apenas o estritamente necessário até ao próximo assalto. Derreto-me, estarreço-me, esforço-me por manter viva a imagem, mesmo sabendo que a recordação que guardarei a partir desse momento nunca será mais do que um efémero resquício do deslumbramento desses minutos.

Lendo-me o pensamento, levantas-te e fazes questão de passear pelo quarto em passo lento mas firme, de negra cabeleira sobre os ombros, olhar longe do meu, ombros levantados e em esquadria perfeita, deixando-me rendido, prostrado, boquiaberto com tal pose de beleza feminina.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Aquilo que me custa


Não é olhar para os teus olhos verdes imensos, aqueles que de tanto brilharem em dias de sol intenso me deixam rendido e atordoado.

Não é o teu sorriso quente e alegre, quase ingénuo, não fosses sempre tão defensiva, que me desarma e me deixa sem argumentos.

Não é o teu cabelo loiro, ondulado, que imagino espalhado pela almofada em cachos de frescura, onde mergulharia como numa cascata havaiana.

Não é o tom inebriante da tua voz quando respondes evasivamente às minhas provocações, deixando a porta aberta para novas investidas mas lembrando-me sempre que o risco está bem visível.

Tudo isto apenas me tortura.

Aquilo que me custa é, tão somente, nada disto te poder dizer.