Mostrar mensagens com a etiqueta Paradoxos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paradoxos. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A rotunda

Sonhei que estava numa rotunda, uma assim grande tipo L'Étoile, e que pretendia percorrer metade dela e sair na mesma direção em que tinha entrado. Percorri os cento e oitenta graus e preparava-me para sair quando me deparei com um sinal de sentido proibido descomunal mesmo à entrada da rua. Fiquei surpreso, já que no meu percurso não constavam caminhos proibidos, mas segui até à próxima saída. Faço um pequeno desvio, pensei, atrasar-me-á o percurso mas chegarei ao destino na mesma. Presto-me para sair na próxima rua e qual não é a minha surpresa quando dou de caras com outro sinal vermelho com um retângulo branco horizontal no centro. Que raio, começo a ficar irritado, então e agora? Continuo a circular no trânsito infernal, os condutores esbracejam, gritam de janela aberta e tocam as buzinas furiosamente, tento sair na próxima e na seguinte e todas estão marcadas com o sinal, chegam mais carros que entram e não podem sair. Espera, pensei, é só um pesadelo, vais acordar e está tudo bem.

Acordei. Tomei o meu duche, vesti-me, tomei o pequeno almoço, calcei-me e abri a porta para sair. Começo a ouvir as buzinas e os gritos. Saio à rua e estou no meio da rotunda.


Acordei no local errado ou o código não serve para o fim a que se destina?

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Das estradas


Tivesse eu a possibilidade de fazer apenas o que me dá na real gana, como aconteceu durante a adolescência e uma parte do início da vida adulta, e agarrava na bicicleta e percorria o país inteiro durante umas boas três semanas. Já tive uma fase de muita estrada de carro, já tive outra fase de querer ver outras paragens garantindo o meu próprio sustento durante a estadia fora de portas. Neste momento gostava de percorrer as vilas deste país e as estradas que as ligam com lentidão e sem outra produção de dióxido de carbono que não a da minha própria respiração.

Sendo independente e autónomo pergunto-me por que razão não conseguiria viver emocionalmente sozinho. Quando entro numa estrada não me contento sem lhe chegar ao fim. Quando uma mulher bonita me deixa entrar no mais fundo da sua cabecinha, tenho que saber o que se esconde para lá de cada curva, numa viagem sem fim à vista. Felizmente conheço poucas mulheres que escondam frondosas paisagens floridas e coloridas para lá da fronteira que o meu passaporte permitiu transpor.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Não era por isto que gostava de voltar a falar de bola


No único texto por aqui escrito sobre futebol deixei bem vincada a minha simpatia por Domingos Paciência. É alguém que admiro pelo seu passado como desportista, assim como pelo seu trabalho como treinador, sobretudo no S. C. Braga. Ontem fiquei estarrecido pela notícia da sua saída do Sporting, porque acreditava que o clube tinha um projeto sólido baseado no treinador e na equipa de futebol. É certo que os resultados têm sido maus, é verdade que não compreendo porque ganhou o clube dez jogos seguidos e depois deixou de saber jogar à bola, mas o que me deixa verdadeiramente incrédulo é mudar de treinador três vezes em menos de um ano. Não aceito que Domingos tivesse tido todas as condições, os jogadores que compõe a equipa são quase todos oriundos de campeonatos estrangeiros há menos de um ano, não é possível pedir-lhes que componham uma equipa em menos de uma época. Há jogadores bons, sem dúvida, embora sem terem a qualidade dos melhores das equipas rivais. Mas não se conhecem, Mourinho sempre disse por onde andou que a equipa só jogaria a sério no segundo ano e sempre herdou estruturas já existentes. Continuo a ter a opinião de que os dirigentes do Sporting não se dão ao clube, usam-no para promoção pessoal.

Sá Pinto tresanda a Paulo Bento, com a diferença de ser muito mais impulsivo, para usar um eufemismo. Não acredito nele como condutor de homens. Até acredito que consiga motivar os jogadores durante algum tempo, mas não tardarão as questiúnculas com os jogadores, nunca conseguirá deixar de ser um companheiro de balneário, que se impõe pela hierarquia e não por qualidades de liderança. Quem expulsou para uma época de sonho bem longe daqui o melhor avançado do campeonato português dos últimos dez anos não conseguirá certamente comandar uma equipa de futebol.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Das férias que não o são

Podia reclamar, não fosse não gostar de estar encafuado em casa sem grande coisa que fazer. Podia dizer palavrões, se calhar até o faria noutras alturas, não fosse ter sabido de mais um que está em casa contra a vontade, por já não ter o que fazer. Podia estar em cima da bicicleta, mas deixa-me estar por aqui a ver se o que tenho a mais por agora não tenho a menos nos tempos mais próximos.

Mas lá que me apetecia ir aproveitar o sol...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Serviço público de televisão

Um homem foi condenado pelo assassinato do dono de um posto de abastecimento de combustível. Cumpriu parte da pena e evadiu-se da cadeia. Passado algum tempo participou no sequestro de um avião, incidente com várias peripécias que custaram certamente rios de dinheiro em prejuízos, envolvendo episódios nos Estados Unidos, Argélia e França. Conseguiu escapar e pediu asilo político na Guiné-Bissau. Alguns anos volvidos acabou por vir para Portugal, casou com uma cidadã nacional e adquiriu a nacionalidade portuguesa. Pergunto-me como terá sido feita a tramitação legal, uma vez que me parece que se tivesse apresentado a sua identificação verdadeira teria despoletado a atenção das autoridades.

Foi identificado há dois meses como foragido das autoridades americanas. O tribunal da relação de Portugal decidiu não o extraditar. Ouvi eminentes advogados da nossa praça declararem que concordam com a decisão uma vez que os prazos já prescreveram segundo a lei portuguesa e a pessoa em causa é agora outro homem.

Reconheço às pessoas o dever de emendarem os seus erros. Não sei se concordo com a argumentação das pessoas que ouvi na televisão, certamente o homem que foi assassinado tinha família e não creio que esses concordem com o que foi dito.

Mas aquilo que me choca é que alguns órgãos de comunicação social avancem para entrevistas de branqueamento da situação. Além de vários crimes, há muitos artifícios pouco ou nada claros na vida daquele homem. E há muitas pessoas que mataram outras, umas porque foram abusadas e espancadas durante anos, outras porque não aceitaram os abusos sobre terceiros, pessoas que cumpriram as suas penas, imagino que tenham tido grandes dificuldades na sua reintegração social, mas a quem a comunicação social nunca deu qualquer destaque além da notícia do crime.

Se isto é serviço público de televisão, então, por favor, dêem-me apenas estações privadas.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cocooning


Gosto de grandes espaços. Desde muito cedo que algumas das coisas que mais prazer me dão envolvem actividades ao ar livre, muito embora estejam geralmente associadas a horas de lazer e não de trabalho. Mas fim-de-semana em que não saia de casa ou férias confinado a espaços limitados, mesmo que traduzidas em hotel e praia, deixam-me tenso e irritadiço. Com cara de mal-disposto, como é frequente ser rotulado.

No entanto, por paradoxal que pareça, tenho um especial prazer em fechar as portas à chave e apagar a luz andar por andar quando, à noite e em casa, me preparo para deitar. Além disso, quando regresso de um dia de trabalho, sinto-me incomodado com facilidade pelo ruído da rua que entra pela janela da cozinha, quando se encontra aberta como auxiliar de exaustão de gases.

Não sei se o termo em inglês está, assim, correctamente aplicado, mas sei que também sentia uma sensação de protecção, necessariamente irrealista, quando fechava a abertura do igloo minúsculo onde passei belas noites em algumas das montanhas mais altas do país.