Foi num local nada próprio, a entrada dos lavabos de um antro de alimentação nada saudável, aquele do boneco com fatiota de palhaço e nome de origem escocesa. Virouse não sabe porquê e deu com um daqueles olhares com duração de duas milésimas de segundo mas que não deixam qualquer dúvida de que a pessoa sabe quem olha. Passaram-se mais de vinte anos desde o último olhar trocado, furtivamente, entre ambos. Lembra-se da expectativa de a ver na fila da paragem, duas depois do local onde entrava, do olhar dela a procurá-lo, da saída para a escola, algumas paragens antes da dele. Lembra-se do dia em que ela aproveitou o lugar deixado vago ao lado dele para se sentar quase violentamente, num grito abafado de não sejas parvo e diz qualquer coisa. Sabia que ela estava à espera mas não foi capaz de lhe dizer que os seus olhos lhe lembravam barcos à vela ao longe, movendo-se vagarosamente em dia de calor intenso. O estupor do desbloqueador de conversa que quebraria o gelo que só na sua cabeça estava presente. Terá com certeza um nome médico-psiquátrico qualquer, mas para ele será sempre apenas estupidez. Ainda hoje, a doutora da farmácia.
Foi assim que se lhe referiu no diário da viagem a terras longínquas, livro de reflexões ainda hoje guardado num lugar poeirento da casa onde cresceu, à espera do melhor dia para que sirva de memória revivalista. Propositadamente não quis saber o seu nome por terceiros, só valia se lho perguntasse de viva voz. Nunca o soube, embora soubesse o nome da própria irmã.
Ela com dois a reboque, ele com dois a reboque, ainda que apenas três por circunstâncias acidentais, não deixou de achar curiosa a coincidência. Continua loira. Continua linda.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
Mostrar mensagens com a etiqueta Ingenuidades. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Ingenuidades. Mostrar todas as mensagens
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
terça-feira, 22 de novembro de 2011
Serviço público de televisão
Um homem foi condenado pelo assassinato do dono de um posto de abastecimento de combustível. Cumpriu parte da pena e evadiu-se da cadeia. Passado algum tempo participou no sequestro de um avião, incidente com várias peripécias que custaram certamente rios de dinheiro em prejuízos, envolvendo episódios nos Estados Unidos, Argélia e França. Conseguiu escapar e pediu asilo político na Guiné-Bissau. Alguns anos volvidos acabou por vir para Portugal, casou com uma cidadã nacional e adquiriu a nacionalidade portuguesa. Pergunto-me como terá sido feita a tramitação legal, uma vez que me parece que se tivesse apresentado a sua identificação verdadeira teria despoletado a atenção das autoridades.
Foi identificado há dois meses como foragido das autoridades americanas. O tribunal da relação de Portugal decidiu não o extraditar. Ouvi eminentes advogados da nossa praça declararem que concordam com a decisão uma vez que os prazos já prescreveram segundo a lei portuguesa e a pessoa em causa é agora outro homem.
Reconheço às pessoas o dever de emendarem os seus erros. Não sei se concordo com a argumentação das pessoas que ouvi na televisão, certamente o homem que foi assassinado tinha família e não creio que esses concordem com o que foi dito.
Mas aquilo que me choca é que alguns órgãos de comunicação social avancem para entrevistas de branqueamento da situação. Além de vários crimes, há muitos artifícios pouco ou nada claros na vida daquele homem. E há muitas pessoas que mataram outras, umas porque foram abusadas e espancadas durante anos, outras porque não aceitaram os abusos sobre terceiros, pessoas que cumpriram as suas penas, imagino que tenham tido grandes dificuldades na sua reintegração social, mas a quem a comunicação social nunca deu qualquer destaque além da notícia do crime.
Se isto é serviço público de televisão, então, por favor, dêem-me apenas estações privadas.
Foi identificado há dois meses como foragido das autoridades americanas. O tribunal da relação de Portugal decidiu não o extraditar. Ouvi eminentes advogados da nossa praça declararem que concordam com a decisão uma vez que os prazos já prescreveram segundo a lei portuguesa e a pessoa em causa é agora outro homem.
Reconheço às pessoas o dever de emendarem os seus erros. Não sei se concordo com a argumentação das pessoas que ouvi na televisão, certamente o homem que foi assassinado tinha família e não creio que esses concordem com o que foi dito.
Mas aquilo que me choca é que alguns órgãos de comunicação social avancem para entrevistas de branqueamento da situação. Além de vários crimes, há muitos artifícios pouco ou nada claros na vida daquele homem. E há muitas pessoas que mataram outras, umas porque foram abusadas e espancadas durante anos, outras porque não aceitaram os abusos sobre terceiros, pessoas que cumpriram as suas penas, imagino que tenham tido grandes dificuldades na sua reintegração social, mas a quem a comunicação social nunca deu qualquer destaque além da notícia do crime.
Se isto é serviço público de televisão, então, por favor, dêem-me apenas estações privadas.
Subscrever:
Mensagens (Atom)