Não
se pode fumar no interior de uma sala de cinema. Mas pode-se comer pipocas.
Pode-se remexer o recipiente de cartão e deixar o vizinho do lado quase às
portas da loucura com o restolhar das bolinhas explodidas de milho. Se é para
comer aquela merda, que não passa de uma dúzia de grãos de cereal revestidas de
açúcar, porque é que não se limitam a pegar nelas uma a uma, silenciosamente, e
mastigá-las com a boca bem fechada, que já basta o cheiro enjoativo que largam
quando ainda no pacote. É preciso dar-lhes a volta, sabe-se lá a escolher o
quê, já que se acaba por comer tudo, fazendo uma chinfrineira que se ouve na
sala mais longínqua? Ou será que o objetivo é apenas chamar a atenção, vejam,
olhem para mim, eu estou aqui, sou uma gorda desconsolada que ia ver a nova
comédia nacional mas como já não havia bilhetes acabei por vir parar a esta
sala e quero lá saber que os outros se estejam a tentar concentrar para
perceber como se ligam estas personagens que o realizador entendeu meter em
cenas desligadas para prender a atenção do espetador.
Valha-nos
a cena de ginástica de alta escola sobre o para-brisas do Ferrari amarelo,
primorosamente descrita pelo Javier Bardem. Ficará, sem sombra de dúvida,
registada nos anais da cinematografia pela reinvenção do erotismo na indústria
automóvel. E a comparação com o peixe limpa-fundos não lembraria ao diabo.
Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.
Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.