Foi uma prenda adiantada da
quarta classe, porque o padrinho o tinha prometido um dia, sabendo-se condenado
por uma doença que agora tem cura na grande maioria dos casos, a avó que não
madrinha por desgosto de não o ter sido para o primeiro neto que apenas o foi
por três dias cumpriu o desígnio do marido falecido e ofereceu a bicicleta de
roda pequena à frente e três velocidades com alavanca no quadro, entre o
assento e o guiador.
Dali até à entrada na faculdade
foram muitas tardes a percorrer quantos caminhos de terra havia nas redondezas,
numa área continuamente alargada à medida que a força nas pernas aumentava e a
procura por caminhos novos também, sempre a imaginar-se ao volante dos carros
de rali que preenchiam as páginas das revistas e jornais religiosamente lidos
logo que saíam para as bancas.
Depois, com um dos ordenados
iniciais, foi a entrada na moda que despontava lentamente das novas bicicletas
de montanha, com pneus largos e dezoito combinações possíveis para
desmultiplicação da pedalada, a juntar aos travões do tipo vê, v-brake na
notação inglesa. Depois os amortecedores, os travões de disco e a adição da
bicicleta de estrada, porque nessa é que se ganha potência para longas
maratonas, a menos que se possa andar na outra todos os dias.
A moda das bicicletas é recente
para as grandes massas e, paradoxalmente, aumentou com o agravar da crise
económica, será pela saída dos ginásios ou por mudança de mentalidade ou por
simples processo de seguir o rebanho. O efeito é de tal dimensão que os municípios
desataram a construir ciclovias, os passeios organizados atingiram dimensões
gigantescas e até já se fazem peregrinações em duas rodas. O reverso da medalha
é a convivência com os restantes utentes das vias públicas, peões e automóveis.
Se a convivência com os peões pode não ser pacífica mas não tem grandes
consequências físicas, já a relação com os automobilistas se pode tornar
conflituosa e até mesmo ameaçadora para a integridade física dos ciclistas,
como se pode, infelizmente, concluir por este post da virtual muito amiga e simpática AC. É certo que há uma mentalidade ainda dominante entre os
automobilistas de que têm sempre prioridade sobre os ciclistas mas também é
verdade que aqueles não estão habituados à lentidão dos ciclistas nem estes
estão preparados para andar em estrada.
O ciclismo desportivo é mais uma
vertente do lazer em bicicleta que está em franca expansão e tem
particularidades muito diferentes do simples andar de bicicleta. É praticado
preferencialmente em grupos, que podem ir de dois elementos até duas dezenas ou
até mais. Não é compatível com as ciclovias, quer porque nestas circulam
ciclistas de todas as idades e ritmos de pedalada, quer porque os peões andam
muito perto e até na própria ciclovia. O ciclista desportivo, ainda que amador,
pode atingir médias superiores a 30 km/h, pedalar 200 km num dia e atingir
velocidades de ponta superiores a 60 km/h.
Estas caraterísticas colocam
problemas de convivência com os automobilistas, muitos dos quais não entendem
que andar de bicicleta pode ser encarado como um desafio pessoal de
desenvolvimento muscular, semelhante a qualquer outro desporto praticado com
empenho e dedicação. Claro que requer cuidados especiais da parte do ciclista,
que deve ter a noção de que a bicicleta é o elemento mais frágil da equação e
que há regras de trânsito a cumprir.
Noutra vertente do uso de
bicicletas deve reforçar-se que não se deve usar as passadeiras para
atravessamento enquanto ciclista, porque a chegada à passadeira é muito mais
rápida do que quando é feita por peões e pode impedir a travagem a tempo de
evitar o embate por um veículo automóvel.
Para que se evitem desfechos de
infortúnio como o relatado pela AC.