Foi mais uma aventura. Saída de manhã cedo, não tão cedo quanto o calor previsto aconselhava, pedalada defensiva que o objetivo a isso obrigava. Uma escaramuça a subir à saída de Felgueiras, quando nos juntámos com um outro grupo até à entrada de Fafe e depois a subida da Lameirinha e o planar suave até Mondim. A Senhora lá olhava para nós, ainda fomos até ao início da subida e alguns, que não eu, prosseguiram até à bica. Tivesse quem me trouxesse de volta depois da descida e teria sido desta que lá tinha subido, mas como não tinha outra coisa planeada que o regresso pelo mesmo meio, lá ficou tão desejada subida adiada para melhor dia. Quando cheguei ao final, 190 km depois da partida, eatava com pedalada para tentar a subida, caso ela estivesse à minha frente. Mas isto é como os melões, só depois de abertos se sabe se são doces.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
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segunda-feira, 29 de junho de 2015
terça-feira, 19 de maio de 2015
É longo mas tem mensagens importantes
Foi uma prenda adiantada da
quarta classe, porque o padrinho o tinha prometido um dia, sabendo-se condenado
por uma doença que agora tem cura na grande maioria dos casos, a avó que não
madrinha por desgosto de não o ter sido para o primeiro neto que apenas o foi
por três dias cumpriu o desígnio do marido falecido e ofereceu a bicicleta de
roda pequena à frente e três velocidades com alavanca no quadro, entre o
assento e o guiador.
Dali até à entrada na faculdade
foram muitas tardes a percorrer quantos caminhos de terra havia nas redondezas,
numa área continuamente alargada à medida que a força nas pernas aumentava e a
procura por caminhos novos também, sempre a imaginar-se ao volante dos carros
de rali que preenchiam as páginas das revistas e jornais religiosamente lidos
logo que saíam para as bancas.
Depois, com um dos ordenados
iniciais, foi a entrada na moda que despontava lentamente das novas bicicletas
de montanha, com pneus largos e dezoito combinações possíveis para
desmultiplicação da pedalada, a juntar aos travões do tipo vê, v-brake na
notação inglesa. Depois os amortecedores, os travões de disco e a adição da
bicicleta de estrada, porque nessa é que se ganha potência para longas
maratonas, a menos que se possa andar na outra todos os dias.
A moda das bicicletas é recente
para as grandes massas e, paradoxalmente, aumentou com o agravar da crise
económica, será pela saída dos ginásios ou por mudança de mentalidade ou por
simples processo de seguir o rebanho. O efeito é de tal dimensão que os municípios
desataram a construir ciclovias, os passeios organizados atingiram dimensões
gigantescas e até já se fazem peregrinações em duas rodas. O reverso da medalha
é a convivência com os restantes utentes das vias públicas, peões e automóveis.
Se a convivência com os peões pode não ser pacífica mas não tem grandes
consequências físicas, já a relação com os automobilistas se pode tornar
conflituosa e até mesmo ameaçadora para a integridade física dos ciclistas,
como se pode, infelizmente, concluir por este post da virtual muito amiga e simpática AC. É certo que há uma mentalidade ainda dominante entre os
automobilistas de que têm sempre prioridade sobre os ciclistas mas também é
verdade que aqueles não estão habituados à lentidão dos ciclistas nem estes
estão preparados para andar em estrada.
O ciclismo desportivo é mais uma
vertente do lazer em bicicleta que está em franca expansão e tem
particularidades muito diferentes do simples andar de bicicleta. É praticado
preferencialmente em grupos, que podem ir de dois elementos até duas dezenas ou
até mais. Não é compatível com as ciclovias, quer porque nestas circulam
ciclistas de todas as idades e ritmos de pedalada, quer porque os peões andam
muito perto e até na própria ciclovia. O ciclista desportivo, ainda que amador,
pode atingir médias superiores a 30 km/h, pedalar 200 km num dia e atingir
velocidades de ponta superiores a 60 km/h.
Estas caraterísticas colocam
problemas de convivência com os automobilistas, muitos dos quais não entendem
que andar de bicicleta pode ser encarado como um desafio pessoal de
desenvolvimento muscular, semelhante a qualquer outro desporto praticado com
empenho e dedicação. Claro que requer cuidados especiais da parte do ciclista,
que deve ter a noção de que a bicicleta é o elemento mais frágil da equação e
que há regras de trânsito a cumprir.
Noutra vertente do uso de
bicicletas deve reforçar-se que não se deve usar as passadeiras para
atravessamento enquanto ciclista, porque a chegada à passadeira é muito mais
rápida do que quando é feita por peões e pode impedir a travagem a tempo de
evitar o embate por um veículo automóvel.
Para que se evitem desfechos de
infortúnio como o relatado pela AC.
terça-feira, 28 de abril de 2015
Pensamentos bons
Estão ali os vasos com a sementeira das petúnias, a
terra por cima está a ficar seca, que caralho vou eu fazer se lhes deito água e
chove ficam encharcadas e as folhinhas começam a boiar, se não rego e não chove
ficam secas e já acho que me vão desaparecer todas, isto de andar a comprar
sementes no supermercado é o que dá, bem fizeste em comprar as dos pepinos e
dos tomates no Grémio, por falar nisso estão a ficar grandes, os rebentos dos
pepinos, está a ficar na altura de os mudares para o canteiro, tens medo que os
caracóis ou as lesmas ou que raio de bicharada anda por lá os comam mas não
tens alternativa, mete lá uns quantos rebentos e logo vês. Uma estufa ali é que
ficava bem, mas o jardim ou quintal ou horta ou lá o que seja é tão pequeno que
ocupava metade daquilo e já sabes que a patroa, se sabe que lhe chamas isso
atira-te com o vaso das petúnias em crescimento à testa, é contra, que fica mal
e depois quando fores fazer o churrasco não tens onde sentar as pessoas, que
umas almofadas para pousar por cima do murete de pedra é que ficam bem, depois
calcam-me os canteiros e lá vai o projeto de mandar isto tudo à merda e passar
a cultivar tomates e pepinos e feijão verde e as favas que ficaram por semear
este ano. Entretanto a relva está a crescer e também crescem as ervas daninhas
e todos o tipo de fetos e sei lá mais o quê e os testes da catraia que são
todas as semanas e quero manter o bom hábito de rever a matéria, uma horita que
seja para cada teste e na sexta feira se a malta for andar todo o dia eu também
quero ir, se apanhar o empeno no regresso hei-de acabar por chegar mas quero
manter o bom hábito de ir a Fátima uma vez por ano, qual promessa qual caralho,
é sinal que continuo a ter pernas e me mantenho a andar com a regularidade
suficiente para aguentar a estafa, olha o homem que ia connosco no domingo,
setenta e quatro anos e lá fazia as subidas mais devagar mas chegava lá acima e
a rolar ninguém tinha que esperar por ele e ontem ia para Viana depois do
noventa do dia anterior, eu tinha que chegar aos cem e lá fui dar mais uma voltinha.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Dos tralhos
Felizmente dou poucos, mas
acontece. Sou meio nabo a descer em pisos escorregadios, sobretudo daqueles
onde a pedra fica coberta com uma fina camada vegetal que parece gelo quando
está molhada. É certo que quanto mais depressa descer menos probabilidades
tenho de cair, mas os estragos potenciais são maiores, pelo que a prudência
ensinou-me, numa manhã fria e luminosa vai para sete anos e nas duas semanas
seguintes em que faltei à regra de boa educação de comer com faca e garfo e
parecia uma cegonha com a trouxa mas em vez da criança era mesmo um braço, a
andar devagar e usar uns pneus que mais pareciam de uma mota. Agora os que uso
são menos agressivos visualmente, mas mantém os tacos laterais, que muito jeito
dão nos trilhos inclinados. Puxam mais no monte, é verdade, mas para quem
pedala num portão de quinta tanto dá como deu e o objetivo é queimar calorias e
fazer músculo, que num tipo conhecido uma vida inteira pelas pernas de arame
quaisquer dois centímetros a mais no diâmetro dá um efeito visual notório.
Estás a ficar com pernas de gaja foi o maior dos elogios, dito pelo calmeirão
com o vozeirão. Para ti sou uma gaja lésbica, resposta a dissipar todas as
dúvidas.
Dos últimos, e continuamos a
falar de tralhos, conta-se um voo sobre a bicla após ter entrado demasiado
devagar numa vala de água, tendo a roda da frente ficado presa no fundo.
Curiosamente vinha muito satisfeito com a descida, a pensar que esta época a
minha técnica está num apuro fora de série. O bom destas coisas é que a seguir
se cerram os dentes e fiz uma subida que nunca tinha feito até ao topo e já lá
passo há mais de uma dúzia de anos. Desconfio que a forma física ganha na
estrada deve ter alguma coisa a ver com o assunto, mas pode ser só impressão.
Por falar em estrada lembrei-me do único tralho até agora, se descontar aquele
em que parei e não consegui tirar o pé do encaixe a tempo. Íamos num grupo
pequeno e colocou-se a dúvida sobre a idade da caminheira que seguia sozinha na
berma da estrada, no mesmo sentido, pelo que ao longe se vislumbrava a silhueta
posterior, de aspeto firme e bem constituído. À passagem pela visada todo o
grupo virou a cabeça, tendo o atleta à minha frente abrandado o ritmo, pecado
mortal, já se sabe, resultando no encontro da minha roda da frente com a de
trás dele e consequente medição da temperatura do asfalto. Pouco perspicaz como
sou nem fui capaz de arranjar melhor resposta do que um estou bem, para
responder à senhora, que afinal já não era uma jovem mas mantinha uma excelente
forma física, certamente com o contributo das caminhadas, e se mostrou
preocupada com as consequências da minha avaliação.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Das vias férreas
Como obras de engenharia, as
linhas de comboio são construções extraordinárias, do melhor que se fez e faz.
As inclinações são reduzidas, porque as rodas são metálicas e derrapariam sobre
os carris se fosse necessária muita força para vencer as subidas e travar nas
descidas. As curvas são muito suaves, para que as composições não saltem fora
dos carris devido à velocidade. Isto leva a que se abram canais nos montes, se
construam pontes e se façam túneis. Com a proliferação de estradas e a
prosperidade económica que trouxe automóveis para quase toda a gente o número
de passageiros em muitas linhas diminuiu drasticamente e ditou a morte do
serviço de transporte. Mas será de vistas curtas e uma enorme falta de bom
senso deixar degradar estas obras. E pior ainda permitir que sejam inutilizadas
pelo utilização como estradas, como já em alguns locais se fez.
No já longínquo ano de 1988
tomei o gosto por percorrer estas infra-estruturas adaptadas ao lazer
individual de quem por lá caminha ou pedala, numa zona mineira de Inglaterra,
pejada de curvas e pontes metálicas. Com muita pena, não viajei por linhas
míticas como as do Tua ou do Corgo, por exemplo, mas tenho-o feito nas vias
agora adaptadas, imaginando o apito das míticas máquina a vapor, o tum-tum das
rodas nas emendas entre carris, o cheiro do carvão queimado que enchia o
recreio da escola na saudosa primeira classe.
No passado domingo conheci
mais uma, a linha do Tâmega, da Livração até Arco de Baúlhe, 53 km para cada
lado de pura diversão. O troço de cerca de 10 km até Amarante não está
arranjado, mas os carris foram levantados e passa-se bem de bicicleta. Há uma
ponte metálica comprida que requer muito cuidado e grande desprendimento mental
para atravessar, operação que não deixaria os meus filhos fazerem. O percurso
entre Amarante e o destino está muito bom, mesmo melhor do que um exemplo
recente por onde passeei, de novo em Inglaterra. Será até um luxo, atendendo ao
resultado do que agora vemos como excessos. Depois deste passeio já houve quem
falasse na linha do Corgo, da Régua a Chaves. São 97 km, de acordo com a minha
pesquisa, e já fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu acho que há um enorme
potencial turístico no aproveitamento das linhas antigas, embora tal desiderato
implique investimentos não desprezáveis. Mas acredito que os novos
"Caminhos de Santiago" serão nos milhares de quilómetros de linhas férreas
desativados em todo o mundo.
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Conversas no monte
"- Os halterofilistas Ucranianos masturbam-se e bebem o
seu próprio sémen antes das provas. (As palavras não foram rigorosamente estas, uma dúzia de homens no
monte excitados pelos saltos e exaustos pela subida ao radar usam uma linguagem
um pouco diferente).
- Isso não faz sentido. Se já veio de dentro porque é que
foi lá parar outra vez?"
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013
Da coerência
Será coerente andar no pátio de guarda-chuva aberto a tirar à mangueirada a lama acumulada nos sapatos, nas meias, nas calças de alças, nas luvas e no impermeável depois de ter andado toda a manhã a apanhar chuva pelo capacete abaixo e lama por tudo acima?
E para a especialista, como se mantém a porcaria dos óculos sem embaciar, para não se levar nos olhos com a lama das rodas dos gajos da frente?
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Falar de barriga cheia
Estava com muita vontade de ir de férias, muito porque já não as fazia desde o verão passado, falhando os tradicionais períodos do Natal e Páscoa. Talvez por essa razão tenha acedido a ficar no mesmo local mais de uma semana, algo que raramente se tinha passado e que vai frontalmente contra o meu espírito reconhecidamente nómada. O plano inicial previa uma deslocação ao país vizinho, que teria aproveitado certamente para acrescentar mais dois ou três locais ainda não visitados ao imaginário mapa alfinetado. Mas uma intervenção do mais mediático comentador da nossa praça apelando ao dispêndio dos gastos de férias em terras nacionais acabou, este ano e por reconhecimento da gravidade da situação económica geral, por fazer alterar os planos. Isso e um convite para três dias consecutivos e intensos de pedalada, com final num local próximo de um outro onde é habitual passar uns dias.
Os dias de pedalada chegaram, foram divertidos e interessantes mas passaram depressa. Depois foram quase duas semanas de rotina de praia, com piada nos primeiros dias mas sabor a pouco a partir daí. De maneira que, pela primeira vez desde que me lembro, fiquei com vontade de voltar a casa, prometendo a mim mesmo, mesmo sabendo que depressa disso me esquecerei, que não me volto a meter noutra, nem que tenha que me enfiar num hotel de turistas gordos e ruidosos durante uma semana. O melhor mesmo é começar já a planear as do ano que vem.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
A máquina infernal
Ao longo de vários anos, em longas caminhadas, naquilo que agora se designa por autonomia, nas zonas mais elevadas do Parque Nacional da Peneda-Gerês, sonhava com dias intensos de libertação de adrenalina ao volante de um veículo para todos os terrenos equipado com tracção integral e caixa de transferência para permitir subidas a locais inacessíveis ao comum dos automóveis.
Alguns desses pensamentos auxiliaram os dias igualmente longos imersos em livros, lápis e papéis que permitiram, anos mais tarde, com maior rapidez face à maior parte dos meus concidadãos, aceder a esse e a outros pequenos luxos.
Passei vários dias como tinha sonhado, chegando à conclusão de que a descarga de adrenalina era diretamente proporcional ao esvaziamento do depósito e que a relação entre a quantidade libertada da substância química e o esvaziamento da conta bancária se regia por uma lei exponencial.
Paralelamente, e até antes das caminhadas na montanha, já percorria os montes e vales das redondezas na famosa Órbita de três velocidades e roda pequena à frente, imaginando-me um Markku Alén ao volante dos saudosos Lancia Stratos e Fiat 131 Abarth.
Foi, pois, pacífica e previsível a adesão à bicicleta de todos os terrenos, com travões em vê e forqueta rígida. A evolução que se seguiu levou o apuro da técnica a expoentes que fazem com que haja automóveis mais baratos do que algumas das bicicletas que competem nos campeonatos, com quadros em fibra de carbono, suspensão à frente e atrás, travões de disco e utilização de metais leves e resistentes.
A minha máquina infernal, a que levo para o monte, está a anos-luz desse apuro tecnológico, é uma semi-rígida com uma suspensão interessante à frente e travões hidráulicos básicos, quase a máquina mais modesta do grupo, mas que é capaz de se transformar radicalmente quando a conduzo por descidas longas e rápidas onde as descargas de adrenalina são constantes e custam pouco mais do que uns calços de travões e uns pneus de longe a longe. Nesses momentos torna-se um veículo de possibilidades infinitas, levando-me a admirar como tão simples conjunto mecânico é capaz de proporcionar tão bons momentos.
O prazer proporcionado por um dia no monte pode ser insuperável e é apenas igualado por 36 horas de bons tratos, num hotel com spa e a melhor companhia do mundo.
terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Linguagem de ciclista
"Vai devagar que vem aí uma puuuuuuuuutaaaaa!"
Não, não são senhoras que enveredaram pelo difícil caminho da profissão fácil, muito embora também ainda as haja em locais ermos e improváveis. No calor da pedalada, que facilmente deixa para trás as manhãs frias de Janeiro, o emprego do calão vernáculo refere-se a uma subida íngreme e paciente, numa relação baixa, a velocidade quase de passo.
E, no contexto, relação baixa quer dizer uma combinação em que o diâmetro da cremalheira é quase igual ao do carreto.
Não, não são senhoras que enveredaram pelo difícil caminho da profissão fácil, muito embora também ainda as haja em locais ermos e improváveis. No calor da pedalada, que facilmente deixa para trás as manhãs frias de Janeiro, o emprego do calão vernáculo refere-se a uma subida íngreme e paciente, numa relação baixa, a velocidade quase de passo.
E, no contexto, relação baixa quer dizer uma combinação em que o diâmetro da cremalheira é quase igual ao do carreto.
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