sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Para lá do risco

Foi-se o tempo de arriscar. Nas amizades, no emprego, nos afetos. Havia muita vontade, sonhos, entusiasmo e era possível queimar etapas e jogar nas margens com esperança de que corresse bem. Correu quase sempre bem, foi possível construir bases sólidas que permitem que agora se possa jogar pelo seguro.

O que é necessário corrigir pode sê-lo com segurança, haja paciência e sangue frio. Implica uma escolha com dor, será um mal menor. Preservar a integridade da Família é muito mais importante.

Mas não evita que o impensável tenha acontecido.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

A cena de filme

Passaram quantos anos, aí um quarto de século, passei algumas vezes por aquela estrada, de carro e até de bicicleta. Desta vez lembrei-me, lembrar lembro-me sempre, agora é que o pensamento foi mais além, talvez pelo tempo quente e húmido, ou a hora do dia, ou a música, diferente, já não Vivaldi, nem sequer gravada, era a da rádio escolhida pela mais nova. Naquele dia o carro nem era meu, não tinha nenhum, já não me recordo que tipo de planos imaginava para quem ia ao meu lado mas sei como sou, pelo que nos veria no mesmo cenário de ontem, com os mais novos no banco traseiro, não estes porque os pares das cadeias em hélice não o permitiriam mas outros que me tratariam da mesma forma. Qual cena banal de filme americano, vi-me no presente igual ao futuro que tinha projetado, tendo ao meu lado quem queria ter, nomes à parte que não é do nome que se trata mas de quem connosco faz a caminhada ou, no caso, a viagem pela estrada.
 
O prazer de percorrer sem pressas a estrada que sobe o vale do Cávado a caminho do Rio Caldo, esse, é o mesmo, assim como a paisagem melancólica de chuva miudinha e folhas castanhas ou amarelas que dão uma enorme vontade de por lá ficar mais uns dias, ainda que sabendo que a cara e o cabelo ficarão molhados sempre que saiamos para sentir o cheiro tão forte quando agradável do outono em tão bela região.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

A marca de que se fala

Tenho dois carros daquela marca e passei recentemente a conduzir outro de uma marca do mesmo grupo. Dos três, só este último poderá ser um dos que tem um dos motores em causa. Por formação tenho obrigação de perceber o que está em causa em tão grande polémica, pelo que me espanta tanta falta de informação e tanta tinta, sobretudo virtual, vertida sem que se faça a mínima ideia daquilo de que se fala. Ainda ontem, o comentador do regime, que ouço regularmente e respeito mas a quem atribuo o defeito de comentar tudo, aquilo de que sabe e o resto, veio falar em carbono, entendo que se referia a emissões de dióxido de carbono quando o que está em causa são as emissões de óxidos de azoto.

Não sei se há manipulação de resultados no caso dos Estados Unidos, já que a legislação de lá sobre os óxidos de azoto é muito mais apertada do que a europeia. Sei que nisto dos motores dos automóveis não há segredos e que se uns não cumprem os outros também não poderão cumprir. E também sei que qualquer alteração que haja será sempre no sentido de maior consumo de combustível e aplicação de dispositivos mais caros e com custos de manutenção mais elevados.
 
Cheira-me que ainda muito se vai falar e que a montanha, pelo menos no que ao continente europeu diz respeito, parirá mais um rato.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

Chove que as nuvens negras a dão

Para saciar a terra ressequida. Agora que os tomateiros tinham aberto a primeira flor, sim, em setembro a primeira flor. Essa coisa das hortas urbanas não passa de um mito para compor textos bonitos em revistas que não interessam nem a cristo recém-nascido. Mas comi os pepinos, se é que lhes posso chamar isso, já que nunca os tinha visto já maduros com dez centímetros de comprimento.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Os genes

Passados vinte e oito anos os meus genes voltam à mesma escola dos grandes. Na realidade não é a mesma, mudou de local, agora é moderna, consta que muito maior, que eu só lá entrei duas vezes e não passei das salas mais próximas da entrada. Já não fica no centro histórico, agora estão lá outros, muito menos do que os dos cursos da ferrugem, do pó e das ciências ocultas que picam se encostamos a mão ao fio.
 
Sempre lhe disse que podia estudar o que quisesse mas era muito importante que o fizesse numa escola de referência. Teve a liberdade de escolher a que quis, ficar perto de casa teria vantagens, mas se quisesse ir para longe teria o nosso apoio. Foi colocado na mesma, não no mesmo curso, mas quis o destino que naquele para onde eu queria ir quase até à altura de fazer a escolha no papel que então se preenchia à mão, com esferográfica. Ainda que por razões diferentes, eu sonhava comandar as máquinas num cenário paradisíaco muito longe das grandes cidades, ele vê-se a bater teclas todo o dia e todos os dias a fazer sei lá bem o quê que faça funcionar telemóveis ou impeça os comboios de irem uns contra os outros ou nos faça pagar a passagem na autoestrada sem bem saber que nos foram ao bolso mais uma vez.
 
Estou muito contente e satisfeito, sinto que conseguimos ultrapassar uma das grandes barreiras que a função parental nos coloca. E estou muito orgulhoso do meu rapaz!

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Salada grega

É melhor do que uma novela da TVI. Nessas, até a minha filha adolescente é capaz de adivinhar o que se vai passar a seguir, na Grécia tudo é completamente inesperado, nem os comentadores de fim de semana acertam um único palpite.

Se há uns dias pensava que o referendo seria o desempate por pontapés da marca da grande penalidade agora acho que, a realizar-se, será apenas mais um pequeno capítulo de uma trama que parece estar para lavar e durar. De volta às novelas, está naquela fase em que são anunciados os últimos capítulos, o que se faz quando ainda faltam uns três meses para acabar. À escala grega isso equivale aí a umas três décadas.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Senhora da Graça

Foi mais uma aventura. Saída de manhã cedo, não tão cedo quanto o calor previsto aconselhava, pedalada defensiva que o objetivo a isso obrigava. Uma escaramuça a subir à saída de Felgueiras, quando nos juntámos com um outro grupo até à entrada de Fafe e depois a subida da Lameirinha e o planar suave até Mondim. A Senhora lá olhava para nós, ainda fomos até ao início da subida e alguns, que não eu, prosseguiram até à bica. Tivesse quem me trouxesse de volta depois da descida e teria sido desta que lá tinha subido, mas como não tinha outra coisa planeada que o regresso pelo mesmo meio, lá ficou tão desejada subida adiada para melhor dia. Quando cheguei ao final, 190 km depois da partida, eatava com pedalada para tentar a subida, caso ela estivesse à minha frente. Mas isto é como os melões, só depois de abertos se sabe se são doces.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Das viagens em espaços fechados


Não te rias, não agora, há poucas coisas mais excitantes do que uma mulher nua deitada de bruços, deixa-me olhar-te bem, sabes que gosto de encher os olhos e tens muitos pequenos detalhes por onde me possa perder, o formato longo do segundo dedo do teu pé, o espaço entre esse e o dedo maior, que a minha língua preenche enquanto te contorces, não mexas esse pé porque sei que queres mais e eu não quero ficar com um olho negro, os altos dos outros dedos, que percorro agora qual trepador em contagens de segunda e terceira categoria, espraio-me de seguida ao longo da linha exterior do teu pé de planta alva, faço um círculo em redor do tornozelo e prossigo por cima do tendão de Aquiles, que rapidamente se transforma numa linha imaginária no lugar da costura dos collants usados pelas pin-ups americanas dos anos cinquenta, chego ao vinco atrás do joelho e deixo que o meu queixo se afunde entre eles, levantando os olhos para mais uma visão paradisíaca, o traço rosado e já brilhante, de rebordos escuros, as suaves elevações simétricas, regresso às depressões suaves que a minha língua afaga em vários movimentos rápidos, antes de voltar a subir vagarosamente de volta à linha central, deixo que a respiração profunda assinale o caminho enquanto a ponta do meu nariz serve de batedor. Termino a lenta ascensão e faço uma deriva sem pressas para o centro nevrálgico do turbilhão em crescendo. Permito às minhas mãos abertas o deleite do toque e, sôfregas, elevam um pouco cada uma das nádegas que sinto enrijecerem. De novo o meu queixo se posiciona sobre o eixo de reflexão e deixo que os meus lábios em círculo reduzido iniciem um sopro refrescante de velocidade elevada.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A propósito da pão de forma


Eram seis. Deram dez contos cada um e compraram uma pão de forma, ferrugenta no exterior e com alguns buracos no chão, mas em boas condições mecânicas, não fosse aquele motor de cilindros horizontais opostos indestrutível. Mandaram fazer uma revisão e meteram-se a chapeiros e pintores para tapar os buracos e dar-lhe um aspeto mais apresentável, o que rendeu umas tardes de alegria e brincadeiras, próprias de quem terminava os estudos e tinha a vida pela frente. Cenas divertidas ficaram várias, desde pegar à primeira no cimo da Penha depois de o BMW novo estacionado ao lado não o ter conseguido, até à roda que saltou numa sexta à tarde, feriado, a subir para Vieira do Minho, levando a uma caminhada noturna ao Bom Jesus e à espera pela visita do mecânico ao sucateiro no dia seguinte.



E histórias mais privadas também as houve, ficar sem gasolina em frente à praia já de noite, com regresso no UMM da GNR até à praça de táxis mais próxima, ou a capa negra a servir de agasalho em noite de serenata.



A verdade é que era meter gasolina e arrancar, aquele som inconfundível do ronronar compassado a encher o habitáculo, o movimento pendular da suspensão da frente quando se mudava de velocidade, um deleite para quem sempre apreciou os automóveis. Muitos anos mais tarde foi o olhar embevecido para outra igual, às portas de Veneza, com matrícula portuguesa.



Contas feitas já foram uns quantos clássicos a deixar memórias sonoras, olfativas, afetivas, o 124, a VW pão de forma, a 4 L, a tal que era GTL, o Terrano, mais recente e até, de raspão, o Corolla 1200 e a subida do Cávado ao som de Vivaldi.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Da falta de equilíbrio


Desde muito cedo se habituara a viver consigo próprio. Tinha irmãos, tinha amigos, mas entediavam-no as repetições de jogos, os passeios sempre aos mesmos lugares, as demonstrações de masculinidade de adolescentes nascidos na época conturbada da mudança de regime. Os livros tinham muito mais piada, falavam de locais fantásticos, mais ou menos distantes e pessoas que viviam na procura de novas e excitantes aventuras.

Mal chegou a idade legal partiu para longe, com a conivência do pai e à revelia da mãe protetora, já nem se lembra se pensou no assunto mas a verdade é que durante dois meses viveu por conta própria e deu-se bem, voltou para cumprir o plano desde sempre traçado, que nunca questionara até então e se o fez depois não foi com grande convicção. Habituara-se a cumprir planos, algo de que fez profissão tal a facilidade em obter resultados.

Continuou mais uns anos a decidir sozinho todos os seus passos, muito embora imaginando a partilha do seu espaço com quem comungasse do mesmo desejo de liberdade geográfica e desapego emocional às raízes. Ignorava ingenuamente que aquilo de que precisava era de quem equilibrasse tão grande desvio relativamente ao norte magnético.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O anjo das paragens


Sarita, eu sei que não és responsável pelos locais onde escarrapacham a tua linda figura, mas és responsável por mantê-la e por fazer desses olhos faiscantes um íman mais poderoso do que um buraco negro que engole galáxias. Tu és um anjo, pois fica a saber que vou ter que te ignorar de cada vez que passar por uma paragem de autocarros,  e acredita que passo por muitas, porque espero ainda estar muito longe de te ver ao vivo com asas lá pelos céus, o que pode ser muito provável se não desviar o olhar ao atravessar uma rua a pé, ou me distrair enquanto pedalo, ou me esquecer de travar quando o autocarro para e me desloco de carro.

Devia era ser proibido mostrar-te na via pública.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Da profissão


Primeiro foram quatro anos a fazer trabalho que deveria requerer um profundo conhecimento prático de muitas e variadas situações em contexto industrial. Foi num tempo em que toda a gente era especialista em tudo desde que tivesse um guião para seguir e depois havia outro alguém com experiência que passava os olhos pelo trabalho e dava uma achega aqui e outra ali, em função do reduzido tempo de que dispunha para o fazer. Foi uma forma de o recém-formado ganhar gosto pelas máquinas e decidir que queria passar do ver o cozinhado pronto para o fazer a receita.

E assim foi, durante dezoito meses mudou-se para um local a oitenta quilómetros do local de residência, para onde ia e de onde voltava todos os dias. Ali havia conhecimento de causa e uma verdadeira estrutura fabril, num local onde trabalhavam trezentas pessoas e a tecnologia usada era de ponta e as condições de trabalho ao nível do melhor da indústria. Mas tinha um senão, ficava num local suficientemente longe do núcleo familiar e pouco atrativo para o outro membro adulto, que também tinha legítimas aspirações profissionais. Por isso, o convite para o regresso ao local inicial de trabalho, investido nas funções que ambicionava quando deixou a empresa e novas condições remuneratórias a condizer, foi aceite com prontidão. A proximidade à morada, às escolas, ao centro de gravidade familiar potenciou a manutenção nesse emprego, onde foi possível desenvolver um trabalho contínuo, com melhorias sensíveis de projeto para projeto, com contacto direto com muitas empresas de reconhecida valia no tecido industrial do país. Foram anos bons, embora pautados por uma perda contínua de condições para o melhor desempenho profissional, muito ténue nos primeiros anos, mais acelerada com o final da era das vacas gordas.

Termina assim um período de dezassete anos, muito rico em valorização profissional, em que a vontade de prosseguir cada um dos projetos faz escarnecer dos lugares-comuns das manhãs de segunda-feira na rádio, com louvas ao descanso e lamentos pelo início da semana. É, no entanto, o culminar de um período em que os projetos perdiam continuamente qualidade, cedendo terreno ao argumento gasto das dificuldades económicas, apesar de confirmarem continuamente que o barato sai sempre caro.

Vai começar uma nova fase, num local onde a qualidade tem sido a bandeira que fez crescer sustentadamente a empresa. Oxalá saiba contribuir para esse crescimento e que se mantenham as condições que o proporcionaram.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Das agulhas


A perspetiva era aterradora, é daquelas coisas que só acontece aos outros, nunca a quem andou a torrar as pestanas durante a juventude enquanto os amigos mais espigadotes tinham já empregos que lhes permitiam comprar um carrito e passar os fins de semana entre as esplanadas e as discotecas da moda e ir para o Algarve no verão. O mundo profissional é pequeno, para o bem e para o mal, toda a gente se conhece e em tempos em que o dinheiro a circular não abunda cada um deixa-se ficar no seu canto à espera que passe a borrasca, que bem tempestuosa tem sido. Além disso, na área técnica as oportunidades que aparecem são para o estrangeiro, longe da família e da zona de conforto e se a perspetiva até era interessante quando os compromissos eram poucos, agora será apenas o plano D ou P ou até Z.

O telefonema foi completamente inesperado, de tão esperado que tinha sido ao longo de anos e anos. Nenhuma resposta tinha surgido das poucas tentativas estratégicas já feitas para outros contactos nos últimos tempos e já apelava silenciosamente à famosa sorte dos nascidos no final do ano, aquela que advém do facto de viver a vida disposto a trilhar todo o tipo de terreno, naturalmente em função das circunstâncias do momento.

Foi um alívio, um respirar fundo e mudar de agulha, nunca nada é tão bom quanto parece nem tão mau como o fazemos, mas bem se pode dizer que quem espera sempre alcança.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Princesa


Quinze anos. Roubava-lhe os caracóis muito louros quando a acordava para ir para a escola dos pequeninos, aquela que nunca esqueceu, de que fala sempre com um brilho nos olhos. Saltava da cama num impulso para recuperar o cabelo, agora diz que já não os tem porque lhos tirei.

Adivinha-me os pensamentos, que será de mim quando me ler aqueles que não quero, sabe o que espero dela e gere as minhas expetativas de acordo com a sua determinação, cada vez mais forte, naquela personalidade em construção nos valores que leva de casa, mas já tão marcada pela sua própria cabeça.

Agarra-se ao pai com tanta força que me pergunto como será no dia em que entrar em casa agarrada a um barbudo, de quem não reclamará como agora faz contra a barba de fim de semana.

Dá-me medo, não de a deixar ir, essa é a ordem natural e nada tenho contra, não negarei aquilo que reclamei, mas por não ser capaz de terminar a tarefa, é irracional, eu sei, o campeão da racionalidade, mas alguma ponta de emotividade há-de aparecer em dias em que se olha para trás e o ontem já está tão longe.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Ainda ferve


Eram os tempos dos Audi Quattro e dos Lancia 037, passavam na rotunda dos Produtos Estrela ao início da noite, a caminho da Póvoa do Varzim. na escola ouvia os tempos dos troços no rádio a pilhas, nos intervalos das aulas. Já antes admirava as fotografias dos Fiat 131 Abarth, enquanto sonhava com a troca do velho 124 da família por um daqueles, mesmo o simples 1300. Pouco depois foi o primeiro sábado em Arganil, saída de madrugada numa carrinha de nove lugares, o inenarrável Woodpeckers from space tocado até à exaustão, o frio de Março e o corpo aquecido pela adrenalina do ruído dos motores em elevada rotação. O passo seguinte, entre as idas à Póvoa para ver a assistência antes do parque fechado, foi a noite passada na descida para Folques, as fogueiras a demarcar o troço, o frio da manhã que deixava poças geladas antes dos ganchos com os precipícios bem perto. Seguiu-se a prova espetáculo no aeródromo de Palmeira e mais tarde as idas a Fafe. Depois vieram os compromissos profissionais e depois os familiares e para o ano é que vai ser, seguir o rali do princípio ao fim. Foi para longe, arrefeceu o entusiasmo.



Agora o centro nevrálgico está à porta de casa, pensava que já tinha passado a febre mas bastou ver os carros com os autocolantes nas portas para ficar com o sangue a ferver. Logo vou ver a chegada da etapa, fraco consolo mas para já será assim. Para o ano é que vai ser.

terça-feira, 19 de maio de 2015

É longo mas tem mensagens importantes


Foi uma prenda adiantada da quarta classe, porque o padrinho o tinha prometido um dia, sabendo-se condenado por uma doença que agora tem cura na grande maioria dos casos, a avó que não madrinha por desgosto de não o ter sido para o primeiro neto que apenas o foi por três dias cumpriu o desígnio do marido falecido e ofereceu a bicicleta de roda pequena à frente e três velocidades com alavanca no quadro, entre o assento e o guiador.


Dali até à entrada na faculdade foram muitas tardes a percorrer quantos caminhos de terra havia nas redondezas, numa área continuamente alargada à medida que a força nas pernas aumentava e a procura por caminhos novos também, sempre a imaginar-se ao volante dos carros de rali que preenchiam as páginas das revistas e jornais religiosamente lidos logo que saíam para as bancas.


Depois, com um dos ordenados iniciais, foi a entrada na moda que despontava lentamente das novas bicicletas de montanha, com pneus largos e dezoito combinações possíveis para desmultiplicação da pedalada, a juntar aos travões do tipo vê, v-brake na notação inglesa. Depois os amortecedores, os travões de disco e a adição da bicicleta de estrada, porque nessa é que se ganha potência para longas maratonas, a menos que se possa andar na outra todos os dias.


A moda das bicicletas é recente para as grandes massas e, paradoxalmente, aumentou com o agravar da crise económica, será pela saída dos ginásios ou por mudança de mentalidade ou por simples processo de seguir o rebanho. O efeito é de tal dimensão que os municípios desataram a construir ciclovias, os passeios organizados atingiram dimensões gigantescas e até já se fazem peregrinações em duas rodas. O reverso da medalha é a convivência com os restantes utentes das vias públicas, peões e automóveis. Se a convivência com os peões pode não ser pacífica mas não tem grandes consequências físicas, já a relação com os automobilistas se pode tornar conflituosa e até mesmo ameaçadora para a integridade física dos ciclistas, como se pode, infelizmente, concluir por este post da virtual muito amiga e simpática AC. É certo que há uma mentalidade ainda dominante entre os automobilistas de que têm sempre prioridade sobre os ciclistas mas também é verdade que aqueles não estão habituados à lentidão dos ciclistas nem estes estão preparados para andar em estrada.


O ciclismo desportivo é mais uma vertente do lazer em bicicleta que está em franca expansão e tem particularidades muito diferentes do simples andar de bicicleta. É praticado preferencialmente em grupos, que podem ir de dois elementos até duas dezenas ou até mais. Não é compatível com as ciclovias, quer porque nestas circulam ciclistas de todas as idades e ritmos de pedalada, quer porque os peões andam muito perto e até na própria ciclovia. O ciclista desportivo, ainda que amador, pode atingir médias superiores a 30 km/h, pedalar 200 km num dia e atingir velocidades de ponta superiores a 60 km/h.


Estas caraterísticas colocam problemas de convivência com os automobilistas, muitos dos quais não entendem que andar de bicicleta pode ser encarado como um desafio pessoal de desenvolvimento muscular, semelhante a qualquer outro desporto praticado com empenho e dedicação. Claro que requer cuidados especiais da parte do ciclista, que deve ter a noção de que a bicicleta é o elemento mais frágil da equação e que há regras de trânsito a cumprir.


Noutra vertente do uso de bicicletas deve reforçar-se que não se deve usar as passadeiras para atravessamento enquanto ciclista, porque a chegada à passadeira é muito mais rápida do que quando é feita por peões e pode impedir a travagem a tempo de evitar o embate por um veículo automóvel.


Para que se evitem desfechos de infortúnio como o relatado pela AC.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Convençam-me que não é disparate


Faz sentido a realização de exames de final de ciclo três ou quatro semanas antes do final das aulas?

Faz sentido que o calendário escolar dos alunos dos 4º e 6º anos possa terminar, de acordo com o entendimento do agrupamento de escolas ou da escola não agrupada, uma semana antes do calendário dos restantes anos do ciclo respetivo tendo os alunos realizado já os exames?

Faz sentido que os alunos dos 2º e 3º ciclos não envolvidos nos exames fiquem quatro manhãs em casa porque a escola é sede do agrupamento e não podem decorrer aulas regulares enquanto decorrem exames?

E já não pergunto se faz sentido fazer testes intermédios a quase todas as disciplinas no 9º ano, a meio do segundo período.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Da caligrafia

A caligrafia vai evoluindo ao longo da vida, sendo o efeito muito notório durante grande parte do percurso escolar, sobretudo entre o final do básico e o início do secundário. Mas continua a evoluir até ao final dos anos de estudo e depois ao longo dos anos de profissão. Com a proliferação de computadores e tabletes e telemóveis cada vez se escreve menos à mão, como se nos teclados não se usassem as mãos, é uma forma de expressão, mas para alguns dos menos novos continua a pegar-se regularmente no lápis ou na esferográfica. É o meu caso, ainda tiro notas nas reuniões para um caderninho com a esferográfica e ainda faço cálculos com lápis, antes de os verter para a inevitável e poderosa folha de cálculo.

A minha caligrafia, após estabilização, passou a variar em função do meu estado de espírito, ora desenho as letrinhas maiores, ora escrevo quase com letra minúscula, em tamanho, ora lhes dou ângulos mais agressivos, nos A maiúsculos, ora arredondo o vértice dessa mesma letra. A pressão do momento tem muita influência, mas não só, se o momento for de pressão mas eu andar satisfeito e motivado escrevo de uma certa forma, se não sentir o projeto dentro de mim escrevo de outra forma.

O meu pai tinha uma caligrafia lindíssima, pequena mas de uma regularidade impressionante, completamente legível e sempre limpa e sem rasuras. Muita gente escrevia como ele naquela altura, entre as poucas pessoas, em termos relativos, que tinham passado do ensino primário. Na minha geração, aquela que já cresceu na liberdade, como então se dizia, o culto da caligrafia perdeu-se, são pouquíssimos os casos que conheço de caligrafias limpas, legíveis e agradáveis à vista. Tenho visto essa mesma característica, a falta de estética caligráfica, em grande parte dos colegas estrangeiros com quem me cruzo, com exceção dos britânicos, povo cuja caligrafia é facilmente destacável da de outras nacionalidades. Não sei se é opção escolar, nunca me lembrei de lhes perguntar.

Neste momento a minha caligrafia passa por uma fase arredondada e mais desenhada, não sei se pela idade ou pelo facto de as circunstâncias profissionais me deixarem mais disponibilidade para fazer arquivo e catálogo de uma grande quantidade de informação escrita acumulada nos últimos tempos.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Da passagem do tempo

Havia um tempo em que tudo era lá longe. No início da caminhada o fim parecia inatingível, as Minas dos Carris eram lá no cimo do monte e a mochila pesava tanto, cada passo parecia o último antes de voltar para trás, o segundo ano do curso parecia intransponível e mesmo que o terminasse havia os outros três que estavam num futuro inalcançável, passam depressa e quando der conta está a olhar para trás e a pensar que foi tão rápido, dizia a doutora da farmácia a olhar para o grelo na pasta, a primeira prestação do empréstimo da casa não augurava nada de bom quando se olhava para o que sobrava para o mês à frente.

Agora já se olha para o caminho que enche os olhos a pensar que está a começar e vai deixar tanta vontade de lá voltar, a curiosidade dos dias e das paisagens que estão a chegar perdeu o travo a mistério, muito embora mantenha a curiosidade inabalável da descoberta e da captação mental, aquela que fica na memória e nunca é igual, nem sequer comparável, à que se vê na fotografia, é por isso que cada vez perco menos tempo atrás do aparelho, o tempo que se lá dedica nuca mais se recupera para aqueles momentos de puro prazer.

Lá atrás, tão atrás já, está a memória do simpático casal que nos levou a Cambridge, os nomes já lá vão, devem estar no caderno soterrado no sótão da casa onde cresci, a senhora com tanta vida sentada na cadeira de rodas onde se deslocava, de sorriso encantador nos lábios, os dedais com os membros da família real nas estantes impecavelmente limpas da casa de paredes de tijolo burro, as memórias das sirenes a mandá-la ainda criança para os abrigos contra as bombas voadoras, a assegurar que a vida continuava a passar cada vez mais depressa. Tanta razão tinha ela.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Dos gregos e dos ingleses


Na Grécia houve desejo de mudança, como corolário de longos períodos de insensatez governativa. Em Inglaterra houve recondução do governo, como corolário de um mandato contido e sensato, que levou a redução do desemprego para níveis considerados estruturais não obstante o fluxo elevado de imigrantes, pelo menos a julgar pelos portugueses. A Grécia está no Euro e as suas políticas dependem dos pactos assinados, estando nas mãos de terceiros para definir os programas de governo. Inglaterra nunca aderiu ao Euro e tem liberdade no jogo cambial.

Por cá teremos eleições brevemente e o sentimento da dita opinião pública vai oscilando ao sabor dos resultados e movimentos internacionais. Se o resultado da Grécia deu alento à corrente da rejeição da exploração pelos mais ricos, frase da minha inteira responsabilidade e que não reflete a minha opinião sobre o papel desses países, os recentes resultados das negociações dos novos representantes gregos com os credores, a par da acalmia dos chamados mercados relativamente à nossa dívida, fazem crescer a corrente dos pobres mas honrados, e nesta sim me incluo, que preferem a austeridade certa a novo trambolhão mais do que provável no caso de terem novos almoços à pala durante alguns meses de felicidade ingénua. Nós não somos ingleses, para o bem e para o mal, mas também não somos gregos, pelo que não creio que um ou o outro exemplo venham a ser determinantes para o nosso futuro. E a verdade é que não temos resultados brilhantes na governação recente. Mas temos um rumo, ainda que cheio de percalços.

Só quem não conhece os ingleses se espanta com este resultado eleitoral.