sexta-feira, 5 de junho de 2015

Da profissão


Primeiro foram quatro anos a fazer trabalho que deveria requerer um profundo conhecimento prático de muitas e variadas situações em contexto industrial. Foi num tempo em que toda a gente era especialista em tudo desde que tivesse um guião para seguir e depois havia outro alguém com experiência que passava os olhos pelo trabalho e dava uma achega aqui e outra ali, em função do reduzido tempo de que dispunha para o fazer. Foi uma forma de o recém-formado ganhar gosto pelas máquinas e decidir que queria passar do ver o cozinhado pronto para o fazer a receita.

E assim foi, durante dezoito meses mudou-se para um local a oitenta quilómetros do local de residência, para onde ia e de onde voltava todos os dias. Ali havia conhecimento de causa e uma verdadeira estrutura fabril, num local onde trabalhavam trezentas pessoas e a tecnologia usada era de ponta e as condições de trabalho ao nível do melhor da indústria. Mas tinha um senão, ficava num local suficientemente longe do núcleo familiar e pouco atrativo para o outro membro adulto, que também tinha legítimas aspirações profissionais. Por isso, o convite para o regresso ao local inicial de trabalho, investido nas funções que ambicionava quando deixou a empresa e novas condições remuneratórias a condizer, foi aceite com prontidão. A proximidade à morada, às escolas, ao centro de gravidade familiar potenciou a manutenção nesse emprego, onde foi possível desenvolver um trabalho contínuo, com melhorias sensíveis de projeto para projeto, com contacto direto com muitas empresas de reconhecida valia no tecido industrial do país. Foram anos bons, embora pautados por uma perda contínua de condições para o melhor desempenho profissional, muito ténue nos primeiros anos, mais acelerada com o final da era das vacas gordas.

Termina assim um período de dezassete anos, muito rico em valorização profissional, em que a vontade de prosseguir cada um dos projetos faz escarnecer dos lugares-comuns das manhãs de segunda-feira na rádio, com louvas ao descanso e lamentos pelo início da semana. É, no entanto, o culminar de um período em que os projetos perdiam continuamente qualidade, cedendo terreno ao argumento gasto das dificuldades económicas, apesar de confirmarem continuamente que o barato sai sempre caro.

Vai começar uma nova fase, num local onde a qualidade tem sido a bandeira que fez crescer sustentadamente a empresa. Oxalá saiba contribuir para esse crescimento e que se mantenham as condições que o proporcionaram.

4 comentários:

  1. Desejo-te muita sorte, Ness! Infelizmente, hoje, ser-se bom numa área não parece representar tudo o que deveria mas que seja o início de algo bom!

    Beijos. :)

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    1. Obrigado, Maria, vivemos tempos estranhos, pelo menos tendo em conta o contexto laboral em que crescemos. Oxalá volte a estabilidade :)

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  2. Boa sorte, espero que consigas o teu intento :)

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    1. Obrigado, GM, assim continue a haver uns resistentes a lutar contra o fim da insústria neste país :)

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Dá mais uma chapada, mas com jeitinho