segunda-feira, 29 de junho de 2015

Senhora da Graça

Foi mais uma aventura. Saída de manhã cedo, não tão cedo quanto o calor previsto aconselhava, pedalada defensiva que o objetivo a isso obrigava. Uma escaramuça a subir à saída de Felgueiras, quando nos juntámos com um outro grupo até à entrada de Fafe e depois a subida da Lameirinha e o planar suave até Mondim. A Senhora lá olhava para nós, ainda fomos até ao início da subida e alguns, que não eu, prosseguiram até à bica. Tivesse quem me trouxesse de volta depois da descida e teria sido desta que lá tinha subido, mas como não tinha outra coisa planeada que o regresso pelo mesmo meio, lá ficou tão desejada subida adiada para melhor dia. Quando cheguei ao final, 190 km depois da partida, eatava com pedalada para tentar a subida, caso ela estivesse à minha frente. Mas isto é como os melões, só depois de abertos se sabe se são doces.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Das viagens em espaços fechados


Não te rias, não agora, há poucas coisas mais excitantes do que uma mulher nua deitada de bruços, deixa-me olhar-te bem, sabes que gosto de encher os olhos e tens muitos pequenos detalhes por onde me possa perder, o formato longo do segundo dedo do teu pé, o espaço entre esse e o dedo maior, que a minha língua preenche enquanto te contorces, não mexas esse pé porque sei que queres mais e eu não quero ficar com um olho negro, os altos dos outros dedos, que percorro agora qual trepador em contagens de segunda e terceira categoria, espraio-me de seguida ao longo da linha exterior do teu pé de planta alva, faço um círculo em redor do tornozelo e prossigo por cima do tendão de Aquiles, que rapidamente se transforma numa linha imaginária no lugar da costura dos collants usados pelas pin-ups americanas dos anos cinquenta, chego ao vinco atrás do joelho e deixo que o meu queixo se afunde entre eles, levantando os olhos para mais uma visão paradisíaca, o traço rosado e já brilhante, de rebordos escuros, as suaves elevações simétricas, regresso às depressões suaves que a minha língua afaga em vários movimentos rápidos, antes de voltar a subir vagarosamente de volta à linha central, deixo que a respiração profunda assinale o caminho enquanto a ponta do meu nariz serve de batedor. Termino a lenta ascensão e faço uma deriva sem pressas para o centro nevrálgico do turbilhão em crescendo. Permito às minhas mãos abertas o deleite do toque e, sôfregas, elevam um pouco cada uma das nádegas que sinto enrijecerem. De novo o meu queixo se posiciona sobre o eixo de reflexão e deixo que os meus lábios em círculo reduzido iniciem um sopro refrescante de velocidade elevada.

terça-feira, 16 de junho de 2015

A propósito da pão de forma


Eram seis. Deram dez contos cada um e compraram uma pão de forma, ferrugenta no exterior e com alguns buracos no chão, mas em boas condições mecânicas, não fosse aquele motor de cilindros horizontais opostos indestrutível. Mandaram fazer uma revisão e meteram-se a chapeiros e pintores para tapar os buracos e dar-lhe um aspeto mais apresentável, o que rendeu umas tardes de alegria e brincadeiras, próprias de quem terminava os estudos e tinha a vida pela frente. Cenas divertidas ficaram várias, desde pegar à primeira no cimo da Penha depois de o BMW novo estacionado ao lado não o ter conseguido, até à roda que saltou numa sexta à tarde, feriado, a subir para Vieira do Minho, levando a uma caminhada noturna ao Bom Jesus e à espera pela visita do mecânico ao sucateiro no dia seguinte.



E histórias mais privadas também as houve, ficar sem gasolina em frente à praia já de noite, com regresso no UMM da GNR até à praça de táxis mais próxima, ou a capa negra a servir de agasalho em noite de serenata.



A verdade é que era meter gasolina e arrancar, aquele som inconfundível do ronronar compassado a encher o habitáculo, o movimento pendular da suspensão da frente quando se mudava de velocidade, um deleite para quem sempre apreciou os automóveis. Muitos anos mais tarde foi o olhar embevecido para outra igual, às portas de Veneza, com matrícula portuguesa.



Contas feitas já foram uns quantos clássicos a deixar memórias sonoras, olfativas, afetivas, o 124, a VW pão de forma, a 4 L, a tal que era GTL, o Terrano, mais recente e até, de raspão, o Corolla 1200 e a subida do Cávado ao som de Vivaldi.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Da falta de equilíbrio


Desde muito cedo se habituara a viver consigo próprio. Tinha irmãos, tinha amigos, mas entediavam-no as repetições de jogos, os passeios sempre aos mesmos lugares, as demonstrações de masculinidade de adolescentes nascidos na época conturbada da mudança de regime. Os livros tinham muito mais piada, falavam de locais fantásticos, mais ou menos distantes e pessoas que viviam na procura de novas e excitantes aventuras.

Mal chegou a idade legal partiu para longe, com a conivência do pai e à revelia da mãe protetora, já nem se lembra se pensou no assunto mas a verdade é que durante dois meses viveu por conta própria e deu-se bem, voltou para cumprir o plano desde sempre traçado, que nunca questionara até então e se o fez depois não foi com grande convicção. Habituara-se a cumprir planos, algo de que fez profissão tal a facilidade em obter resultados.

Continuou mais uns anos a decidir sozinho todos os seus passos, muito embora imaginando a partilha do seu espaço com quem comungasse do mesmo desejo de liberdade geográfica e desapego emocional às raízes. Ignorava ingenuamente que aquilo de que precisava era de quem equilibrasse tão grande desvio relativamente ao norte magnético.

segunda-feira, 8 de junho de 2015

O anjo das paragens


Sarita, eu sei que não és responsável pelos locais onde escarrapacham a tua linda figura, mas és responsável por mantê-la e por fazer desses olhos faiscantes um íman mais poderoso do que um buraco negro que engole galáxias. Tu és um anjo, pois fica a saber que vou ter que te ignorar de cada vez que passar por uma paragem de autocarros,  e acredita que passo por muitas, porque espero ainda estar muito longe de te ver ao vivo com asas lá pelos céus, o que pode ser muito provável se não desviar o olhar ao atravessar uma rua a pé, ou me distrair enquanto pedalo, ou me esquecer de travar quando o autocarro para e me desloco de carro.

Devia era ser proibido mostrar-te na via pública.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Da profissão


Primeiro foram quatro anos a fazer trabalho que deveria requerer um profundo conhecimento prático de muitas e variadas situações em contexto industrial. Foi num tempo em que toda a gente era especialista em tudo desde que tivesse um guião para seguir e depois havia outro alguém com experiência que passava os olhos pelo trabalho e dava uma achega aqui e outra ali, em função do reduzido tempo de que dispunha para o fazer. Foi uma forma de o recém-formado ganhar gosto pelas máquinas e decidir que queria passar do ver o cozinhado pronto para o fazer a receita.

E assim foi, durante dezoito meses mudou-se para um local a oitenta quilómetros do local de residência, para onde ia e de onde voltava todos os dias. Ali havia conhecimento de causa e uma verdadeira estrutura fabril, num local onde trabalhavam trezentas pessoas e a tecnologia usada era de ponta e as condições de trabalho ao nível do melhor da indústria. Mas tinha um senão, ficava num local suficientemente longe do núcleo familiar e pouco atrativo para o outro membro adulto, que também tinha legítimas aspirações profissionais. Por isso, o convite para o regresso ao local inicial de trabalho, investido nas funções que ambicionava quando deixou a empresa e novas condições remuneratórias a condizer, foi aceite com prontidão. A proximidade à morada, às escolas, ao centro de gravidade familiar potenciou a manutenção nesse emprego, onde foi possível desenvolver um trabalho contínuo, com melhorias sensíveis de projeto para projeto, com contacto direto com muitas empresas de reconhecida valia no tecido industrial do país. Foram anos bons, embora pautados por uma perda contínua de condições para o melhor desempenho profissional, muito ténue nos primeiros anos, mais acelerada com o final da era das vacas gordas.

Termina assim um período de dezassete anos, muito rico em valorização profissional, em que a vontade de prosseguir cada um dos projetos faz escarnecer dos lugares-comuns das manhãs de segunda-feira na rádio, com louvas ao descanso e lamentos pelo início da semana. É, no entanto, o culminar de um período em que os projetos perdiam continuamente qualidade, cedendo terreno ao argumento gasto das dificuldades económicas, apesar de confirmarem continuamente que o barato sai sempre caro.

Vai começar uma nova fase, num local onde a qualidade tem sido a bandeira que fez crescer sustentadamente a empresa. Oxalá saiba contribuir para esse crescimento e que se mantenham as condições que o proporcionaram.

terça-feira, 2 de junho de 2015

Das agulhas


A perspetiva era aterradora, é daquelas coisas que só acontece aos outros, nunca a quem andou a torrar as pestanas durante a juventude enquanto os amigos mais espigadotes tinham já empregos que lhes permitiam comprar um carrito e passar os fins de semana entre as esplanadas e as discotecas da moda e ir para o Algarve no verão. O mundo profissional é pequeno, para o bem e para o mal, toda a gente se conhece e em tempos em que o dinheiro a circular não abunda cada um deixa-se ficar no seu canto à espera que passe a borrasca, que bem tempestuosa tem sido. Além disso, na área técnica as oportunidades que aparecem são para o estrangeiro, longe da família e da zona de conforto e se a perspetiva até era interessante quando os compromissos eram poucos, agora será apenas o plano D ou P ou até Z.

O telefonema foi completamente inesperado, de tão esperado que tinha sido ao longo de anos e anos. Nenhuma resposta tinha surgido das poucas tentativas estratégicas já feitas para outros contactos nos últimos tempos e já apelava silenciosamente à famosa sorte dos nascidos no final do ano, aquela que advém do facto de viver a vida disposto a trilhar todo o tipo de terreno, naturalmente em função das circunstâncias do momento.

Foi um alívio, um respirar fundo e mudar de agulha, nunca nada é tão bom quanto parece nem tão mau como o fazemos, mas bem se pode dizer que quem espera sempre alcança.