sexta-feira, 24 de abril de 2015

Das relações humanas


Não sei se pensou no que disse ou se lhe saiu boca fora, talvez habituado a usar aquela linguagem em contexto profissional, que pela profissão tudo lhe é permitido quando lida com quem não está em posição de replicar. Já nem falo na atitude de dono do mundo e da verdade, depois de ter brincado ao jogo dos espiões para ficar a saber não sei o quê, tudo o que faço naquela casa é por gosto e por reconhecimento. E depois fiquei mudo, nunca insultei ninguém da família, nunca ninguém encontrou razão para me insultar, muito menos para usar a mãe de todos os insultos. Não está bom da cabeça, é a única hipótese capaz de explicar a boca sem freio ao fim de duas décadas de convivência com demasiados, sei-o agora, momentos de uma intimidade que nem com os do meu sangue, desses também poderei falar um dia, das alegrias e ilusões desfeitas, mas sem nunca terem descido o nível ao ponto da ameaça física, o mais baixo patamar a que se pode chegar na convivência de laços de sangue. Ou estarei errado e é possível ainda chegar mais fundo? Se é não o quero saber, para mim não há mais épocas festivas, não se repetirão os almoços bem regados no calor das férias, não serão assinaladas datas à mesma mesa, tenho muitos amigos verdadeiros entre os poucos que recebo em casa e para cujas casas sou convidado.

Não prevejo pedidos de desculpas e verdade seja dita que não os quero, teria que os aceitar e não me apetece nada, contam-se pelos dedos de uma mão e certamente ainda sobram alguns o número de vezes que deixei de falar a alguém por quem passe na rua, mas se tal acontecer espero ter força anímica para manter uma relação que passará a ser estritamente institucional, naquilo que o termo puder ter quando se trata de gente que partilha traços genéticos com os meus filhos. A manutenção do estado atual das coisas fará com que haja uma ansiedade constante sem fim à vista, mas com esse estado posso eu bem, fomos bem treinados na infância, os três, com a passagem dos anos torna-se menos suportável mas as vantagens de não ter que me fazer familiarmente correto serão superiores.

Mas acabo por engolir o sapo que tão orgulhosamente mantive no pedestal ao meu lado ao longo de tantos anos, não há nada de que me arrependa. Agora sim, tenho algo para me arrepender, algo que fiz questão de impor no início da vida conjunta e de que abidquei com a mesma convicção pouco tempo depois, tão longe de imaginar que um dia poderia mesmo acontecer.

7 comentários:

  1. Então Ness, o que é isso rapaz? Que tudo se resolva :)

    ResponderEliminar
  2. Olá Dona Gaja :)
    Obrigado pelas tuas palavras, são as famosas voltas da vida. Estou tão perplexo que até me agrada deixar a situação como está :)

    ResponderEliminar
  3. Eh lá, que isto aqui tá sério!! Nem digo mais nada!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Estranhaste a minha escrita, foi?

      Eliminar
    2. Mais o tom de rezingão e azedume :P...MAs vou-me já embora, antes que vires pró meu lado :P

      Eliminar
  4. Dizem que o tempo tudo resolve!
    Já resolveu?

    Beijo preocupado

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A., obrigado pela atenção. Eu sou um maratonista, no que ao tempo diz respeito :)

      Eliminar

Dá mais uma chapada, mas com jeitinho