quarta-feira, 29 de abril de 2015

Das sentenças


Foram quatro. Talvez seja a moda dos jogos com tiros, não são pessoas, não são gente, são apenas figuras que temos que matar para ganhar o jogo. Mas não tem história, a da televisão, as poucas palavras que se foram sabendo, para passar horas e dias e noites a jogar contra um chinês virtual, já o do Pinhão talvez tivesse, duas miúdas de vinte e poucos anos, será alucinação, serão filmes a mais que idolatram a personalidade e nos fazem donos da verdade, será a ambição que gente que é gente tem carros de luxo e come em restaurantes com estrelas e vai de férias para um paraíso nas Maldivas. Eram a ex-mulher e os pais e o filho dela que não dele, que palavras possam ter dito, que atos possam ter praticado que o levassem a descarregar duas armas, a julgar pelos ditos, a deixar o filho que tinha com a falecida sem mãe, sem avós maternos e com um pai que não o ajudará nem que seja nas escolhas nas encruzilhadas e a quem provavelmente nunca perdoará o ato insano que cometeu. E o repetir destas situações, afinal se calhar estamos atrás daqueles que decapitam jornalistas e militares, lá longe, no que toca ao desenvolvimento humano, para lá caminhamos em vez de aceitar que uma sociedade se faz de regras e só o seu cumprimento permitirá o bem comum. Que merda é essa do bem comum, isso são histórias de meninos e padres na missa e candidatos a primeiro-ministro. Que dúvida pode assaltar quem vai julgar sobre a pena a aplicar, quem com ferros mata com ferros morre, o que justifica alimentá-lo e prestar-lhe cuidados de saúde e dar-lhe uma televisão de écran plano e uma cela individual e depois mandá-lo embora passados dez ou quinze anos por bom comportamento, reabilitado para uma vida que lhe passou à frente e o deixará a atormentar a vida dos poucos que lhe venham a deitar uma mão, quiçá por vergonha, quiçá porque ainda há boas pessoas que não merecem as provações por que passam às mãos de quem não vale o ar que respira.

terça-feira, 28 de abril de 2015

Pensamentos bons

Estão ali os vasos com a sementeira das petúnias, a terra por cima está a ficar seca, que caralho vou eu fazer se lhes deito água e chove ficam encharcadas e as folhinhas começam a boiar, se não rego e não chove ficam secas e já acho que me vão desaparecer todas, isto de andar a comprar sementes no supermercado é o que dá, bem fizeste em comprar as dos pepinos e dos tomates no Grémio, por falar nisso estão a ficar grandes, os rebentos dos pepinos, está a ficar na altura de os mudares para o canteiro, tens medo que os caracóis ou as lesmas ou que raio de bicharada anda por lá os comam mas não tens alternativa, mete lá uns quantos rebentos e logo vês. Uma estufa ali é que ficava bem, mas o jardim ou quintal ou horta ou lá o que seja é tão pequeno que ocupava metade daquilo e já sabes que a patroa, se sabe que lhe chamas isso atira-te com o vaso das petúnias em crescimento à testa, é contra, que fica mal e depois quando fores fazer o churrasco não tens onde sentar as pessoas, que umas almofadas para pousar por cima do murete de pedra é que ficam bem, depois calcam-me os canteiros e lá vai o projeto de mandar isto tudo à merda e passar a cultivar tomates e pepinos e feijão verde e as favas que ficaram por semear este ano. Entretanto a relva está a crescer e também crescem as ervas daninhas e todos o tipo de fetos e sei lá mais o quê e os testes da catraia que são todas as semanas e quero manter o bom hábito de rever a matéria, uma horita que seja para cada teste e na sexta feira se a malta for andar todo o dia eu também quero ir, se apanhar o empeno no regresso hei-de acabar por chegar mas quero manter o bom hábito de ir a Fátima uma vez por ano, qual promessa qual caralho, é sinal que continuo a ter pernas e me mantenho a andar com a regularidade suficiente para aguentar a estafa, olha o homem que ia connosco no domingo, setenta e quatro anos e lá fazia as subidas mais devagar mas chegava lá acima e a rolar ninguém tinha que esperar por ele e ontem ia para Viana depois do noventa do dia anterior, eu tinha que chegar aos cem e lá fui dar mais uma voltinha.

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Dos filmes do verde


Pode até ser a música. E o verde. E aqueles pubs sempre animados que aparecem nos filmes, já se sabe que os filmes são feitos para criar ilusões, nos tempos dos morangos chegaste a entrar na versão inglesa desses estabelecimentos de diversão, até entraste na moda das amargas, bitter, one pint, please, o sino a tocar last drinks às onze menos cinco, depois era acordar às cinco e meia da manhã para começar a recolher os frutos vermelhos para um cesto pequeno, a partir das seis em ponto. Mas isso foi em terras de Isabel segunda e o filme era passado em parte na Irlanda, onde não foste porque a greve dos correios atrasou a entrega da carta que enviaste já atrasada a perguntar à rapariga se te dava guarida por uns dias, qual internet qual quê, nem com tal coisa se sonhava. Acabaste por ir sozinho para norte, para o distrito dos lagos, lindíssimo, onde passaste por outro pub com muita cerveja a correr, e rio de montanha logo à saída da porta.

Era largar tudo e ir viver para o verde, haveria uma chafarica onde entrar às oito da manhã e sair às cinco da tarde, qualquer lata com quatro rodas serviria para deslocações mais rápidas, a de duas rodas era para levar com o vento no trombil, uma daquelas casinhas com quartos minúsculos e uma sala com vidraria trapezóidal sobre o jardim de brincar. E a estufa nas traseiras, aquelas casas de vidro para brincadeiras de adultos.

Raio de filmes que me deixam de cabeça no ar, a lata até era a banheira Volvo onde se mete a casa inteira e ainda sobra espaço para o cão, a moça era gira e disponível depois do desgosto amoroso, faltava o Hugh Grant que sempre imaginaste ser, com a parte do distraído irresistível, sem a parte do menino mimado sempre à procura de um brinquedo novo. No final a outra parte da história, aquela em que é preciso ser-se muito parvo para deitar fora duas décadas de construção empenhada.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Das relações humanas


Não sei se pensou no que disse ou se lhe saiu boca fora, talvez habituado a usar aquela linguagem em contexto profissional, que pela profissão tudo lhe é permitido quando lida com quem não está em posição de replicar. Já nem falo na atitude de dono do mundo e da verdade, depois de ter brincado ao jogo dos espiões para ficar a saber não sei o quê, tudo o que faço naquela casa é por gosto e por reconhecimento. E depois fiquei mudo, nunca insultei ninguém da família, nunca ninguém encontrou razão para me insultar, muito menos para usar a mãe de todos os insultos. Não está bom da cabeça, é a única hipótese capaz de explicar a boca sem freio ao fim de duas décadas de convivência com demasiados, sei-o agora, momentos de uma intimidade que nem com os do meu sangue, desses também poderei falar um dia, das alegrias e ilusões desfeitas, mas sem nunca terem descido o nível ao ponto da ameaça física, o mais baixo patamar a que se pode chegar na convivência de laços de sangue. Ou estarei errado e é possível ainda chegar mais fundo? Se é não o quero saber, para mim não há mais épocas festivas, não se repetirão os almoços bem regados no calor das férias, não serão assinaladas datas à mesma mesa, tenho muitos amigos verdadeiros entre os poucos que recebo em casa e para cujas casas sou convidado.

Não prevejo pedidos de desculpas e verdade seja dita que não os quero, teria que os aceitar e não me apetece nada, contam-se pelos dedos de uma mão e certamente ainda sobram alguns o número de vezes que deixei de falar a alguém por quem passe na rua, mas se tal acontecer espero ter força anímica para manter uma relação que passará a ser estritamente institucional, naquilo que o termo puder ter quando se trata de gente que partilha traços genéticos com os meus filhos. A manutenção do estado atual das coisas fará com que haja uma ansiedade constante sem fim à vista, mas com esse estado posso eu bem, fomos bem treinados na infância, os três, com a passagem dos anos torna-se menos suportável mas as vantagens de não ter que me fazer familiarmente correto serão superiores.

Mas acabo por engolir o sapo que tão orgulhosamente mantive no pedestal ao meu lado ao longo de tantos anos, não há nada de que me arrependa. Agora sim, tenho algo para me arrepender, algo que fiz questão de impor no início da vida conjunta e de que abidquei com a mesma convicção pouco tempo depois, tão longe de imaginar que um dia poderia mesmo acontecer.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Gestos


Mais do que as mamas que se adivinham por trás dessa camisola decotada foi o gesto de puxar o cabelo para um molho por cima das costas, revelando a textura suave da pele levemente dourada por cima dos ombros e a curva longa do pescoço até à covinha de pequeno diâmetro onde a minha língua descansaria, prazenteira e feliz. Aproximar-me-ia pelas tuas costas e deixaria que o meu nariz se encostasse ao de leve ao cilindro do teu pescoço, revelando a respiração profunda, já acelerada pela visão mental dos teus olhos a fecharem e a tua própria respiração em aceleração desenfreada.

Abriria a minha boca e deixaria os meus lábios em círculo de grande diâmetro tocarem a carne morna do teu ombro a meio caminho entra a linha do pescoço e a curva descendente da linha para o braço. Lentamente, os meus dentes aumentariam a pressão sobre a carne. As minhas mãos abertas comprimiriam com pouca pressão a linha côncava acima das ancas e sentiria as tuas mãos em concha a fecharem-se sobre a minha nuca.