Foram quatro. Talvez seja a moda
dos jogos com tiros, não são pessoas, não são gente, são apenas figuras que
temos que matar para ganhar o jogo. Mas não tem história, a da televisão, as
poucas palavras que se foram sabendo, para passar horas e dias e noites a jogar
contra um chinês virtual, já o do Pinhão talvez tivesse, duas miúdas de vinte e
poucos anos, será alucinação, serão filmes a mais que idolatram a personalidade
e nos fazem donos da verdade, será a ambição que gente que é gente tem carros
de luxo e come em restaurantes com estrelas e vai de férias para um paraíso nas
Maldivas. Eram a ex-mulher e os pais e o filho dela que não dele, que palavras
possam ter dito, que atos possam ter praticado que o levassem a descarregar
duas armas, a julgar pelos ditos, a deixar o filho que tinha com a falecida sem
mãe, sem avós maternos e com um pai que não o ajudará nem que seja nas escolhas
nas encruzilhadas e a quem provavelmente nunca perdoará o ato insano que
cometeu. E o repetir destas situações, afinal se calhar estamos atrás daqueles
que decapitam jornalistas e militares, lá longe, no que toca ao desenvolvimento
humano, para lá caminhamos em vez de aceitar que uma sociedade se faz de regras
e só o seu cumprimento permitirá o bem comum. Que merda é essa do bem comum,
isso são histórias de meninos e padres na missa e candidatos a
primeiro-ministro. Que dúvida pode assaltar quem vai julgar sobre a pena a
aplicar, quem com ferros mata com ferros morre, o que justifica alimentá-lo e
prestar-lhe cuidados de saúde e dar-lhe uma televisão de écran plano e uma cela
individual e depois mandá-lo embora passados dez ou quinze anos por bom
comportamento, reabilitado para uma vida que lhe passou à frente e o deixará a
atormentar a vida dos poucos que lhe venham a deitar uma mão, quiçá por
vergonha, quiçá porque ainda há boas pessoas que não merecem as provações por
que passam às mãos de quem não vale o ar que respira.
Fechei os olhos e inspirei o ar fresco trazido pelo vento. Fi-lo sempre que precisava de me encontrar, até que, de olhos fechados e pensamento vagueante, senti-a, forte, intensa, despertadora da realidade que me recusava a admitir: a chapada cruel do défice.
quarta-feira, 29 de abril de 2015
terça-feira, 28 de abril de 2015
Pensamentos bons
Estão ali os vasos com a sementeira das petúnias, a
terra por cima está a ficar seca, que caralho vou eu fazer se lhes deito água e
chove ficam encharcadas e as folhinhas começam a boiar, se não rego e não chove
ficam secas e já acho que me vão desaparecer todas, isto de andar a comprar
sementes no supermercado é o que dá, bem fizeste em comprar as dos pepinos e
dos tomates no Grémio, por falar nisso estão a ficar grandes, os rebentos dos
pepinos, está a ficar na altura de os mudares para o canteiro, tens medo que os
caracóis ou as lesmas ou que raio de bicharada anda por lá os comam mas não
tens alternativa, mete lá uns quantos rebentos e logo vês. Uma estufa ali é que
ficava bem, mas o jardim ou quintal ou horta ou lá o que seja é tão pequeno que
ocupava metade daquilo e já sabes que a patroa, se sabe que lhe chamas isso
atira-te com o vaso das petúnias em crescimento à testa, é contra, que fica mal
e depois quando fores fazer o churrasco não tens onde sentar as pessoas, que
umas almofadas para pousar por cima do murete de pedra é que ficam bem, depois
calcam-me os canteiros e lá vai o projeto de mandar isto tudo à merda e passar
a cultivar tomates e pepinos e feijão verde e as favas que ficaram por semear
este ano. Entretanto a relva está a crescer e também crescem as ervas daninhas
e todos o tipo de fetos e sei lá mais o quê e os testes da catraia que são
todas as semanas e quero manter o bom hábito de rever a matéria, uma horita que
seja para cada teste e na sexta feira se a malta for andar todo o dia eu também
quero ir, se apanhar o empeno no regresso hei-de acabar por chegar mas quero
manter o bom hábito de ir a Fátima uma vez por ano, qual promessa qual caralho,
é sinal que continuo a ter pernas e me mantenho a andar com a regularidade
suficiente para aguentar a estafa, olha o homem que ia connosco no domingo,
setenta e quatro anos e lá fazia as subidas mais devagar mas chegava lá acima e
a rolar ninguém tinha que esperar por ele e ontem ia para Viana depois do
noventa do dia anterior, eu tinha que chegar aos cem e lá fui dar mais uma voltinha.
segunda-feira, 27 de abril de 2015
Dos filmes do verde
Pode até ser a música. E o verde.
E aqueles pubs sempre animados que aparecem nos filmes, já se sabe que os
filmes são feitos para criar ilusões, nos tempos dos morangos chegaste a entrar
na versão inglesa desses estabelecimentos de diversão, até entraste na moda das
amargas, bitter, one pint, please, o sino a tocar last drinks às onze menos
cinco, depois era acordar às cinco e meia da manhã para começar a recolher os
frutos vermelhos para um cesto pequeno, a partir das seis em ponto. Mas isso
foi em terras de Isabel segunda e o filme era passado em parte na Irlanda, onde
não foste porque a greve dos correios atrasou a entrega da carta que enviaste
já atrasada a perguntar à rapariga se te dava guarida por uns dias, qual
internet qual quê, nem com tal coisa se sonhava. Acabaste por ir sozinho para
norte, para o distrito dos lagos, lindíssimo, onde passaste por outro pub com
muita cerveja a correr, e rio de montanha logo à saída da porta.
Era largar tudo e ir viver para o
verde, haveria uma chafarica onde entrar às oito da manhã e sair às cinco da
tarde, qualquer lata com quatro rodas serviria para deslocações mais rápidas, a
de duas rodas era para levar com o vento no trombil, uma daquelas casinhas com
quartos minúsculos e uma sala com vidraria trapezóidal sobre o jardim de
brincar. E a estufa nas traseiras, aquelas casas de vidro para brincadeiras de
adultos.
Raio de filmes que me deixam de
cabeça no ar, a lata até era a banheira Volvo onde se mete a casa inteira e
ainda sobra espaço para o cão, a moça era gira e disponível depois do desgosto
amoroso, faltava o Hugh Grant que sempre imaginaste ser, com a parte do distraído
irresistível, sem a parte do menino mimado sempre à procura de um brinquedo
novo. No final a outra parte da história, aquela em que é preciso ser-se muito
parvo para deitar fora duas décadas de construção empenhada.
sexta-feira, 24 de abril de 2015
Das relações humanas
Não sei se pensou no que disse ou
se lhe saiu boca fora, talvez habituado a usar aquela linguagem em contexto
profissional, que pela profissão tudo lhe é permitido quando lida com quem não
está em posição de replicar. Já nem falo na atitude de dono do mundo e da
verdade, depois de ter brincado ao jogo dos espiões para ficar a saber não sei
o quê, tudo o que faço naquela casa é por gosto e por reconhecimento. E depois
fiquei mudo, nunca insultei ninguém da família, nunca ninguém encontrou razão
para me insultar, muito menos para usar a mãe de todos os insultos. Não está
bom da cabeça, é a única hipótese capaz de explicar a boca sem freio ao fim de
duas décadas de convivência com demasiados, sei-o agora, momentos de uma
intimidade que nem com os do meu sangue, desses também poderei falar um dia,
das alegrias e ilusões desfeitas, mas sem nunca terem descido o nível ao ponto
da ameaça física, o mais baixo patamar a que se pode chegar na convivência de
laços de sangue. Ou estarei errado e é possível ainda chegar mais fundo? Se é
não o quero saber, para mim não há mais épocas festivas, não se repetirão os
almoços bem regados no calor das férias, não serão assinaladas datas à mesma
mesa, tenho muitos amigos verdadeiros entre os poucos que recebo em casa e para
cujas casas sou convidado.
Não prevejo pedidos de desculpas
e verdade seja dita que não os quero, teria que os aceitar e não me apetece
nada, contam-se pelos dedos de uma mão e certamente ainda sobram alguns o
número de vezes que deixei de falar a alguém por quem passe na rua, mas se tal
acontecer espero ter força anímica para manter uma relação que passará a ser
estritamente institucional, naquilo que o termo puder ter quando se trata de
gente que partilha traços genéticos com os meus filhos. A manutenção do estado
atual das coisas fará com que haja uma ansiedade constante sem fim à vista, mas
com esse estado posso eu bem, fomos bem treinados na infância, os três, com a
passagem dos anos torna-se menos suportável mas as vantagens de não ter que me
fazer familiarmente correto serão superiores.
Mas acabo por engolir o sapo que
tão orgulhosamente mantive no pedestal ao meu lado ao longo de tantos anos, não
há nada de que me arrependa. Agora sim, tenho algo para me arrepender, algo que
fiz questão de impor no início da vida conjunta e de que abidquei com a mesma
convicção pouco tempo depois, tão longe de imaginar que um dia poderia mesmo
acontecer.
quinta-feira, 23 de abril de 2015
Gestos
Mais do que as mamas que se
adivinham por trás dessa camisola decotada foi o gesto de puxar o cabelo para
um molho por cima das costas, revelando a textura suave da pele levemente
dourada por cima dos ombros e a curva longa do pescoço até à covinha de pequeno
diâmetro onde a minha língua descansaria, prazenteira e feliz. Aproximar-me-ia
pelas tuas costas e deixaria que o meu nariz se encostasse ao de leve ao
cilindro do teu pescoço, revelando a respiração profunda, já acelerada pela visão
mental dos teus olhos a fecharem e a tua própria respiração em aceleração
desenfreada.
Abriria a minha boca e deixaria
os meus lábios em círculo de grande diâmetro tocarem a carne morna do teu ombro
a meio caminho entra a linha do pescoço e a curva descendente da linha para o
braço. Lentamente, os meus dentes aumentariam a pressão sobre a carne. As
minhas mãos abertas comprimiriam com pouca pressão a linha côncava acima das
ancas e sentiria as tuas mãos em concha a fecharem-se sobre a minha nuca.
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