sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sonhos

Campo de batalha. O sonhador ausente em luta encarniçada com o racional cinzento. O atropelo dos pensamentos em convulsão atenuado pelos músculos agora menos enérgicos. O passo lento e progressivamente mais seguro do rezingão austero a permitir o maior deleite dos momentos, ainda que diminuídos em frequência.

O sonhador perde, o cinzentão ganha. Será? Não permitiu o cara de pau que o sonhador fosse cumprindo os seus pensamentos? E não tem o cabeça de vento uma lista cheia e sempre aberta? São agora diferentes, os sonhos, ou talvez sejam apenas de outro tipo, toda a gente se cansa de percorrer os mesmos caminhos embora encontre prazer em voltar um dia mais tarde.

No fundo, o sonhador nunca deixa de o ser.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Novela III

Ora depois de passado o período doido dos últimos meses, no meio do qual consegui arranjar nem sei bem como aquela semana de desvario ciclístico, atirei-me ao OLX convencido de que encontraria o que procurava sem ter que entrar em loucuras orçamentais. Comecei a atirar por baixo, convencido de que bastava um amortecedor fiável e com bloqueio para garantir o conforto necessário. Percebi então que tinha que gastar mais qualquer coisa e fui ver duas máquinas de reconhecida qualidade, uma Scott e uma Canyon, esquecendo, ou inconscientemente ignorando, o que tinha dito há tempos, que podia ser qualquer uma desde que o nome começasse por S e terminasse em D e no meio tivesse as letras PECIALIZE. Estive para comprar a Canyon, o que só não aconteceu por um desacordo de cem euros, desacordo que só tenho a agradecer ao dono da bicicleta. E já ponderava eu pagar a tal diferença quando em conversa no meio do monte me convenceram de que precisava do sistema Brain, exclusivo da marca que estava bloqueada na minha cabeça. Voltei ao OLX e percebi, com grande espanto, que o valor usado das máquinas em causa era da mesma ordem de grandeza do que andava a ver. Então escolhi duas ou três bicicletas que me pareciam em melhores condições, contactei os vendedores e acabei por ir fazer uma compra épica, palavra que neste contexto só será entendida por quem domina a modalidade, a Santarém, aproveitando uma deslocação de cariz familiar ao sul.

Como já alguém referiu no monte, eu comprei um chasso. É roda 26, quando agora a moda é 29 ou 27,5 para as estaturas mais compactas, é de alumínio e não em carbono para redução de peso e tem amortecedor, numa altura em que se usam semi-rígidas, mais uma vez para redução do peso. Mas eu já não vou para novo, o meio século aproxima-se vertiginosamente e está a menos de três anos, pelo que não estou aqui para corridas e o meu esqueleto agradecerá certamente a redução de pancada. Na realidade, a mudança em causa corresponde a passar da saudosa R4 GTL comprada com rigor e empenho após o início da carreira profissional para o 2.0 TDI atual em que meto a 6ª à entrada da VCI e só a tiro à saída da 2ª circular. No monte costuma dizer-se que muda a carroça mas o burro é o mesmo, mas este burro tem andado muito mais perto dos cavalos de corrida.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Ano novo

Quando exprimo os meus desejos de bom ano a quem entendo que o merece estou a ser sincero. Mas em consciência não tenho motivos para acreditar que o venha a ser, ao contrário da onda otimista que me parece ser o consenso geral da época. Continuo a não conseguir entender como será possível que a civilização europeia consiga progredir economicamente à custa das outras, tendo acabado a transferência de bens e até mão de obra barata proveniente dos outros continentes. Isto em conjugação com os elevados padrões de assistência social entretanto desenvolvidos, e que no caso português, o único que conheço, implica um consumo de recursos económicos que me parece impossível de manter nas circunstâncias atuais de envelhecimento da população.

Espero, no entanto, estar a ser um velho do Restelo e vir a ficar rapidamente surpreendido pela enorme e secular capacidade de reação às adversidades sempre demonstrada do nosso povo.

Novela II

Até que me meti, nestas condições, na primeira parte da grande aventura ciclista, aquela que me preenche os sonhos há anos e que não julgava possível no quadro familiar e profissional atual e previsível nos tempos mais próximos: O Caminho Francês. A partir daqui, mesmo faltando a segunda etapa, já lá vamos, passei a designar esta como a primeira grande aventura. Ora dado o tal do quadro familiar e profissional convenci quem me fez companhia a dividir a aventura em duas partes, a primeira em seis dias de pedalada, cobrindo cerca de dois terços do percurso e cumprida em setembro, e a segunda a percorrer o restante em quatro ou cinco dias, a cumprir previsivelmente no próximo setembro.

O que tem isto a ver com a bicicleta? Ora lá fui eu com a máquina que me acompanha há mais de uma década, equipada com alforges mais uma vez, convencido de que chegava e sobrava para a encomenda. Acontece que o Caminho não é nada meigo, tem pedrinha que chegue e sobre e mesmo indo devagar e bem preparado fisicamente aquilo é coisa que mói. E depois nas descidas via os outros a passar em grande velocidade, com o amortecedor do quadro a absorver a pancada adicional do peso da bagagem enquanto a minha caía em peso sobre o quadro rígido e eu tinha que abrandar para evitar que a máquina se desintegrasse. Prometi a mim mesmo que estava na altura de me mimar com uma bicicleta de tecnologia mais atualizada.