sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A rotunda

Sonhei que estava numa rotunda, uma assim grande tipo L'Étoile, e que pretendia percorrer metade dela e sair na mesma direção em que tinha entrado. Percorri os cento e oitenta graus e preparava-me para sair quando me deparei com um sinal de sentido proibido descomunal mesmo à entrada da rua. Fiquei surpreso, já que no meu percurso não constavam caminhos proibidos, mas segui até à próxima saída. Faço um pequeno desvio, pensei, atrasar-me-á o percurso mas chegarei ao destino na mesma. Presto-me para sair na próxima rua e qual não é a minha surpresa quando dou de caras com outro sinal vermelho com um retângulo branco horizontal no centro. Que raio, começo a ficar irritado, então e agora? Continuo a circular no trânsito infernal, os condutores esbracejam, gritam de janela aberta e tocam as buzinas furiosamente, tento sair na próxima e na seguinte e todas estão marcadas com o sinal, chegam mais carros que entram e não podem sair. Espera, pensei, é só um pesadelo, vais acordar e está tudo bem.

Acordei. Tomei o meu duche, vesti-me, tomei o pequeno almoço, calcei-me e abri a porta para sair. Começo a ouvir as buzinas e os gritos. Saio à rua e estou no meio da rotunda.


Acordei no local errado ou o código não serve para o fim a que se destina?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Para naum cair asiono os travoins e a bicicleta pahra

Tivese eu mais nada que fazer e divertir me ia a provar que a lihngua portugueza naum presiza de mais do que vinte e tries letras para que todas as palavras posam ser escritas sem quaisquer duhvidas quanto ao seu significado. E ainda retiraria os sies sedilhados, o duplo hese e todos os asentos grahficos. E tambeim tentaria acabar com situasoins que me paresem duvidozas, como o uzo do sie como hese antes dos is e dos es. E o uzo do hese como zie, em prejuhijo deste. O agah teria um forte incremento de uzo, jah que pasaria a asentuar palavras esdruhxulas e agudas.

Alehm disto ainda reporia formas de distinsaum de outras palavras que jah foram abolidas em acordos anteriores, como puarto, local de abrigo de embarcasoins, e porto, forma verbal do verbo portar. E cuar, colorasaum, diferente de cor, falar sem recurso a auxihlio escrito. Embora alterando a forma de escrita da sidade invicta para Puarto, em conformidade com a palavra asima escrita, manter lhe ia a letra maihuscula, tal como aos restantes nomes prohprios.

Jah sei que haverah outras situasoins que naum tardaraum a apontar me, mas acredito que delas posa dar boa conta em favor desta causa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Olhares

Cheguei ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar cada um dos olhares.

A maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são, quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Prazeres


Gosto de conduzir, é uma das minhas manias. E tanto encontro prazer a conduzir depressa como o encontro em passeios calmos com a caravana atrás. Em tempos adorava chapinhar nas estradas alagadas com o todo-o-terreno verdadeiro que tive o privilégio de conduzir durante mais de uma dúzia de anos. Gosto de sentir que engreno as velocidades sem deixar grilar o motor nem provocar solavancos na embraiagem, gosto de sentir o carro equilibrado numa travagem antes de uma curva, gosto de procurar o menor consumo possível em percursos que repito mantendo o tempo total da viagem. Em suma, gosto de explorar todas as vertentes do automóvel.


A mulher é outra das minhas manias. Dela gosto também de descobrir todos os botões escondidos, experimentar as reações às palavras, aos toques, aos sopros, à minha língua, aos meus dentes. Gosto de acelerar o ritmo e perceber como também se acelera ou de a conduzir com ritmo lento, mesmo até parar e ficar a deixar que a antecipação do meu próximo movimento a deixe descontrolada. O prazer mais intenso não está no limite físico mas sim na forma como estimulamos os sentidos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

No cinema

Não se pode fumar no interior de uma sala de cinema. Mas pode-se comer pipocas. Pode-se remexer o recipiente de cartão e deixar o vizinho do lado quase às portas da loucura com o restolhar das bolinhas explodidas de milho. Se é para comer aquela merda, que não passa de uma dúzia de grãos de cereal revestidas de açúcar, porque é que não se limitam a pegar nelas uma a uma, silenciosamente, e mastigá-las com a boca bem fechada, que já basta o cheiro enjoativo que largam quando ainda no pacote. É preciso dar-lhes a volta, sabe-se lá a escolher o quê, já que se acaba por comer tudo, fazendo uma chinfrineira que se ouve na sala mais longínqua? Ou será que o objetivo é apenas chamar a atenção, vejam, olhem para mim, eu estou aqui, sou uma gorda desconsolada que ia ver a nova comédia nacional mas como já não havia bilhetes acabei por vir parar a esta sala e quero lá saber que os outros se estejam a tentar concentrar para perceber como se ligam estas personagens que o realizador entendeu meter em cenas desligadas para prender a atenção do espetador.


Valha-nos a cena de ginástica de alta escola sobre o para-brisas do Ferrari amarelo, primorosamente descrita pelo Javier Bardem. Ficará, sem sombra de dúvida, registada nos anais da cinematografia pela reinvenção do erotismo na indústria automóvel. E a comparação com o peixe limpa-fundos não lembraria ao diabo.

Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.