quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Das vias férreas


Como obras de engenharia, as linhas de comboio são construções extraordinárias, do melhor que se fez e faz. As inclinações são reduzidas, porque as rodas são metálicas e derrapariam sobre os carris se fosse necessária muita força para vencer as subidas e travar nas descidas. As curvas são muito suaves, para que as composições não saltem fora dos carris devido à velocidade. Isto leva a que se abram canais nos montes, se construam pontes e se façam túneis. Com a proliferação de estradas e a prosperidade económica que trouxe automóveis para quase toda a gente o número de passageiros em muitas linhas diminuiu drasticamente e ditou a morte do serviço de transporte. Mas será de vistas curtas e uma enorme falta de bom senso deixar degradar estas obras. E pior ainda permitir que sejam inutilizadas pelo utilização como estradas, como já em alguns locais se fez.

No já longínquo ano de 1988 tomei o gosto por percorrer estas infra-estruturas adaptadas ao lazer individual de quem por lá caminha ou pedala, numa zona mineira de Inglaterra, pejada de curvas e pontes metálicas. Com muita pena, não viajei por linhas míticas como as do Tua ou do Corgo, por exemplo, mas tenho-o feito nas vias agora adaptadas, imaginando o apito das míticas máquina a vapor, o tum-tum das rodas nas emendas entre carris, o cheiro do carvão queimado que enchia o recreio da escola na saudosa primeira classe.
 


No passado domingo conheci mais uma, a linha do Tâmega, da Livração até Arco de Baúlhe, 53 km para cada lado de pura diversão. O troço de cerca de 10 km até Amarante não está arranjado, mas os carris foram levantados e passa-se bem de bicicleta. Há uma ponte metálica comprida que requer muito cuidado e grande desprendimento mental para atravessar, operação que não deixaria os meus filhos fazerem. O percurso entre Amarante e o destino está muito bom, mesmo melhor do que um exemplo recente por onde passeei, de novo em Inglaterra. Será até um luxo, atendendo ao resultado do que agora vemos como excessos. Depois deste passeio já houve quem falasse na linha do Corgo, da Régua a Chaves. São 97 km, de acordo com a minha pesquisa, e já fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu acho que há um enorme potencial turístico no aproveitamento das linhas antigas, embora tal desiderato implique investimentos não desprezáveis. Mas acredito que os novos "Caminhos de Santiago" serão nos milhares de quilómetros de linhas férreas desativados em todo o mundo.

6 comentários:

  1. É lamentável como se maltrata uma infraestrutura que tirou do isolamento tanta gente. Aproveitar essas linhas para turismo e como transporte alternativo seria melhor do que vetá-las ao abnadono!

    Beijinhos Marianos! :)

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    1. Olá Maria :)
      Temos, felizmente, bons exemplos de aproveitamento dessas infra-estruturas e espero que ainda se possam corrigir alguns erros entretanto cometidos. Eu imagino as antigas estações transformadas em albergues, tal como os do Caminho de Santiago. E cada uma delas pode ter carimbos próprios, a marcar numa caderneta com esquemas das linhas do país :) Sou um sonhador :)

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  2. Eu fui da minha cidade ao Arco, depois fiz a pista toda até Amarante no início do ano, já combinamos em voltar lá, adorei ver a Senhora da Graça sempre do nosso lado e aquele rio lá ao fundo, já lá passei em várias maratonas, para cima, para baixo, é uma zona muito bonita. Quando fui aquele bocado que ainda estava por acabar estava em muito mau estado, estragamos dois pneus, mas mesmo assim valeu a pena.
    Ah... e há lá uma zona onde o cimento estava fresco, eu ia cair, o meu pneu está marcado e já que fiz estragos depois escrevi VERA, só para saberem que fui eu que estraguei, não viste lá a minha assinatura?

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    1. Que distração a minha, Vera, não vi, não :) Agora já está tudo arranjado. Esse troço de que falas deve ser o que está agora em saibro, que não permite as velocidades do cimento mas não faz mossa a quem vai em BTT. A Senhora da Graça é das subidas que me falta fazer na bicicleta de estrada, mas tem que ser numa altura em que esteja muito bem preparado porque são 100 km antes de lá chegar e depois outros 100 para voltar para casa :)

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    2. Tchi... que falta de atenção.

      A senhora da Graça é linda, tens que tratar disso.

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  3. A ver se é na próxima época de estrada, que começará lá para Março :)

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Dá mais uma chapada, mas com jeitinho