quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A paixão à portuguesa

Bastava ter ganho os dois jogos a Israel. No final das contas, até chegava ter vencido um deles. Dito de outra forma, era suficiente uma única das três acelerações de ontem do Cristiano para ter resolvido tranquilamente a questão da qualificação. Não haveria mais dois jogos, teria sido mais limpo e menos emotivo.

Mas isso seria como aqueles casamentos do tipo olá querido, correu bem o teu dia, correu muito bem então e o teu, o meu também correu bem, liga a televisão para vermos as notícias. Nós, portugueses, não somos nada disso, se mais provas fossem necessárias juntar à inevitabilidade dos play-offs para a coesão nacional, cá temos a nova cruzada de fazer de conta que recuperamos a independência nacional no dia em que os ditadores do orçamento forem embora. Curiosamente, o calendário é um cabrão sádico, isso acontecerá precisamente por altura do campeonato para o qual finalmente nos qualificámos, pelo que São Cristiano terá nos pés a capacidade de dar ao governo a paz necessária para negociar o famoso programa cautelar que garantirá, novamente, a ausência de responsáveis nacionais pelas políticas de austeridade. O que, convenhamos, representa a única forma de ter uma direção política definida.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Talvez poético, em português arcaico ou evitando-o elegantemente.

Em arcaico

Deleito-me, com o meu olfaqueto apurado pela visão edílica do teu corpo descoberto, enquanto o teu odor fresco e doce me faz cravar-te as unhas curtas nas nádegas retesadas..

Taqueteio-te a pele, milímetro a milímetro, desde o pináculo erequeto do teu mamilo escurecido até ao rio doce e de sabor a mel que corre em turbilhão no cimo das tuas pernas.

Elegante

Aspiro, inebriado, o cheiro perfumado do teu cabelo, enquanto deixo que o meu nariz descreva círculos imperfeitos em redor do teu pescoço.


Toco-te a pele, milímetro a milímetro, pelo interior das tuas coxas, desde a curva do joelho até ao contorno quente da tua rosa em ebulição.



Digam-me, divas inalcançáveis que por aqui passais, qual das grafias preferis?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dos tralhos

Felizmente dou poucos, mas acontece. Sou meio nabo a descer em pisos escorregadios, sobretudo daqueles onde a pedra fica coberta com uma fina camada vegetal que parece gelo quando está molhada. É certo que quanto mais depressa descer menos probabilidades tenho de cair, mas os estragos potenciais são maiores, pelo que a prudência ensinou-me, numa manhã fria e luminosa vai para sete anos e nas duas semanas seguintes em que faltei à regra de boa educação de comer com faca e garfo e parecia uma cegonha com a trouxa mas em vez da criança era mesmo um braço, a andar devagar e usar uns pneus que mais pareciam de uma mota. Agora os que uso são menos agressivos visualmente, mas mantém os tacos laterais, que muito jeito dão nos trilhos inclinados. Puxam mais no monte, é verdade, mas para quem pedala num portão de quinta tanto dá como deu e o objetivo é queimar calorias e fazer músculo, que num tipo conhecido uma vida inteira pelas pernas de arame quaisquer dois centímetros a mais no diâmetro dá um efeito visual notório. Estás a ficar com pernas de gaja foi o maior dos elogios, dito pelo calmeirão com o vozeirão. Para ti sou uma gaja lésbica, resposta a dissipar todas as dúvidas.


Dos últimos, e continuamos a falar de tralhos, conta-se um voo sobre a bicla após ter entrado demasiado devagar numa vala de água, tendo a roda da frente ficado presa no fundo. Curiosamente vinha muito satisfeito com a descida, a pensar que esta época a minha técnica está num apuro fora de série. O bom destas coisas é que a seguir se cerram os dentes e fiz uma subida que nunca tinha feito até ao topo e já lá passo há mais de uma dúzia de anos. Desconfio que a forma física ganha na estrada deve ter alguma coisa a ver com o assunto, mas pode ser só impressão. Por falar em estrada lembrei-me do único tralho até agora, se descontar aquele em que parei e não consegui tirar o pé do encaixe a tempo. Íamos num grupo pequeno e colocou-se a dúvida sobre a idade da caminheira que seguia sozinha na berma da estrada, no mesmo sentido, pelo que ao longe se vislumbrava a silhueta posterior, de aspeto firme e bem constituído. À passagem pela visada todo o grupo virou a cabeça, tendo o atleta à minha frente abrandado o ritmo, pecado mortal, já se sabe, resultando no encontro da minha roda da frente com a de trás dele e consequente medição da temperatura do asfalto. Pouco perspicaz como sou nem fui capaz de arranjar melhor resposta do que um estou bem, para responder à senhora, que afinal já não era uma jovem mas mantinha uma excelente forma física, certamente com o contributo das caminhadas, e se mostrou preocupada com as consequências da minha avaliação.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Do sexo, finalmente.

As pernas doridas, naquele ponto em que a quase dor sabe tão bem, esticam-se e sente-se que somos donos do mundo, prontos a ir onde nos apetecer. A respiração profunda, cheia. E o cansaço, aquele que desaparece mal o cérebro, limpo, leve, grande e vazio como o profundo nada universal, se ilumina apontando para a próxima direção do prazer.


Sexo tântrico, era o que era. Para começar.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Das vias férreas


Como obras de engenharia, as linhas de comboio são construções extraordinárias, do melhor que se fez e faz. As inclinações são reduzidas, porque as rodas são metálicas e derrapariam sobre os carris se fosse necessária muita força para vencer as subidas e travar nas descidas. As curvas são muito suaves, para que as composições não saltem fora dos carris devido à velocidade. Isto leva a que se abram canais nos montes, se construam pontes e se façam túneis. Com a proliferação de estradas e a prosperidade económica que trouxe automóveis para quase toda a gente o número de passageiros em muitas linhas diminuiu drasticamente e ditou a morte do serviço de transporte. Mas será de vistas curtas e uma enorme falta de bom senso deixar degradar estas obras. E pior ainda permitir que sejam inutilizadas pelo utilização como estradas, como já em alguns locais se fez.

No já longínquo ano de 1988 tomei o gosto por percorrer estas infra-estruturas adaptadas ao lazer individual de quem por lá caminha ou pedala, numa zona mineira de Inglaterra, pejada de curvas e pontes metálicas. Com muita pena, não viajei por linhas míticas como as do Tua ou do Corgo, por exemplo, mas tenho-o feito nas vias agora adaptadas, imaginando o apito das míticas máquina a vapor, o tum-tum das rodas nas emendas entre carris, o cheiro do carvão queimado que enchia o recreio da escola na saudosa primeira classe.
 


No passado domingo conheci mais uma, a linha do Tâmega, da Livração até Arco de Baúlhe, 53 km para cada lado de pura diversão. O troço de cerca de 10 km até Amarante não está arranjado, mas os carris foram levantados e passa-se bem de bicicleta. Há uma ponte metálica comprida que requer muito cuidado e grande desprendimento mental para atravessar, operação que não deixaria os meus filhos fazerem. O percurso entre Amarante e o destino está muito bom, mesmo melhor do que um exemplo recente por onde passeei, de novo em Inglaterra. Será até um luxo, atendendo ao resultado do que agora vemos como excessos. Depois deste passeio já houve quem falasse na linha do Corgo, da Régua a Chaves. São 97 km, de acordo com a minha pesquisa, e já fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu acho que há um enorme potencial turístico no aproveitamento das linhas antigas, embora tal desiderato implique investimentos não desprezáveis. Mas acredito que os novos "Caminhos de Santiago" serão nos milhares de quilómetros de linhas férreas desativados em todo o mundo.