sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

A rotunda

Sonhei que estava numa rotunda, uma assim grande tipo L'Étoile, e que pretendia percorrer metade dela e sair na mesma direção em que tinha entrado. Percorri os cento e oitenta graus e preparava-me para sair quando me deparei com um sinal de sentido proibido descomunal mesmo à entrada da rua. Fiquei surpreso, já que no meu percurso não constavam caminhos proibidos, mas segui até à próxima saída. Faço um pequeno desvio, pensei, atrasar-me-á o percurso mas chegarei ao destino na mesma. Presto-me para sair na próxima rua e qual não é a minha surpresa quando dou de caras com outro sinal vermelho com um retângulo branco horizontal no centro. Que raio, começo a ficar irritado, então e agora? Continuo a circular no trânsito infernal, os condutores esbracejam, gritam de janela aberta e tocam as buzinas furiosamente, tento sair na próxima e na seguinte e todas estão marcadas com o sinal, chegam mais carros que entram e não podem sair. Espera, pensei, é só um pesadelo, vais acordar e está tudo bem.

Acordei. Tomei o meu duche, vesti-me, tomei o pequeno almoço, calcei-me e abri a porta para sair. Começo a ouvir as buzinas e os gritos. Saio à rua e estou no meio da rotunda.


Acordei no local errado ou o código não serve para o fim a que se destina?

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Para naum cair asiono os travoins e a bicicleta pahra

Tivese eu mais nada que fazer e divertir me ia a provar que a lihngua portugueza naum presiza de mais do que vinte e tries letras para que todas as palavras posam ser escritas sem quaisquer duhvidas quanto ao seu significado. E ainda retiraria os sies sedilhados, o duplo hese e todos os asentos grahficos. E tambeim tentaria acabar com situasoins que me paresem duvidozas, como o uzo do sie como hese antes dos is e dos es. E o uzo do hese como zie, em prejuhijo deste. O agah teria um forte incremento de uzo, jah que pasaria a asentuar palavras esdruhxulas e agudas.

Alehm disto ainda reporia formas de distinsaum de outras palavras que jah foram abolidas em acordos anteriores, como puarto, local de abrigo de embarcasoins, e porto, forma verbal do verbo portar. E cuar, colorasaum, diferente de cor, falar sem recurso a auxihlio escrito. Embora alterando a forma de escrita da sidade invicta para Puarto, em conformidade com a palavra asima escrita, manter lhe ia a letra maihuscula, tal como aos restantes nomes prohprios.

Jah sei que haverah outras situasoins que naum tardaraum a apontar me, mas acredito que delas posa dar boa conta em favor desta causa.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Olhares

Cheguei ao cruzamento, olhei para a esquerda para avaliar se a velocidade a que vinha o automóvel permitia que eu não parasse no stop e o radar avisou-me da aproximação de um par de pernas longas e esguias, em perfeita combinação com o cabelo escuro. Quando fixei os meus olhos nos dela percebi que já tinha sido avaliado, apesar da rapidez com que me deslocava e da distância que nos separava. Vi que o seu olhar era de expetativa, li-lhe disponibilidade para saber mais, uma predisposição para love me or leave me. Estaria certo? Nunca o saberei. Mas sei que o olhar de uma mulher diz muito, diz quase tudo, desde que se saiba lê-lo. Lento como sou na digestão dos sinais corporais e no significado das palavras, demorei muitos anos a começar a entender esses sinais, mas agora tenho um gosto especial, um prazer pessoal em interpretar cada um dos olhares.

A maior parte das mulheres é extremamente discreta no olhar. Atentas como são, quando procuramos o seu olhar já elas nos avaliaram e desviaram os olhos para outro lado, à procura de alguém ou algo que lhes desperte maior interesse ou transferindo para outros sentidos a responsabilidade de perceção dos nossos passos seguintes. Por vezes faço um jogo comigo próprio, que resulta muito bem nos centros comerciais. Procuro ao longe as pessoa com quem me vou cruzar e antecipo a procura dos olhos da pessoa, para tentar captar o momento em que sou avaliado. E dá-me uma satisfação muito pessoal quando consigo acertar no tempo.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Prazeres


Gosto de conduzir, é uma das minhas manias. E tanto encontro prazer a conduzir depressa como o encontro em passeios calmos com a caravana atrás. Em tempos adorava chapinhar nas estradas alagadas com o todo-o-terreno verdadeiro que tive o privilégio de conduzir durante mais de uma dúzia de anos. Gosto de sentir que engreno as velocidades sem deixar grilar o motor nem provocar solavancos na embraiagem, gosto de sentir o carro equilibrado numa travagem antes de uma curva, gosto de procurar o menor consumo possível em percursos que repito mantendo o tempo total da viagem. Em suma, gosto de explorar todas as vertentes do automóvel.


A mulher é outra das minhas manias. Dela gosto também de descobrir todos os botões escondidos, experimentar as reações às palavras, aos toques, aos sopros, à minha língua, aos meus dentes. Gosto de acelerar o ritmo e perceber como também se acelera ou de a conduzir com ritmo lento, mesmo até parar e ficar a deixar que a antecipação do meu próximo movimento a deixe descontrolada. O prazer mais intenso não está no limite físico mas sim na forma como estimulamos os sentidos.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

No cinema

Não se pode fumar no interior de uma sala de cinema. Mas pode-se comer pipocas. Pode-se remexer o recipiente de cartão e deixar o vizinho do lado quase às portas da loucura com o restolhar das bolinhas explodidas de milho. Se é para comer aquela merda, que não passa de uma dúzia de grãos de cereal revestidas de açúcar, porque é que não se limitam a pegar nelas uma a uma, silenciosamente, e mastigá-las com a boca bem fechada, que já basta o cheiro enjoativo que largam quando ainda no pacote. É preciso dar-lhes a volta, sabe-se lá a escolher o quê, já que se acaba por comer tudo, fazendo uma chinfrineira que se ouve na sala mais longínqua? Ou será que o objetivo é apenas chamar a atenção, vejam, olhem para mim, eu estou aqui, sou uma gorda desconsolada que ia ver a nova comédia nacional mas como já não havia bilhetes acabei por vir parar a esta sala e quero lá saber que os outros se estejam a tentar concentrar para perceber como se ligam estas personagens que o realizador entendeu meter em cenas desligadas para prender a atenção do espetador.


Valha-nos a cena de ginástica de alta escola sobre o para-brisas do Ferrari amarelo, primorosamente descrita pelo Javier Bardem. Ficará, sem sombra de dúvida, registada nos anais da cinematografia pela reinvenção do erotismo na indústria automóvel. E a comparação com o peixe limpa-fundos não lembraria ao diabo.

Nota: na sequência de uma atenta observação de uma das minhas mais dedicadas leitoras corrigi as palavras compostas para-brisas.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A paixão à portuguesa

Bastava ter ganho os dois jogos a Israel. No final das contas, até chegava ter vencido um deles. Dito de outra forma, era suficiente uma única das três acelerações de ontem do Cristiano para ter resolvido tranquilamente a questão da qualificação. Não haveria mais dois jogos, teria sido mais limpo e menos emotivo.

Mas isso seria como aqueles casamentos do tipo olá querido, correu bem o teu dia, correu muito bem então e o teu, o meu também correu bem, liga a televisão para vermos as notícias. Nós, portugueses, não somos nada disso, se mais provas fossem necessárias juntar à inevitabilidade dos play-offs para a coesão nacional, cá temos a nova cruzada de fazer de conta que recuperamos a independência nacional no dia em que os ditadores do orçamento forem embora. Curiosamente, o calendário é um cabrão sádico, isso acontecerá precisamente por altura do campeonato para o qual finalmente nos qualificámos, pelo que São Cristiano terá nos pés a capacidade de dar ao governo a paz necessária para negociar o famoso programa cautelar que garantirá, novamente, a ausência de responsáveis nacionais pelas políticas de austeridade. O que, convenhamos, representa a única forma de ter uma direção política definida.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Talvez poético, em português arcaico ou evitando-o elegantemente.

Em arcaico

Deleito-me, com o meu olfaqueto apurado pela visão edílica do teu corpo descoberto, enquanto o teu odor fresco e doce me faz cravar-te as unhas curtas nas nádegas retesadas..

Taqueteio-te a pele, milímetro a milímetro, desde o pináculo erequeto do teu mamilo escurecido até ao rio doce e de sabor a mel que corre em turbilhão no cimo das tuas pernas.

Elegante

Aspiro, inebriado, o cheiro perfumado do teu cabelo, enquanto deixo que o meu nariz descreva círculos imperfeitos em redor do teu pescoço.


Toco-te a pele, milímetro a milímetro, pelo interior das tuas coxas, desde a curva do joelho até ao contorno quente da tua rosa em ebulição.



Digam-me, divas inalcançáveis que por aqui passais, qual das grafias preferis?

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Dos tralhos

Felizmente dou poucos, mas acontece. Sou meio nabo a descer em pisos escorregadios, sobretudo daqueles onde a pedra fica coberta com uma fina camada vegetal que parece gelo quando está molhada. É certo que quanto mais depressa descer menos probabilidades tenho de cair, mas os estragos potenciais são maiores, pelo que a prudência ensinou-me, numa manhã fria e luminosa vai para sete anos e nas duas semanas seguintes em que faltei à regra de boa educação de comer com faca e garfo e parecia uma cegonha com a trouxa mas em vez da criança era mesmo um braço, a andar devagar e usar uns pneus que mais pareciam de uma mota. Agora os que uso são menos agressivos visualmente, mas mantém os tacos laterais, que muito jeito dão nos trilhos inclinados. Puxam mais no monte, é verdade, mas para quem pedala num portão de quinta tanto dá como deu e o objetivo é queimar calorias e fazer músculo, que num tipo conhecido uma vida inteira pelas pernas de arame quaisquer dois centímetros a mais no diâmetro dá um efeito visual notório. Estás a ficar com pernas de gaja foi o maior dos elogios, dito pelo calmeirão com o vozeirão. Para ti sou uma gaja lésbica, resposta a dissipar todas as dúvidas.


Dos últimos, e continuamos a falar de tralhos, conta-se um voo sobre a bicla após ter entrado demasiado devagar numa vala de água, tendo a roda da frente ficado presa no fundo. Curiosamente vinha muito satisfeito com a descida, a pensar que esta época a minha técnica está num apuro fora de série. O bom destas coisas é que a seguir se cerram os dentes e fiz uma subida que nunca tinha feito até ao topo e já lá passo há mais de uma dúzia de anos. Desconfio que a forma física ganha na estrada deve ter alguma coisa a ver com o assunto, mas pode ser só impressão. Por falar em estrada lembrei-me do único tralho até agora, se descontar aquele em que parei e não consegui tirar o pé do encaixe a tempo. Íamos num grupo pequeno e colocou-se a dúvida sobre a idade da caminheira que seguia sozinha na berma da estrada, no mesmo sentido, pelo que ao longe se vislumbrava a silhueta posterior, de aspeto firme e bem constituído. À passagem pela visada todo o grupo virou a cabeça, tendo o atleta à minha frente abrandado o ritmo, pecado mortal, já se sabe, resultando no encontro da minha roda da frente com a de trás dele e consequente medição da temperatura do asfalto. Pouco perspicaz como sou nem fui capaz de arranjar melhor resposta do que um estou bem, para responder à senhora, que afinal já não era uma jovem mas mantinha uma excelente forma física, certamente com o contributo das caminhadas, e se mostrou preocupada com as consequências da minha avaliação.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Do sexo, finalmente.

As pernas doridas, naquele ponto em que a quase dor sabe tão bem, esticam-se e sente-se que somos donos do mundo, prontos a ir onde nos apetecer. A respiração profunda, cheia. E o cansaço, aquele que desaparece mal o cérebro, limpo, leve, grande e vazio como o profundo nada universal, se ilumina apontando para a próxima direção do prazer.


Sexo tântrico, era o que era. Para começar.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Das vias férreas


Como obras de engenharia, as linhas de comboio são construções extraordinárias, do melhor que se fez e faz. As inclinações são reduzidas, porque as rodas são metálicas e derrapariam sobre os carris se fosse necessária muita força para vencer as subidas e travar nas descidas. As curvas são muito suaves, para que as composições não saltem fora dos carris devido à velocidade. Isto leva a que se abram canais nos montes, se construam pontes e se façam túneis. Com a proliferação de estradas e a prosperidade económica que trouxe automóveis para quase toda a gente o número de passageiros em muitas linhas diminuiu drasticamente e ditou a morte do serviço de transporte. Mas será de vistas curtas e uma enorme falta de bom senso deixar degradar estas obras. E pior ainda permitir que sejam inutilizadas pelo utilização como estradas, como já em alguns locais se fez.

No já longínquo ano de 1988 tomei o gosto por percorrer estas infra-estruturas adaptadas ao lazer individual de quem por lá caminha ou pedala, numa zona mineira de Inglaterra, pejada de curvas e pontes metálicas. Com muita pena, não viajei por linhas míticas como as do Tua ou do Corgo, por exemplo, mas tenho-o feito nas vias agora adaptadas, imaginando o apito das míticas máquina a vapor, o tum-tum das rodas nas emendas entre carris, o cheiro do carvão queimado que enchia o recreio da escola na saudosa primeira classe.
 


No passado domingo conheci mais uma, a linha do Tâmega, da Livração até Arco de Baúlhe, 53 km para cada lado de pura diversão. O troço de cerca de 10 km até Amarante não está arranjado, mas os carris foram levantados e passa-se bem de bicicleta. Há uma ponte metálica comprida que requer muito cuidado e grande desprendimento mental para atravessar, operação que não deixaria os meus filhos fazerem. O percurso entre Amarante e o destino está muito bom, mesmo melhor do que um exemplo recente por onde passeei, de novo em Inglaterra. Será até um luxo, atendendo ao resultado do que agora vemos como excessos. Depois deste passeio já houve quem falasse na linha do Corgo, da Régua a Chaves. São 97 km, de acordo com a minha pesquisa, e já fiquei com a pulga atrás da orelha. Eu acho que há um enorme potencial turístico no aproveitamento das linhas antigas, embora tal desiderato implique investimentos não desprezáveis. Mas acredito que os novos "Caminhos de Santiago" serão nos milhares de quilómetros de linhas férreas desativados em todo o mundo.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Conversas no monte

"- Os halterofilistas Ucranianos masturbam-se e bebem o seu próprio sémen antes das provas. (As palavras não foram rigorosamente estas, uma dúzia de homens no monte excitados pelos saltos e exaustos pela subida ao radar usam uma linguagem um pouco diferente).

- Isso não faz sentido. Se já veio de dentro porque é que foi lá parar outra vez?"

Porque é que se trocam horas de sono e lazer para ouvir e dizer disparates destes? Porque estes raros momentos de insanidade mental são uma ótima forma de enfrentar os assuntos sérios da semana seguinte.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Cá está ela!

Tive acesso, em primeira mão, ao guião da reforma do estado. Sim, sou bem relacionado. Reza assim:

  1. O estado, na sua versão atual nascido a 25 de Abril de 1974, tem 39 anos de idade. Como tal faltam-lhe ainda 27 anos para a aposentação, a manter-se até lá a idade legal atualmente em discussão. Daqui se conclui que o estado não tem direito a reforma tão cedo.
  2. Os pais do estado atual foram perseguidos, presos e amordaçados pelo anterior, o então novo. Agora, como forma de compensação pelo que passaram, este estado manter-lhes-á as compensações que entenderam justas, ainda que quem se mantém a trabalhar não tenha condições de gerar os recursos necessários. Aplica-se esta condição com especial prioridade a quem teve nas mãos os destinos do país.
  3. A viúva do estado falecido, por coincidência, no mesmo dia do nascimento do atual, então designado por novo, Srª Dª Ditadura dos Santos, não obstante ter residência fixada na maior das ex-colónias africanas, beneficiará de um regime de exceção que lhe permitirá ficar isenta do corte na acumulação de pensões, recentemente anunciado.

Cumpre-se, assim, sem margem para dúvidas, mais uma das tarefas hercúleas que o atual governo tem em mãos.

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Da má educação

Fui enganado. Tenho que o admitir e confesso-o aqui publicamente. E deixei-me enganar por duas vezes. Acreditava, na altura, que as maiorias de partido único constituíam a única forma de levar à prática um trabalho com princípio, meio e fim. Depois deste infeliz exemplo e da experiência adquirida ao longo destes anos que já começam a tornar-se muitos, chego à conclusão de que quem nos governa é míope por definição da profissão, por isso trabalhos com horizonte para cumprir só poderão ser levados a cabo por via de pessoas e entidades exteriores à coisa pública. A não ser que a profissão volte a ser atrativa para quem tem essa capacidade, do que duvido para as próximas décadas.


Voltando ao engano, pergunto-me como pude ser tão ingénuo e deixar-me ir na conversa de quem parecia ter certezas sobre tudo e encontrava sempre os argumentos mais contundentes para justificar cada passo dado em frente, na direção do abismo que agora reveste a forma de poço sem fundo. As árvores não crescem até ao céu, dizia quem tinha a sapiência da experiência. Mas aquilo que me deixa, agora, profundamente angustiado é ouvir a mesma pessoa justificar os seus atos com a mesma certeza que então demonstrava e reafirmar que o caminho era o correto e que agora tudo seria diferente se o tivessem deixado terminar a tarefa. E que quem o impediu foi um alargado bando de malfeitores em conluio, inclusivamente quem ele escolheu para o acompanhar. Lembra o famoso ministro iraquiano, quando já tinha os americanos à porta. Com uma diferença, é que este senhor pode voltar num dia mau para a história.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Defeito de personalidade

É o que se pode chamar um defeito bom. Porque quem perde sou sempre eu. Não consigo estabelecer um balanço entre ganhos e perdas, porque só o faço porque sei que pode ser eficaz em situações onde o pedido direto não funcionaria. 

Quando eu quiser algo de ti, não esperes que o faça senão na minha forma particular de pedir, ou seja, usando outras palavras, o meu sorriso ingenuamente sedutor e o meu olhar penetrante.

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Lembrando o rei de Espanha

Tenho um grande respeito, cada vez maior, pelos idosos. Quando penso que as sociedades que ainda se regem por leis tribais confiam os seus destinos aos mais velhos, penso que todos poderíamos beneficiar se essa regra fosse adaptada ao governo dos países ditos democráticos, que cada vez mais tendem a desprezar a sabedoria de quem já passou por quase tudo na vida e sabe prever nas palavras e atitudes dos mais novos as suas verdadeiras intenções. Naturalmente, há gente nova com enorme capacidade e maior motivação para dirigir, mas cada vez é mais difícil conseguir escolher essas pessoas dentre um numeroso grupo que utiliza técnicas cada vez mais sofisticadas para se fazer sobressair, apenas pela vontade de ser conhecido a todo o custo.

Voltando aos idosos, aprecio neles a qualidade da discrição, muitos sabem exatamente o que se passa no mundo que os rodeia, seja na esfera familiar ou no universo mais alargado do público, mas mantém-se calados até que alguém lhes peça ajuda. Já me entristece quando vejo que há outros, que até tiveram papéis muito relevantes à escala das nações, onde granjearam respeito e admiração, que tentam usar os seus créditos em prol de objetivos sectários, quiçá até pessoais, fazendo afirmações de grande exagero e a roçar o ridículo. E eu fico hesitante entre a falta de lucidez que me custa admitir em quem tanto tempo se mostrou muito perspicaz e a tentativa de subverter um sistema apenas porque se deixou se fazer parte dele. Seja qual for a razão, fico incomodado.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Os olhos também comem

O desejo tem essa caraterística deliciosa de tornar a visão de alguém ou algo que tão bem conhecemos num prazer semelhante ao sentido da primeira vez que essa experiência foi vivenciada. Pode ser uma pessoa, um animal, uma paisagem, um alimento, um objeto. Pode ser uma parte do corpo humano que esteja geralmente oculta. Cuja visão desperte na mente de quem olha uma reação de apreço, demonstrada por um brilho no olhar, um suspiro, a aceleração da respiração como resposta ao aumento do ritmo cardíaco.


Mas realmente belo é sentir que quem nos olha como se da primeira vez, quem procura o físico escondido e se vai, lentamente, passo a passo, aproximando do objetivo ocular, quem liberta finalmente aquilo que se engrandece sob a expetativa de vislumbrar no rosto da exploradora algum pequeno traço revelador da sua satisfação, quem nos vê, demonstra que o que vê corresponde ao que esperava e lhe incute um impulso irreprimível de passar à prática o que na sua mente se desenhava durante o percurso até então realizado.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Aproveitando a moda

Apareceu com o cabelo impecavelmente alinhado, apanhado atrás, os longos fios num tronco regular de diâmetro constante, qual torrente jorrando de uma bica refrescante. Olhou-a apreciativamente num esboço de sorriso enigmático que a eletrizava de curiosidade e a deixava com o pensamento num turbilhão, enquanto revia mentalmente o seu aspeto, tentando decifrar o significado do seu olhar.


Perderam-se nos braços um do outro, em beijos e carícias cuja intensidade o tempo amplificara, suspiros e gemidos que confirmavam a primazia da contenção como meio de potenciar a satisfação. Pediu-lhe que não se deitasse enquanto lhe segurava firmemente, com ambas as mãos, o cordão que lhe pendia da cabeça. Os puxões suaves que a embalavam ao ritmo das investidas que fazia nas suas costas faziam-na estremecer e da sua garganta saíam pequenos gritos abafados que o incitavam a aumentar o ritmo. Enquanto fechava os olhos reviu mentalmente a expressão facial que a intrigara.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Pés ao caminho



Parei o carro, saí e dirigi-me à porta do escritório. Abri-a e entrei, deslocando-me pelo corredor até à cadeira que habitualmente ocupo. Sentei-me. Ou seja, resumindo, andei uns passos.

Saí de casa e fui à padaria, que fica na mesma rua, a três ou quatro minutos a pé. Comprei seis pães e regressei pelo mesmo caminho. Entrei em casa e tomei o pequeno almoço. Fui ao pão.

Calcei as sapatilhas e liguei os auriculares no telefone esperto. Escolhi o "Dark side of the moon" e fechei a porta atrás de mim. Percorri a rua onde moro até à rotunda, virei em direção ao mar e acelerei o passo ao ritmo da música. Entrei no passadiço junto às dunas, percorri-o até ao final da zona com distância marcada no chão e o álbum acabou. Carreguei em "L. A. woman" e voltei para trás. O vento fresco no trombil e a batida agora mais rápida fizeram-me alargar ainda mais o passo. Fiz uma derivação no caminho após a saída do passadiço e regressei a casa para tomar um duche. Duas horas depois de ter começado, estava de alma lavada. Tinha ido caminhar.

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Notícias da horta



É um interesse antigo, tem piada colocar uma semente na terra preparada com cuidado, regá-la, ter a surpresa de ver emergir uma planta muito verde e frágil, continuar a regá-la, retirar as ervas daninhas que vão nascendo nas imediações. Cientista falhado, procedo a experiências com pequenas amostras colocadas em locais mais abrigados, com diferentes tipos de terra. A primeira conclusão é que a terra usada como base é fraca, a segunda é que a densidade de sementes usada é grande, face ao diminuto espaço disponível. A terceira é que são demasiadas experiências em simultâneo e, ano após ano, os progressos são muito reduzidos, o melhor é mesmo escolher apenas uma ou duas espécies e começar a estudar com maior profundidade.

O feijão verde até deu resultado, já recolhi semente para a próxima época. As cenouras germinaram por todo o lado mas cresceram muito pouco, não me parece que cheguem sequer a dimensão que permita a prova.


Já os tomates, senhores, depois de ter passado um ano a vê-los crescer e amadurecer aos milhares de toneladas em estufas, dando a sensação de que aquilo é só deitar a semente à terra ir amarrando a planta à medida que cresce, foram a minha grande desilusão. Até germinaram em quantidade, até mantiveram uma cor verde e viçosa, mas nem uma única flor, para amostra, apareceu. Não me cresceram os tomates!

terça-feira, 24 de setembro de 2013

O tempo



Passou-se um quarto de século, algo que parecia impensável não há muito tempo atrás.

Acaba por ser a primeira etapa daquilo que permite aos verdadeiros escritores, que não manifestamente o caso, a bagagem suficiente para saberem do que falam. Olhando para trás, desapareceu gente que deveria ainda por cá andar se as leis da vida se regessem por verdades estatísticas, desfizeram-se casamentos que durante muito tempo passaram por inabaláveis e viveram-se acontecimentos que se passados ao cinema pareceriam desfasados da realidade mundana.

Foi um regresso a onde fui feliz, aparentemente contra a regra inabalável. Mas foi um regresso fugaz, numa posição diferente, num cenário completamente diverso. Também ali nada está como dantes, o tempo entretanto passado resultaria igualmente numa película cinematográfica de final feliz, com peripécias suficientes para manter o ritmo intenso das cenas.


Foi um dia para não esquecer, na companhia de verdadeiros amigos intemporais, daqueles que a distância apenas consolida o sentimento. Foi ali que os meus horizontes se abriram definitivamente e onde tive a certeza de que estava pronto para todos os caminhos que se abrissem diante dos meus olhos.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Demissão

Demitiste-te. Demitiste-te de uma função que não admite demissão. Mas pediste, pediste não, que tu não pedes nada, exiges sem o dizer, reclamas com silêncios e frases geladas, impuseste que me mantivesse no meu posto, numa missão que só tem sentido se a tua função continuar ativa, pela própria definição semântica das palavras. Que tens direitos. Que tens trabalho feito. Ensinaste-me que os direitos existem se associados a deveres. Ou então não foste tu, apenas quem contigo partilhou a função de que te demitiste. Que nunca acaba, é função vitalícia, assim recordo de me teres ensinado, parece que quem disso se esqueceu foste tu. Não me passa pela cabeça exigir um dia com base naquilo que é meu dever, como quem tem um crédito e decide resgatá-lo. Para mim isso coloca um ponto final numa relação comercial. E eu tenho poucas relações pessoais para me dar ao luxo de as mercantilizar. Pensava que também assim pensavas, que também de ti brotava esta quase generosidade. Agora concluo que não, que foi mais uma coisa que desapareceu com o mentor deste espírito.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Ainda o verão

Vens de camisa branca, para contrastar com esse moreno profundo do verão excecionalmente ensolarado, que aproveitaste até ao tutano. Metes no meio esses olhos verdes, que de tão brilhantes à luz do sol me incutem impulsos suicidas de mergulhos de cabeça para lagos desconhecidos.

Sabes que não te posso tocar mas gostas de me desconcertar para me teres à mão das tuas necessidades. De ti levo estremecimentos fugazes que alimentam o meu ego narciso e ações que protelas até que eu te saiba empurrar com palavras que aprendi certeiras aos ouvidos femininos.


Resta-me o prazer supremo do teu sorriso quando te dou uma tarefa nova capaz de te estimular o cérebro. Mas é tão raro.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Até oiço a música no ar

Falta um ano e meio para reviver, durante aí uns bons dois meses, o sentimento de esperança e prosperidade que se seguiu às grandes arruadas dos meados da década de setenta. Acabarão os cortes nas pensões, o desemprego e o IVA na restauração. Depois virá o dia seguinte e os maus de agora acusarão os novos maus, enquanto o forem, de terem faltado à verdade. Toda a gente sabe disto. Porque que é que se finge que não?

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Das estradas


Tivesse eu a possibilidade de fazer apenas o que me dá na real gana, como aconteceu durante a adolescência e uma parte do início da vida adulta, e agarrava na bicicleta e percorria o país inteiro durante umas boas três semanas. Já tive uma fase de muita estrada de carro, já tive outra fase de querer ver outras paragens garantindo o meu próprio sustento durante a estadia fora de portas. Neste momento gostava de percorrer as vilas deste país e as estradas que as ligam com lentidão e sem outra produção de dióxido de carbono que não a da minha própria respiração.

Sendo independente e autónomo pergunto-me por que razão não conseguiria viver emocionalmente sozinho. Quando entro numa estrada não me contento sem lhe chegar ao fim. Quando uma mulher bonita me deixa entrar no mais fundo da sua cabecinha, tenho que saber o que se esconde para lá de cada curva, numa viagem sem fim à vista. Felizmente conheço poucas mulheres que escondam frondosas paisagens floridas e coloridas para lá da fronteira que o meu passaporte permitiu transpor.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O verdadeiro culpado

Por cá só se ouve o click click dos ratos de alguns computadores. Nem os telefones tocam. Acho que o país está parado à espera do sol.

Esta tese merece reflexão profunda e pode facilmente tornar-se na alavanca de inovação potenciadora da onda crescente, retumbante e imparável de confiança, empenho e produtividade que nos devolverá à liderança incontestável dos destinos do planeta.

Se o estado do tempo for unanimemente eleito como o verdadeiro culpado da crise então está terá fim à vista e após a chegada do sol e do calor os políticos unirão as mãos apenas pelo tempo suficiente para soltar um grito de felicidade, agarrando de seguida nas enxadas e correndo para os campos para plantar as batatas, atrasadas pela terra encharcada. Os jornalistas deixarão de fazer perguntas parvas e correrão a conduzir os rebanhos para os pastos e os comentadores políticos, classe mais despontante do que cogumelos em dias quentes e húmidos, limparão as matas e recolherão biomassa suficiente para a produção de energia renovável para todo o país.

O tempo escuro e frio é terrível, voltei a adormecer depois do despertador tocar.

terça-feira, 9 de abril de 2013

Eu também mostro a minha

Não podia deixar deixar a minha amiga Pseudo mostrar o que tem de bonito sem lhe retribuir a gentileza. Eu apenas mostro o que tenho, que de bonito não tem nada. Ora então cá vai:
 photo SANY0084.jpg


E sim, eu sou persistente.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Da coerência

Será coerente andar no pátio de guarda-chuva aberto a tirar à mangueirada a lama acumulada nos sapatos, nas meias, nas calças de alças, nas luvas e no impermeável depois de ter andado toda a manhã a apanhar chuva pelo capacete abaixo e lama por tudo acima?

E para a especialista, como se mantém a porcaria dos óculos sem embaciar, para não se levar nos olhos com a lama das rodas dos gajos da frente?

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Fim de ciclo


Sempre gostei de carros, não foi por acaso que fui parar a uma profissão que a eles poderia estar intimamente ligada, muito embora por artes do destino não trabalhe nesse ramo.

O primeiro automóvel que comprei obedeceu a três critérios de racionalidade, teria que ser fiável, estar em bom estado e não ser caro. Feita a pesquisa optei por juntar um critério de irracionalidade, que foi a aptidão para andar por terrenos não pavimentados. Escolhi um Renault 4, das últimas séries, já na versão GTL, que conduzi durante três anos e me deixou imensas boas recordações.

Mas o bichinho de um verdadeiro todo-o-terreno não deixou de morder e a oportunidade apareceu dois anos após a venda da chamada 4L. Foi então que comprei o que queria, um veículo de quatro rodas motrizes, com caixa de transferência, vulgarmente denominado de redutoras. O objetivo inicial, de andar no monte, pouco passou de umas centenas de quilómetros de estrada de terra e uns quantos estradões mais estragados, já que rapidamente concluí que era muito mais excitante e incomparavelmente mais barato andar no monte de bicicleta. Além de mais saudável. Mas o dito jipe não ficou na garagem, passou a andar de casa às costas pelo país inteiro e mesmo pelos países vizinhos mais próximos, permitindo cumprir o sonho antigo de conhecer novas paragens. Além disso, sempre permitia estacionar nas praias em locais inacessíveis aos veículos tradicionais, fazendo com que a alavanca pequena mantivesse algum uso, ainda que reduzido. Os mais novos sempre foram adeptos incondicionais do veículo, protestando sempre que se insinuava ao de leve que fosse a possibilidade de o deixar ir embora. Foi sendo religiosamente bem tratado, sabendo que não era um desporto barato e que a qualquer momento um acontecimento com responsabilidade alheia poderia terminar com a brincadeira. E foi precisamente o que aconteceu, felizmente sem qualquer consequência física para os habituais quatro ocupantes. Um veículo com dezoito anos de existência não merece ser cuidado das mazelas que sofreu, de acordo com a lei do país.

Foram catorze anos de peripécias, até a da viagem falhada à Suíça, interrompida à chegada a França e ainda não retomada. Os miúdos cresceram naquele carro. Mas é apenas um objeto inanimado e aquilo que senti no preciso momento em que, ao sair para avaliar os estragos, tive a certeza de que não o voltaria a conduzir, foi rapidamente ultrapassado pela pequenez dos sentimentos face à grandeza das relações humanas, essas sim verdadeiramente importantes.

Entretanto, a tarefa de levar a casa às costas para fora dos limites do país já tinha sido entregue a outro veículo, mais potente e, sobretudo, mais económico, pelo que, face aos valores entretanto exorbitantes para um carro semelhante, se fecha aqui um ciclo longo da minha vida. Ficarão as boas recordações e a vontade de que o substituto também deixe as suas.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Ó Pedro, vê lá se aprendes com o Tó Zé

O Tó Zé disse hoje que não defende a extinção da ADSE mas é a favor da sua reformulação. Isto, em Segurês, língua própria do Tó Zé mas nada diferente do antigo Socratês, quer dizer que a ADSE deve continuar a ser um subsistema mas de futuro as suas regalias serão as mesmas do SNS.

Eu acho que falta algo de Coelhês à linguagem do Pedro.