terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A loira do 77

Foi num local nada próprio, a entrada dos lavabos de um antro de alimentação nada saudável, aquele do boneco com fatiota de palhaço e nome de origem escocesa. Virou﷓se não sabe porquê e deu com um daqueles olhares com duração de duas milésimas de segundo mas que não deixam qualquer dúvida de que a pessoa sabe quem olha. Passaram-se mais de vinte anos desde o último olhar trocado, furtivamente, entre ambos. Lembra-se da expectativa de a ver na fila da paragem, duas depois do local onde entrava, do olhar dela a procurá-lo, da saída para a escola, algumas paragens antes da dele. Lembra-se do dia em que ela aproveitou o lugar deixado vago ao lado dele para se sentar quase violentamente, num grito abafado de não sejas parvo e diz qualquer coisa. Sabia que ela estava à espera mas não foi capaz de lhe dizer que os seus olhos lhe lembravam barcos à vela ao longe, movendo-se vagarosamente em dia de calor intenso. O estupor do desbloqueador de conversa que quebraria o gelo que só na sua cabeça estava presente. Terá com certeza um nome médico-psiquátrico qualquer, mas para ele será sempre apenas estupidez. Ainda hoje, a doutora da farmácia.

Foi assim que se lhe referiu no diário da viagem a terras longínquas, livro de reflexões ainda hoje guardado num lugar poeirento da casa onde cresceu, à espera do melhor dia para que sirva de memória revivalista. Propositadamente não quis saber o seu nome por terceiros, só valia se lho perguntasse de viva voz. Nunca o soube, embora soubesse o nome da própria irmã.

Ela com dois a reboque, ele com dois a reboque, ainda que apenas três por circunstâncias acidentais, não deixou de achar curiosa a coincidência. Continua loira. Continua linda.

5 comentários:

  1. Isso foi um regresso ao passado, à adolescência perdida e a uma paixão de escola...

    Bonito:)

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  2. Há "chapadas" que a vida nos dá... mas que até nos sabem bem!
    Esse encontro... e o recordar uma paixão antiga tem algo de belo... intangível... que trouxe de certeza sentimentos agradáveis.


    Beijinhos cândidos :)

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  3. AC, creio que compreendes bem o sorriso que nos fica na cara quando recordamos estes momentos. E a leitura no olhar da outra pessoa faz muito bem ao ego :)

    Orquídea, it made my day, como dizem os amigos anglófonos :)

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  4. Pronto, aqui estou eu para estragar o momento: tás a ficar velho e cada vez mais queque :P

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  5. Pseudo, para não abandalhar muito a coisa por aqui, vamos ali a Santiago de Compostela a pé e depois diz-me quem está velho :P Quanto a queque, olha que não estou a ver, nem sou eu quem suspira por um Mini :P

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Dá mais uma chapada, mas com jeitinho