sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

36 horas (I)

Chamavam-lhes as loucas 36 horas. Quando conseguiam conciliar agendas o programa começava já tarde, no final dos dias de sexta-feira. Vasco saía do escritório já depois das 10, passava por casa para tomar um duche rápido, parava ao balcão do Capa Negra para engolir três rissóis e um fino, que complementava com dois cafés para o manter desperto na auto-estrada. Girava a chave do Giulietta, fazendo roncar suavemente o potente motor do carro do trevo verde e rumava a sul, sabendo que o pouco trânsito da hora adiantada e os 235 cavalos da máquina vermelha, único carro ao qual consentiria a cor, tirando os inatingíveis Ferrari, o levariam até às portas da capital em pouco menos de duas horas.

Lígia, por seu turno, preparava minuciosamente o cenário para mais um dos guiões em que se tornavam peritos. Não sabia onde acabaria a noite, não quando ele vinha de norte, chegaria a sua vez de o planear, sabia que alguma surpresa ele traria e tinha que o surpreender à altura. Ambos fanáticos por pormenores, não descurava os mínimos detalhes que a faziam ansiar por cada nova aventura.

Vasco chegou ao Carregado e deu um toque para o telemóvel de Lígia, sinal de que estava perto. Parou no local combinado e esperou apenas o tempo suficiente para fazer desaparecer a papelada que juntava no banco do lado direito. Viu-a sair do seu carro, abriu a porta e guardou na bagageira o saco da rapariga, enquanto lhe mergulhava o nariz nos cabelos longos e aspirava o aroma suave do champô, misturado com o perfume escolhido para a noite. Sabia o efeito que a sua inspiração profunda provocava.

Atravessaram a ponte para sul comentando a troca de mensagens dos últimos dias e Vasco deixou escorregar a sua mão até ao joelho de Lígia, aproveitando a subida intencional e provocante do vestido de malha na posição de sentada. Tinha uns clássicos collants pretos, adivinhando a fraca impressão que as modas recentes imprimiam no condutor. Vasco subia a mão em círculos, ao ritmo da música dos Doors que ainda restava do percurso a solo. Quando chegou ao ponto mais elevado do caminho dos dedos, Lígia aconchegou-se no banco de couro com o símbolo no topo, levou a mão ao leitor múltiplo de CDs, sabendo que do quatro ao seis haveria alguns dos seus preferidos, seleccionou o quatro e descontraiu-se completamente quando Sade fez ecoar “Jezebel” pelo automóvel. Vasco seguia agora dentro dos limites de velocidade, minimizando os efeitos da distracção, e iniciou movimentos circulares com o dedo médio, lentamente, esperando pela altura em que Lígia tomaria o controlo dos acontecimentos e ele teria apenas que a ir contrariando de vez em quando, prolongando o jogo. Ela abria agora ligeiramente as pernas, levantando os braços e passando as mãos por cima dos mamilos que já se faziam notar sob a malha. Rapidamente passou a controlar os seus próprios movimentos, mostrando-lhe qual a zona onde pretendia ser estimulada. Sabendo que o caminho não deveria terminar tão cedo, fez prolongar o seu prazer como se estivesse só, mas com a vantagem de ter ao seu lado quem gostava de a sentir molhada e excitada e apreciava toda a beleza do momento. Quando já não aguentava mais enfiou a sua mão nas calças de Vasco e deixou que o toque na erecção que sabia estar ali potenciasse o seu orgasmo.

Aproveitaram o restante percurso até ao hotel para ouvir a música, num silêncio feito de mensagens telepáticas que prometiam muito mais acção nas horas seguintes.

3 comentários:

  1. Shiii, essas não foram as 36h le mans, mas olha que foi um percurso igualmente bem intenso e cheio de curvas.
    Uma bela viagem de carro, aconchegante, intima, sensual.

    Adorei viajar nas tuas palavras...:)

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  2. AC, aqui ainda a procissão vai no adro, assim eu tenha inspiração para as muitas horas em falta. Há muitas mais curvas, sobretudo as que se fazem deitado, sem bicicleta :)

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  3. E agora, ao som do "Riders on the Storm", vou ler a parte II.

    :)

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Dá mais uma chapada, mas com jeitinho