sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Arma de devoração maciça




Prendeu-o entre os dentes enquanto se aproximava do pescoço de pele luzidia, já desnudado dos longos cabelos negros, que o desafiava a demoradas e insinuantes carícias. Aproximou-se a menos de um centímetro de distância e expirou suavemente um sopro que refrescava em contacto com a superfície gelada do líquido habitual, por agora em estado sólido. Sentiu um gemido leve e iniciou o movimento lento, semi-circular, ao longo do rebordo de intersecção com o troco, de um ombro até ao outro.

Deixou que uma ou duas gotas pingassem na depressão traqueal e iniciou uma linha, agora em contacto de pena de andorinha, até ao vale dos montes gémeos, contornando a base do lado direito, já em oscilação crescente. Levantou o lápis de água e esperou que uma gota se desprendesse em direcção ao pináculo escuro que já se erguia na antevisão do arrepio refrescante. Como sempre se pautou por uma conduta de equilíbrios, dirigiu a massa arrefecida para a vertical do pináculo adjacente e deixou tombar uma nova gota.

Regressou aos trajectos rectos e iniciou novo vagaroso percurso entre a base das elevações e a pequena cratera meteorítica que guarda a entrada da descida vertiginosa para o centro do luxuriante planeta das emoções. Decidiu deixar repousar o sólido no cálice improvisado, despertando de imediato um gemido mais intenso, e matou a sede com lábios hipotérmicos nos mamilos cada vez mais eriçados. Não te mexas senão perde-se o mágico, sussurrou-lhe. Regressou ao centro e resgatou o cristal cada vez mais pequeno, continuou a recta num percurso descendente cada vez mais inclinado e curvou agora à esquerda para nova linha de intersecção, por onde deixou escorrer mais alguma da massa em transição de estado.

Procurou o centro, aproximou-se da pele mais rosada e voltou a arrefecer o sopro de encontro à superfície em frente, sentindo o fervor que aumentava de intensidade. Continuou a brisa fresca até que a impaciência venceu e sentiu a superfície quente e húmida de encontro aos seus lábios. Deixou que a massa gelada rolasse entre a sua língua e os outros lábios, forçou o cristal para que subisse e descesse repetidamente no cone que refrescava, agradava-lhe particularmente a visão do desaparecimento e subsequente regresso à sua boca, hiato que aproveitava para passar a língua gelada no extremo superior da abertura. Os movimentos tornavam-se frenéticos, o frio percorria toda a extensão da zona em ebulição, num gesto repentino agarrou no que restava entre os dedos e fê-lo subir pelo pequeno círculo até então alheado da brincadeira, provocando o desaparecimento da arma de devoração maciça no preciso momento que os gemidos passaram a gritos abafados.

8 comentários:

  1. Depois de ler este relato cirúrgico, só posso adiantar que: ou és engenheiro ou vulcanologista :P

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  2. Pseudo,

    se o relato é cirúrgico então esqueceste uma terceira opção :)

    Há momentos em que gosto de tocar vários instrumentos, já que não há música como a de uma orquestra :P

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  3. Ai isso é que há: a de um dueto ou a de um trio:P (TOMA!)

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  4. Tenho que reconhecer a tua razão :)

    O trio deixa-me água na boca ;)

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  5. Ui, tanto fresquinho e tanto calor..Esta orquestra dos sentidos foi orientada por um maestro na perfeiçao...adorei:)

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  6. AC, obrigado pela estreia nos comentários :)

    Haja muitas audições :)

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  7. Se a tua intenção era deixares os teus leitores arrepiados (e estou a escrever no masculino por mera generalização) então conseguiste! Estou toooooda arrepiada!

    Olha que não é fácil ler uma escrita tão densa e rica em pormenores.

    Beijinhos arrepiados :)

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  8. Orquídea, acaso foste buscar a arma de destruição maciça em jeito de percurso GPS? ;)

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Dá mais uma chapada, mas com jeitinho