quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dia de Primavera

No sussurro do ribeiro
Sinto a tua pele macia
Misturada com o cheiro
De alecrim e malvasia

Teu sorriso inebriante
Lábios doces de prazer
Beijo sentido, gigante
Que deixa o sangue a ferver

Oiço a música envolvente
Perco-me, mergulho em ti
Não há horas, só presente

Fogo, desejo premente
Onde estou? Não me perdi
Há noite e tu, simplesmente

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Gostei, apesar da derrota

Tenho que reconhecer que Jorge Jesus, que é seguramente muito mais conhecedor de futebol do que eu, foi capaz de usar os seus recursos para se impor às debilidades do meu Sporting. O que não retira nenhum do brilhantismo que Domingos levou para o clube, o seu trabalho está ainda no início e estou certo de que há-de encontrar uma solução para os centrais e para o defeito de Rui Patrício, a saída aos cruzamentos. O Sporting não marcou qualquer golo, mas teve oportunidades para o fazer. Ficou a sensação de que o clube está consistente e pronto para embates difíceis.

Quanto a Jesus, só reforçou a sensação de que devia ter sido contratado em vez de Paulo Bento, já lá vai uma boa meia dúzia de anos. É que pior do que não ter, é tê-lo num dos adversários directos.

Nota final para o reprovável incidente já depois do apito final, com o incêndio das cadeiras. Não tem qualquer justificação e espero sinceramente que haja consequências para quem provocou o acto.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Actualização de linguagem

Conversa de uma criança crescida ontem à tarde: "Na minha escola há um botão ao lado do interruptor da luz, clica-se lá e vem a funcionária". Eu sou do tempo em que se carregava no botão. Agora clica-se.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Do deslumbramento

Olho o teu corpo de contornos suaves e voluptuosos através do reflexo devolvido pelo espelho redondo do tecto, a tua pele morena, já recuperada das carícias longas e quentes do sol do verão em vias de esquecimento, esse sol que invejo por lhe teres permitido tão prolongado deleite, os teus joelhos levemente flectidos em pose de modelo renascentista ante os olhos dos pintores flamengos de vida boémia, os braços ainda conformados no arco de êxtase com que rodearam os meus ombros, teus olhos escuros e expressivos irradiando uma luz intensa tal qual a luz negra que realça os brancos na escuridão profunda, o teu sorriso travesso e provocante a lembrar que o descanso é apenas o estritamente necessário até ao próximo assalto. Derreto-me, estarreço-me, esforço-me por manter viva a imagem, mesmo sabendo que a recordação que guardarei a partir desse momento nunca será mais do que um efémero resquício do deslumbramento desses minutos.

Lendo-me o pensamento, levantas-te e fazes questão de passear pelo quarto em passo lento mas firme, de negra cabeleira sobre os ombros, olhar longe do meu, ombros levantados e em esquadria perfeita, deixando-me rendido, prostrado, boquiaberto com tal pose de beleza feminina.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Da sabedoria IV

Saberás o que é um automóvel quando andares num Mercedes classe S. A partir daí todos os outros serão apenas carros.

Nunca andei num Rolls-Royce, que admito ser exceção a esta regra. Mas gostava muito.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Help x 2

Preciso de ajuda para matar dois escaravelhos, ou baratas, ou bichos de aspecto primitivo com muitas patas. O primeiro é a formatação dos textos, apesar de ser um tipo cinzentão que compra carros porque a mecânica é fiável e evoluída enquanto o desenho da máquina não importa para nada, gosto de ver as margens dos textos alinhadas à esquerda e à direita, portanto sem tendência para nenhum dos lados. Acontece que esta nova formatação do blogas só me deixa alinhar à esquerda, o que até vai contra a tendência portuguesa e europeia mais recente. Alguém consegue justificar os seus textos?

Outra cena é a necessidade de inserir as letrinhas chatas, ainda por cima tortas como se tivessem estado numa grande noitada e continuassem em coma alcoólico, que me foi relatada pela minha leitora mais impaciente, ameaçando inclusivamente de virar costas e nem olhar para trás. Por favor confirmem que já não há essa necessidade ou, em caso negativo, como desactivar o raio da opção.

Bem hajam!

P.S. (não me refiro ao partido da esquerda, hannnnn, direita, hannnn, centro, haannn, nem eles sabem) Depois de escrever isto consegui formatar as margens. Mas não vou apagar o que escrevi, que até me pareceu ter saído jeitosinho.

Serviço público de televisão

Um homem foi condenado pelo assassinato do dono de um posto de abastecimento de combustível. Cumpriu parte da pena e evadiu-se da cadeia. Passado algum tempo participou no sequestro de um avião, incidente com várias peripécias que custaram certamente rios de dinheiro em prejuízos, envolvendo episódios nos Estados Unidos, Argélia e França. Conseguiu escapar e pediu asilo político na Guiné-Bissau. Alguns anos volvidos acabou por vir para Portugal, casou com uma cidadã nacional e adquiriu a nacionalidade portuguesa. Pergunto-me como terá sido feita a tramitação legal, uma vez que me parece que se tivesse apresentado a sua identificação verdadeira teria despoletado a atenção das autoridades.

Foi identificado há dois meses como foragido das autoridades americanas. O tribunal da relação de Portugal decidiu não o extraditar. Ouvi eminentes advogados da nossa praça declararem que concordam com a decisão uma vez que os prazos já prescreveram segundo a lei portuguesa e a pessoa em causa é agora outro homem.

Reconheço às pessoas o dever de emendarem os seus erros. Não sei se concordo com a argumentação das pessoas que ouvi na televisão, certamente o homem que foi assassinado tinha família e não creio que esses concordem com o que foi dito.

Mas aquilo que me choca é que alguns órgãos de comunicação social avancem para entrevistas de branqueamento da situação. Além de vários crimes, há muitos artifícios pouco ou nada claros na vida daquele homem. E há muitas pessoas que mataram outras, umas porque foram abusadas e espancadas durante anos, outras porque não aceitaram os abusos sobre terceiros, pessoas que cumpriram as suas penas, imagino que tenham tido grandes dificuldades na sua reintegração social, mas a quem a comunicação social nunca deu qualquer destaque além da notícia do crime.

Se isto é serviço público de televisão, então, por favor, dêem-me apenas estações privadas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Viajar

 Foto retirada da Wikipedia. Loch Ness, fonte inspiradora, viagem de sonho ainda em projecto.

Viajar é um dos sonhos mais referidos pelas pessoas, basta ver as respostas dadas à pergunta fatal dos concursos televisivos sobre o destino a dar ao prémio. Mas há diferentes formas de viajar. Há quem só queira melhorar até à exaustão aquilo que faz em casa, basicamente comer, ver televisão e ir praia, de preferência sem contacto com os pobres dos indígenas que tiveram a sorte de nascer em terras de sol e mar quente e despoluído, mas se querem longe dos árduos trabalhadores de países mais frios que lhes levam o dinheiro para comerem.

Há quem goste desses luxos e ainda aproveitar para tirar umas fotos de alguns monumentos, desde que o autocarro com ar condicionado pare mesmo ao lado e não desligue o motor, para que a temperatura se mantenha fresca.

Há outras variantes, para todos os gostos, algumas até muito radicais, polegar levantado e mochila com duas t-shirts e um par de sapatilhas de reserva às botas.

Viajar até varia ao longo do tempo, desde os verões em Inglaterra na apanha dos morangos durante a semana e visitas à boleia a Cambridge ou Cardiff, fins de semana em Londres e semana no Lake District já com dinheiro no bolso resultante do trabalho de dois meses, passando pelas descobertas galegas em 4L, noites na tenda de campismo e dias de verde e mar, até à versão já de carro cheio com a casa às costas, Veneza, Florença e Roma de mapa numa mão e mão pequena na outra, ai aqueles gelados, pinturas e calhaus velhos periclitantes e as famílias dos filmes de Fellini na praia do mar Adrático.

Curioso, até se chega ao ponto, depois do alargamento geográfico, a suspirar por peregrinações em bicicleta ou simplesmente a pé. Mas não é para todos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Arma de devoração maciça




Prendeu-o entre os dentes enquanto se aproximava do pescoço de pele luzidia, já desnudado dos longos cabelos negros, que o desafiava a demoradas e insinuantes carícias. Aproximou-se a menos de um centímetro de distância e expirou suavemente um sopro que refrescava em contacto com a superfície gelada do líquido habitual, por agora em estado sólido. Sentiu um gemido leve e iniciou o movimento lento, semi-circular, ao longo do rebordo de intersecção com o troco, de um ombro até ao outro.

Deixou que uma ou duas gotas pingassem na depressão traqueal e iniciou uma linha, agora em contacto de pena de andorinha, até ao vale dos montes gémeos, contornando a base do lado direito, já em oscilação crescente. Levantou o lápis de água e esperou que uma gota se desprendesse em direcção ao pináculo escuro que já se erguia na antevisão do arrepio refrescante. Como sempre se pautou por uma conduta de equilíbrios, dirigiu a massa arrefecida para a vertical do pináculo adjacente e deixou tombar uma nova gota.

Regressou aos trajectos rectos e iniciou novo vagaroso percurso entre a base das elevações e a pequena cratera meteorítica que guarda a entrada da descida vertiginosa para o centro do luxuriante planeta das emoções. Decidiu deixar repousar o sólido no cálice improvisado, despertando de imediato um gemido mais intenso, e matou a sede com lábios hipotérmicos nos mamilos cada vez mais eriçados. Não te mexas senão perde-se o mágico, sussurrou-lhe. Regressou ao centro e resgatou o cristal cada vez mais pequeno, continuou a recta num percurso descendente cada vez mais inclinado e curvou agora à esquerda para nova linha de intersecção, por onde deixou escorrer mais alguma da massa em transição de estado.

Procurou o centro, aproximou-se da pele mais rosada e voltou a arrefecer o sopro de encontro à superfície em frente, sentindo o fervor que aumentava de intensidade. Continuou a brisa fresca até que a impaciência venceu e sentiu a superfície quente e húmida de encontro aos seus lábios. Deixou que a massa gelada rolasse entre a sua língua e os outros lábios, forçou o cristal para que subisse e descesse repetidamente no cone que refrescava, agradava-lhe particularmente a visão do desaparecimento e subsequente regresso à sua boca, hiato que aproveitava para passar a língua gelada no extremo superior da abertura. Os movimentos tornavam-se frenéticos, o frio percorria toda a extensão da zona em ebulição, num gesto repentino agarrou no que restava entre os dedos e fê-lo subir pelo pequeno círculo até então alheado da brincadeira, provocando o desaparecimento da arma de devoração maciça no preciso momento que os gemidos passaram a gritos abafados.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Aquilo que me custa


Não é olhar para os teus olhos verdes imensos, aqueles que de tanto brilharem em dias de sol intenso me deixam rendido e atordoado.

Não é o teu sorriso quente e alegre, quase ingénuo, não fosses sempre tão defensiva, que me desarma e me deixa sem argumentos.

Não é o teu cabelo loiro, ondulado, que imagino espalhado pela almofada em cachos de frescura, onde mergulharia como numa cascata havaiana.

Não é o tom inebriante da tua voz quando respondes evasivamente às minhas provocações, deixando a porta aberta para novas investidas mas lembrando-me sempre que o risco está bem visível.

Tudo isto apenas me tortura.

Aquilo que me custa é, tão somente, nada disto te poder dizer.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Da sabedoria III


-                     Gostas de mim?
-                     Gosto.
-                     Porquê?

(Porque és bonita.
E se não fosse?)
(Porque és inteligente.
Se fosse burra?)
(Porque cozinhas bem.
Se não soubesse?)
(Porque me dás miminhos.
E se andar triste?)

-                     Porque sim. Gosto e pronto.