segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Seria um anjo?

Podia ter sido o sorriso nos lábios, ou a volta no cabelo,ou o verde cintilante do olhar, qualquer um, presente ou não, que numa mulher há sempre um detalhe que sobressai à frente dos outros. Mas não, foi a voz, cristalina, decidida, quase imperativa no modo suave e delicado com que a usava.

Apetecia ficar ali e pedir que trouxesse o bacalhau no forno, depois o cabrito assado, a seguir a vitela e depois viriam as sobremesas, uma por uma desde que as anunciasse demoradamente antes de as colocar sobre a mesa. E faria uma ode ao café e descreveria as virtudes da Senhora dos Remédios durante o digestivo, recitaria a conta e leria as informações do ecrã do terminal de pagamento automático.

Há vozes assim, que nos deixam a vaguear ao sabor do vento.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Da falta de sabedoria I

Estava o Sr. Ministro Miguel Relvas a falar com Judite de Sousa na TVI. Ouvi com atenção aquilo que disse, enquanto em rodapé, como habitualmente, apareciam citadas as frases mais marcantes. É então que dou um salto na cadeira ao ver escrito "Temos um longo caminho a percorrer mais ainda estamos a começar". Ora a letra i está muito longe, no teclado, quer do a, quer do esse, que curiosamente até estão juntos. Parece-me, pois, que quem redigiu a frase se deixou levar por aquilo que poderei caracterizar como um defeito linguístico do português do Brasil.

Não tenho nada contra o trabalho de cidadãos estrangeiros no nosso país, eu próprio não deixo de parte a possibilidade de me mudar para outro país. Espero, apenas, que sejam competentes.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Da sabedoria II


Só saberás o que é uma francesinha depois de a teres provado na única zona do país onde são verdadeiras, Porto e arredores. E, mesmo assim, só em determinados locais. A vantagem é que qualquer um dos naturais saberá nomear pelo menos um desses míticos recantos da restauração.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Do uso da capa

A capa negra pendia-lhe dos ombros numa fusão perfeita com os cabelos cor de azeviche, realçando o brilho intenso dos olhos escuros na penumbra da velha carrinha pão de forma. Era madrugada e não se vislumbrava o mar próximo, esta noite de sábado no início de Maio levava todos os anos muitos automóveis até às imediações das praias. Estava completamente despida sob o manto quente, joelhos flectidos e afastados, cada uma das pernas do lado exterior das do morcego de camisa branca que, sentado no largo banco traseiro do veículo, ocupava as mãos em lentos círculos sobre a pele macia em frente. O aroma suave e inebriante que emanava do pescoço alvo fazia-o mergulhar a cabeça no interior do abafo, provocando na rapariga alegres gargalhadas de prazer enquanto fechava o círculo sobre a cabeça do rapaz e a apertava na direcção dos pequenos picos levantados, que ele humedecia alternadamente com a língua em riste.

Aos poucos o movimento pendular de cavaleira foi-se intensificando, os olhos semi-cerrados, os braços à volta da cabeça do montado, a força da tenaz em crescendo contra o peito em reboliço. Desceu as mãos para os flancos dela, deixou-a mover-se à sua vontade, tinha descoberto há algum tempo que na altura por que esperava sentiria os músculos da companheira contraírem-se em espasmos regulares. E era uma sensação viciante.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Da sabedoria I

Saberás mudar a cama da criança de olhos fechados depois de o teres feito dez vezes algures entre as três e as quatro da manhã.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ideias originais


Um dos meus sonhos mais secretos era ser publicitário. Pegava numa música idiota de uma série não sei se cómica se romântica se apenas oca que já não passa na televisão há mais de 25 anos e fazia um comercial a promover um tarifário de telemóveis para miúdos que nunca ouviram a música nem enjoaram pasmados frente ao televisor com as andanças do barco.

Ou então podia ser completamente original e colocar um batráquio com quilt em cima de um cavalo, completamente despido de qualquer outra peça de indumentária, no encalço de duas miúdas boazonas a brandir a buzina de um descapotável no meio de uma planície batida a vento gelado.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cocooning


Gosto de grandes espaços. Desde muito cedo que algumas das coisas que mais prazer me dão envolvem actividades ao ar livre, muito embora estejam geralmente associadas a horas de lazer e não de trabalho. Mas fim-de-semana em que não saia de casa ou férias confinado a espaços limitados, mesmo que traduzidas em hotel e praia, deixam-me tenso e irritadiço. Com cara de mal-disposto, como é frequente ser rotulado.

No entanto, por paradoxal que pareça, tenho um especial prazer em fechar as portas à chave e apagar a luz andar por andar quando, à noite e em casa, me preparo para deitar. Além disso, quando regresso de um dia de trabalho, sinto-me incomodado com facilidade pelo ruído da rua que entra pela janela da cozinha, quando se encontra aberta como auxiliar de exaustão de gases.

Não sei se o termo em inglês está, assim, correctamente aplicado, mas sei que também sentia uma sensação de protecção, necessariamente irrealista, quando fechava a abertura do igloo minúsculo onde passei belas noites em algumas das montanhas mais altas do país.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Hoje chamo o velho Camões


Em tempos guardava apontamentos pessoais e profissionais no pensamento de que um dia mais tarde me poderiam ser úteis. Tenho ainda coisas antigas guardadas, desde catálogos técnicas a cartas de amigos, algumas já com décadas de idade. Tenho andado a deitar essas coisas ao lixo, as profissionais porque já foram ultrapassadas pelo avanço contínuo da ciência e da técnica e as dos afectos, mais ou menos intensos, mais ou menos íntimos, porque o que então unia as pessoas foi alterado por tudo o que entretanto se passou nas vidas de cada um e tornou-se numa realidade completamente diferente.

Tudo tem um tempo e um lugar e nem mesmo entre irmãos as ligações mantêm a mesma natureza ao longo da vida. E o tempo esbate quer as ligações mais fortes, quer os conflitos que inevitavelmente resultam, se outras razões não houverem, do aparecimento de novas pessoas. Assim como cria, fortalece ou desfaz novos laços.

No caso particular do núcleo familiar mais restrito é impressionante, surpreendente e excitante o caminho que se pode percorrer quando os intervenientes realmente se empenham. Tão surpreendente como, por vezes, inimaginável nos seus primeiros passos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Já chovia, não?


Gosto do Outono. Gosto das cores das folhas, gosto do cheiro da terra molhada e das queimadas de folhas e ramos secos, cujo fumo cinzento se eleva no ar fresco. Gosto de calçar botas e vestir camisolas mais grossas. Gosto do peso dos cobertores na cama e do seu calor acolhedor ao acordar, apesar da atrapalhação que provocam em movimentações que nada têm a ver com o sono.

Este calor fora de tempo sabe-me a artificial.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A moda Verão-Outono 2011


Este calor não dá tréguas. E se eu tenho olhos, é para olhar. E para ver. E para ver há que olhar com olhos de ver. E que vejo? Vejo que as meninas e as senhoras continuam a preferir roupas leves, reveladoras das belas formas com que a natureza as premiou, a mesma natureza que me acrescentou a imaginação de ver o que está escondido, mas pouco dissimulado nos volumes sob os tecidos.

Almoçar numa área comercial intensamente frequentada torna-se, assim, numa sessão agridoce de contemplação pouco dissimulada. Felizmente é pouco frequente.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A tal da idade

Faz com que o número de previsões acertadas aumente. No caso de ontem, bem que poderia ter falhado. Mas não desesperemos, como de costume na última oportunidade lá haveremos de ganhar o jogo e ir ao europeu.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Nunca mais aprendemos


Esta crise que vivemos devia tornar-nos mais sensatos e, pelo menos nalguma áreas, mais humildes. Por alguma razão aqui chegámos e a mim parece-me que é tempo de pensar nas causas. E se a tão comentada ausência de agitação social parece uma forma sensata de avaliar a situação, ainda que num futuro próximo possa ser benéfico o uso da manifestação social como forma de pressão sobre quem nos dirige, já as palavras de ontem do seleccionador daprincipal equipa de futebol são uma forte machadada no bom senso.


A equipa portuguesa tem a posição mais confortável no início do jogo, deve, por isso, deixar que a Dinamarca se desgaste e aproveitar até para procurar um deslize do adversário. Mas isto parece-me diferente de entrar para ganhar. O jogo de sexta-feira passada demonstrou que a defesa não está bem, o que nem é de estranhar. E Paulo Bento está muito longe de ser o treinador ideal para incutir confiança num grupo de jogadores. Continua a ser o irmão mais velho do grupo, aquele de quem se gosta porque tem mais experiência, porque conhece brincadeiras mais ousadas, porque tem maior à-vontade frente aos adultos. Mas que não se respeita precisamente porque é irmão. O respeito tem-se pelo pai, figura que Paulo Bento não é capaz de representar. O pai teria sabido contornar o amuo de Ricardo Carvalho e evitado que desertasse, palavra com a qual, infelizmente, concordo.

Não auguro nada de bom para o jogo desta noite. Mas também reconheço que a derrota não será drama nenhum, pelo menos para a maioria. Afinal de contas até podemos ser o melhor segundo e, mesmo assim, ter apuramento directo. Mas não o sendo, ainda há um Play-off. E que será dos nossos comentadores desportivos se perderem a oportunidade de equacionar os quinhentos cenários possíveis até à qualificação?