sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

As minhas comentadoras são das boas

Do que não duvidava nem por um segundo. Que são boas. Comentadoras.

Cá estão as respostas com que não deixaram de me brindar. A elas e a todas e todos os que por aqui passarem, os meus desejos de um 2012 com saúde e trabalho, que o resto deverá vir por acréscimo.



Porque é tempo de Natal
Também vou dar uma prenda
A quem saiu afinal
Melhor do que a encomenda

Começo pela menina
Geralmente bem disposta
Ar de miúda traquina
Insolente na resposta

Sempre desafiadora
Tem no sofá o seu feudo
É grande provocadora
A querida amiga Pseudo

A estraga-prazeres chegou,
Acelerada pela auto-estrada.
Avisa que também gostou
Da prendinha por ti ofertada.

Agora percebi o que perdi,
A ver se não volta a acontecer.
Se tal voltar a ocorrer,
Juro que não me esquecerei de ti :)


Não m’esqueço da poetisa
De rimas acaloradas
Que com música idealiza
Cenas das mais inflamadas

Transmite uma linda imagem
E sem ponta de perfídia
De certo não é selvagem
A tentadora Orquídea

Tens jeito para rimar
Quero entrar na brincadeira
Vou a minha voz afinar
Pra dizer bem à maneira:

«Ena ena... maravilha
Isto aqui está do baril
É por isso que visito
A chapada no trombil.»

Menina dos olhos belos
Inquieta e sonhadora
Vê palácios e castelos
Corre pelo mundo fora

Só desejo que descanse
Seu príncipe chegará
Até lá festeje e dance
Como a AC prenda não há

Grande poeta é o rapaz,
faz versos e consegue rimar,
Aqui a Ac vai ver do que é capaz,
para agradecer, e mimar

Porque a vida são dois dias,
e um até já passou,
O Ness surpreendeu,
E a Ac adorou!

Em período de licença
Anda quem por mim puxou
Geralmente muito intensa
Parece que agora murchou

Mas eu sei que chegará
Ainda mais empolgante
A Amanda voltará
Formosa e exuberante

Pois meu caro Ness
diante do seu grito me apresento
Com certeza que merece
estas palavras que acrescento

Peço desculpa pela demora
mas meu amigo sabe certamente
que mais do que a mente decora
são as palavras que a gente sente

Como tal e porque tão bem me conhece
mais do que exuberante, empolgada estou
Bombardeada por olhares em prece
Agradeço profunda_mente e agora me vou.

Antes de ir tenho tempo ainda
de lhe desejar muita inspiração
e que este ano que agora finda
dê lugar a outro repleto de emoção



(Já tentei alterar as definições mais de quinhentas vezes e não consegui melhor do que esta bodega. Por agora, fica assim)

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Das férias que não o são

Podia reclamar, não fosse não gostar de estar encafuado em casa sem grande coisa que fazer. Podia dizer palavrões, se calhar até o faria noutras alturas, não fosse ter sabido de mais um que está em casa contra a vontade, por já não ter o que fazer. Podia estar em cima da bicicleta, mas deixa-me estar por aqui a ver se o que tenho a mais por agora não tenho a menos nos tempos mais próximos.

Mas lá que me apetecia ir aproveitar o sol...

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Feliz Natal

Recordei isto há pouco, logo de manhã, na Rádio Nova, e só posso concordar que seja uma  das melhores músicas de Natal, como dizia o César. A prova de que não temos que ouvir as mesmas musiquinhas ano após ano.

A todos os que por aqui passam, essas e esses que até se atropelam à entrada, os meus votos de um Natal feliz.



   

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Dos disparates políticos

A política tem destas coisas, quando se tenta a fuga para a frente como forma de tentar branquear um disparate, geralmente resulta no aumento da dimensão do facto absurdo. Vem isto a propósito daquilo que parece ser um apelo à emigração por parte do nosso governo. Tenho a opinião de que Passos Coelho tem demonstrado ser mais sensato do que a seu antecessor, muito embora o clima político destes tempos seja muito mais propício a esse comportamento. Não obstante o líder da oposição ter feito declarações recentes muito mais alinhadas com a falta de bom senso revelada até há alguns meses atrás. Voltando ao facto político, parece-me inusitado estar um país a formar a sua população durante quase vinte anos para depois os enviar para o estrangeiro. Podemos discutir se a formação ministrada nas duas últimas décadas é aquela de que o país precisa, em muitas áreas terá sido, noutras provavelmente deverá ser repensada, agora incentivar a saída do país é algo que me suscita as maiores dúvidas como linha política.

Há já várias áreas profissionais, e aquela onde me enquadro é uma delas, que saltaram as fronteiras na busca do trabalho que por cá vai rareando. Felizmente há muitas empresas nacionais que tomaram essa iniciativa, gerando no estrangeiro movimentos de capitais que beneficiam o país. Mas as pessoas continuam a trabalhar para o país. Quando fazemos a malas por conta própria e vamos trabalhar para outras paragens deixamos de contribuir para a nação que nos formou.

Provavelmente, a questão será outra. Já em tempos defendi que a diferença entre salários praticados em Portugal é vergonhosa. É encarado com uma naturalidade gritante que haja diferenças de um para cinco nos vencimentos de pessoas que não tenham cargos de elevada responsabilidade, deixando de lado a questão de se este tipo de cargos merece uma remuneração claramente destacada das outras. Esta realidade, conjugada com a ideia dos nossos pais de que um curso superior implica um ordenado e um estatuto social correspondente ao que era um doutor ou um engenheiro há quarenta anos atrás, distorceram o mercado do ensino através da procura desenfreada de cursos privados, resultando num desequilíbrio da oferta relativamente à procura e na perda de expectativas por parte de uma grande parte dos formados.

Se neste país a diferença de ordenado entre quem menos ganha e quem mais recebe não fosse superior a três, acredito que não houvesse necessidade de dizer às pessoas para emigrarem.

Pensamentos profundos na prática de condução solitária

A Popota cagalhota está incontinente.

É uma estreia neste tipo de frases lapidares, deve ser de seguir uma certa pessoa que se sai frequentemente com preciosidades deste tipo.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Também não escapo à quadra

Porque é tempo de Natal
Também vou dar uma prenda
A quem saiu afinal
Melhor do que a encomenda

Começo pela menina
Geralmente bem disposta
Ar de miúda traquina
Insolente na resposta

Sempre desafiadora
Tem no sofá o seu feudo
É grande provocadora
A querida amiga Pseudo


 
Não m’esqueço da poetisa
De rimas acaloradas
Que com música idealiza
Cenas das mais inflamadas

Transmite uma linda imagem
E sem ponta de perfídia
De certo não é selvagem
A tentadora Orquídea

 
Menina dos olhos belos
Inquieta e sonhadora
Vê palácios e castelos
Corre pelo mundo fora

Só desejo que descanse
Seu príncipe chegará
Até lá festeje e dance
Como a AC prenda não há


Em período de licença
Anda quem por mim puxou
Geralmente muito intensa
Parece que agora murchou

Mas eu sei que chegará
Ainda mais empolgante
A Amanda voltará
Formosa e exuberante

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

36 horas (II)

Chegados ao hotel quase correram até ao quarto, onde trocaram o longo beijo de reencontro que calavam. Mas de seguida, recuperando o ritual já antigo, Lígia agarrou no saco grande que trazia e refugiou-se na casa de banho. Vasco abriu igualmente o seu saco das surpresas e retirou um casaco impermeável de bombeiro e o capacete respectivo, que tinha pedido emprestados a um amigo de infância e que envergou depois de se ter despido por completo. Ligou o portátil e deixou que os Doors ecoassem pelo quarto, sincronizando “Light my fire” com o preciso momento em que Lígia entrava no quarto, de botas de saltos altíssimos, lingerie vermelha fogo e uma écharpe negra à volta do pescoço, cobrindo desafiadoramente os seios desenvolvidos. Contendo com dificuldade o riso, a rapariga balbuciou “Sr. Bombeiro, estou em chamas, venha apagar-me este fogo que me consome”. Amaram-se demoradamente até que o sono os venceu, sabendo que o dia seguinte seria longo e começaria cedo.

Lígia despertou à hora do costume, pouco antes das sete da manhã, tendo Vasco acordado logo que a pressentiu desperta. Abriu o reposteiro, deixando entrar o sol, e foi vestir os calções de banho sabendo que a lembrança da piscina interior deserta levaria a companheira a saltar da cama. Dirigiram-se à piscina e brincaram na água, atiçando-se mutuamente como adolescentes a aproveitar a ausência de outros hóspedes. Sentindo os estômagos vazios voltaram ao quarto, tomaram um duche rápido e dirigiram-se à sala para tomar o pequeno-almoço. A manhã foi dedicada à exploração das imediações do hotel, incluindo a vila próxima, por cujas ruas deambularam demoradamente, visitando a igreja, o museu e os jardins. Escolheram um dos restaurantes por onde tinham passado para o almoço, sabendo que regressariam ao hotel para uma tarde que se previa tão relaxante quanto intensa. O vinho branco escolhido tinha já contribuído para o estado descontraído, embora potenciasse a vontade de se terem novamente. Mas antes ainda teriam a massagem a dois, ministrada por um casal jovem e simpático, ele nela e ela nele. Num ambiente de penumbra, com o ruído abafado da água a cair numa cascata artificial na sala e música de Enya, com uma mistura de aromas suaves e estimulantes. As mãos de pena nas costas de Vasco deixavam-no num estado dificilmente disfarçável de satisfação, enquanto os toques firmes em Lígia a deixavam num estado de alta tensão eléctrica. Quando terminaram, mal se conseguindo equilibrar nas pernas, dirigiram-se ao banho turco, que encontraram vazio para gáudio de ambos. Sentando-se um em cada extremo do banco corrido deixaram que os pés começassem o trabalho que os olhos suplicavam. Lígia desfez-se da parte superior do bikini, imediatamente substituído pelo pé livre de Vasco. Não necessitavam de muitas carícias para atingir o clímax que sentiam à flor da pele, num gesto tão rápido quanto o permitido pela atmosfera tórrida e húmida, Vasco sentou Lígia sobre as suas pernas, vigiando de soslaio a entrada da porta. Ela puxou-lhe os calções para baixo apenas o suficiente para libertar o membro que ameaçava furar o tecido, desviou o pouco pano que a cobria e deixou-se escorregar lentamente sobre ele, completamente fora de si com o pensamento de que alguém poderia entrar a qualquer momento. A invasão da língua de Vasco na boca dela foi a gota final para despoletar o inevitável e cravou as suas unhas nas costas do companheiro sabendo que ficariam marcadas, enquanto se debatia furiosamente de encontro às suas pernas. Quando diminuiu a intensidade dos movimentos foi a vez de Vasco erguer o rabo, em várias estocadas que a levantavam como se estivesse montada num touro num rodeo americano. Ainda estava sobre ele quando se ouviram risos e vozes em aproximação do lado exterior da porta, dando-lhe tempo apenas para cobrir os seios com o bikini encharcado.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Finalmente uma nova música de Natal

Esta é a época do ano que me deixa mais irritadiço, é a silly season do Inverno, bem pior do que a de Verão porque nessa desloco-me para um local quase deserto e transformo os meus dias em banhos de tranquilidade, verde e mar. Ou afogo-me em estrada e pedras velhas e fotografias sem máquina.

Mas este ano estou bem menos tenso, parece que a crise teve o efeito perverso de limitar as luzinhas imbecis a piscar, os bonecos insufláveis por fora das janelas e as musiquinhas idiotas repetidas até à exaustão ano após ano, como se as crianças que fizeram parte do Coro de Santo Amaro de Oeiras fossem obrigadas, como castigo, a ouvir as suas vozes até ao dia em que disserem aos netos que faziam parte do grupo que nos entra em casa, sem pedir licença, todos os dias durante um mês inteiro em cada ano.

A este propósito não posso deixar de enaltecer a música de Natal do MEO Go, um prodígio de imaginação, orquestração e dotes vocais das crianças, quiçá algumas descendentes do grupo acima referido, e a prova de que há gente muito mais habilitada para compor poemas musicais do que alguns cantores que se intitulam autores, e nem me atrevo a escrever a novel palavra que alguém desencantou para os designar, que pululam pelo nosso reduzido universo musical.

Eu, que não tenho nada a ver com a Meo e até sou assinante da concorrência há longos anos, sorrio todos os dias ao ouvir a peça do Gato Fedorento, dignos sucessores do grande mestre Herman José, a quem reconheço um enorme talento e a falta de coragem para ter parado no momento certo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

36 horas (I)

Chamavam-lhes as loucas 36 horas. Quando conseguiam conciliar agendas o programa começava já tarde, no final dos dias de sexta-feira. Vasco saía do escritório já depois das 10, passava por casa para tomar um duche rápido, parava ao balcão do Capa Negra para engolir três rissóis e um fino, que complementava com dois cafés para o manter desperto na auto-estrada. Girava a chave do Giulietta, fazendo roncar suavemente o potente motor do carro do trevo verde e rumava a sul, sabendo que o pouco trânsito da hora adiantada e os 235 cavalos da máquina vermelha, único carro ao qual consentiria a cor, tirando os inatingíveis Ferrari, o levariam até às portas da capital em pouco menos de duas horas.

Lígia, por seu turno, preparava minuciosamente o cenário para mais um dos guiões em que se tornavam peritos. Não sabia onde acabaria a noite, não quando ele vinha de norte, chegaria a sua vez de o planear, sabia que alguma surpresa ele traria e tinha que o surpreender à altura. Ambos fanáticos por pormenores, não descurava os mínimos detalhes que a faziam ansiar por cada nova aventura.

Vasco chegou ao Carregado e deu um toque para o telemóvel de Lígia, sinal de que estava perto. Parou no local combinado e esperou apenas o tempo suficiente para fazer desaparecer a papelada que juntava no banco do lado direito. Viu-a sair do seu carro, abriu a porta e guardou na bagageira o saco da rapariga, enquanto lhe mergulhava o nariz nos cabelos longos e aspirava o aroma suave do champô, misturado com o perfume escolhido para a noite. Sabia o efeito que a sua inspiração profunda provocava.

Atravessaram a ponte para sul comentando a troca de mensagens dos últimos dias e Vasco deixou escorregar a sua mão até ao joelho de Lígia, aproveitando a subida intencional e provocante do vestido de malha na posição de sentada. Tinha uns clássicos collants pretos, adivinhando a fraca impressão que as modas recentes imprimiam no condutor. Vasco subia a mão em círculos, ao ritmo da música dos Doors que ainda restava do percurso a solo. Quando chegou ao ponto mais elevado do caminho dos dedos, Lígia aconchegou-se no banco de couro com o símbolo no topo, levou a mão ao leitor múltiplo de CDs, sabendo que do quatro ao seis haveria alguns dos seus preferidos, seleccionou o quatro e descontraiu-se completamente quando Sade fez ecoar “Jezebel” pelo automóvel. Vasco seguia agora dentro dos limites de velocidade, minimizando os efeitos da distracção, e iniciou movimentos circulares com o dedo médio, lentamente, esperando pela altura em que Lígia tomaria o controlo dos acontecimentos e ele teria apenas que a ir contrariando de vez em quando, prolongando o jogo. Ela abria agora ligeiramente as pernas, levantando os braços e passando as mãos por cima dos mamilos que já se faziam notar sob a malha. Rapidamente passou a controlar os seus próprios movimentos, mostrando-lhe qual a zona onde pretendia ser estimulada. Sabendo que o caminho não deveria terminar tão cedo, fez prolongar o seu prazer como se estivesse só, mas com a vantagem de ter ao seu lado quem gostava de a sentir molhada e excitada e apreciava toda a beleza do momento. Quando já não aguentava mais enfiou a sua mão nas calças de Vasco e deixou que o toque na erecção que sabia estar ali potenciasse o seu orgasmo.

Aproveitaram o restante percurso até ao hotel para ouvir a música, num silêncio feito de mensagens telepáticas que prometiam muito mais acção nas horas seguintes.

Dúvida linguística

Tenho ouvido dizer na televisão frases do tipo "O clube A venceu ao clube B". Desde que me recordo, a expressão que se usa é "O clube A venceu o clube B". No entanto, pensando um pouco mais a fundo na questão, também sempre ouvi dizer que "O clube A ganhou ao clube B". Sendo que ganhou e venceu são sinónimos, acabo por ficar na dúvida sobre qual das expressões é correcta.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A loira do 77

Foi num local nada próprio, a entrada dos lavabos de um antro de alimentação nada saudável, aquele do boneco com fatiota de palhaço e nome de origem escocesa. Virou﷓se não sabe porquê e deu com um daqueles olhares com duração de duas milésimas de segundo mas que não deixam qualquer dúvida de que a pessoa sabe quem olha. Passaram-se mais de vinte anos desde o último olhar trocado, furtivamente, entre ambos. Lembra-se da expectativa de a ver na fila da paragem, duas depois do local onde entrava, do olhar dela a procurá-lo, da saída para a escola, algumas paragens antes da dele. Lembra-se do dia em que ela aproveitou o lugar deixado vago ao lado dele para se sentar quase violentamente, num grito abafado de não sejas parvo e diz qualquer coisa. Sabia que ela estava à espera mas não foi capaz de lhe dizer que os seus olhos lhe lembravam barcos à vela ao longe, movendo-se vagarosamente em dia de calor intenso. O estupor do desbloqueador de conversa que quebraria o gelo que só na sua cabeça estava presente. Terá com certeza um nome médico-psiquátrico qualquer, mas para ele será sempre apenas estupidez. Ainda hoje, a doutora da farmácia.

Foi assim que se lhe referiu no diário da viagem a terras longínquas, livro de reflexões ainda hoje guardado num lugar poeirento da casa onde cresceu, à espera do melhor dia para que sirva de memória revivalista. Propositadamente não quis saber o seu nome por terceiros, só valia se lho perguntasse de viva voz. Nunca o soube, embora soubesse o nome da própria irmã.

Ela com dois a reboque, ele com dois a reboque, ainda que apenas três por circunstâncias acidentais, não deixou de achar curiosa a coincidência. Continua loira. Continua linda.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Chapinhar

Já foi um carro da moda. Não foi comprado por essa razão, era uma aspiração antiga, de antes de o conceito de ter tornado popular. Tanto que a moda passou e o carro ficou, por convicção, porque continua a poder chegar onde a esmagadora maioria não vai, apesar de fazer em raríssimas ocasiões. É um trambolho, um charuto, mas proporciona sensações únicas como a de permitir chapinhar alegremente quando o dilúvio se abate sobre a estrada. É divertido, é traquina, sabe bem, ainda que apenas por alguns minutos.

O jipe que não é, é de outra marca, que está sempre pronto a andar, é quase um membro da família, tanto que os mais novos nem querem ouvir falar na sua reforma. Se os ventos continuarem a soprar na direcção certa, será suficiente para o curto percurso diário em dias ditos úteis e manter-se-á no activo por muitos e bons anos.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Dia de Primavera

No sussurro do ribeiro
Sinto a tua pele macia
Misturada com o cheiro
De alecrim e malvasia

Teu sorriso inebriante
Lábios doces de prazer
Beijo sentido, gigante
Que deixa o sangue a ferver

Oiço a música envolvente
Perco-me, mergulho em ti
Não há horas, só presente

Fogo, desejo premente
Onde estou? Não me perdi
Há noite e tu, simplesmente

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Gostei, apesar da derrota

Tenho que reconhecer que Jorge Jesus, que é seguramente muito mais conhecedor de futebol do que eu, foi capaz de usar os seus recursos para se impor às debilidades do meu Sporting. O que não retira nenhum do brilhantismo que Domingos levou para o clube, o seu trabalho está ainda no início e estou certo de que há-de encontrar uma solução para os centrais e para o defeito de Rui Patrício, a saída aos cruzamentos. O Sporting não marcou qualquer golo, mas teve oportunidades para o fazer. Ficou a sensação de que o clube está consistente e pronto para embates difíceis.

Quanto a Jesus, só reforçou a sensação de que devia ter sido contratado em vez de Paulo Bento, já lá vai uma boa meia dúzia de anos. É que pior do que não ter, é tê-lo num dos adversários directos.

Nota final para o reprovável incidente já depois do apito final, com o incêndio das cadeiras. Não tem qualquer justificação e espero sinceramente que haja consequências para quem provocou o acto.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Actualização de linguagem

Conversa de uma criança crescida ontem à tarde: "Na minha escola há um botão ao lado do interruptor da luz, clica-se lá e vem a funcionária". Eu sou do tempo em que se carregava no botão. Agora clica-se.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Do deslumbramento

Olho o teu corpo de contornos suaves e voluptuosos através do reflexo devolvido pelo espelho redondo do tecto, a tua pele morena, já recuperada das carícias longas e quentes do sol do verão em vias de esquecimento, esse sol que invejo por lhe teres permitido tão prolongado deleite, os teus joelhos levemente flectidos em pose de modelo renascentista ante os olhos dos pintores flamengos de vida boémia, os braços ainda conformados no arco de êxtase com que rodearam os meus ombros, teus olhos escuros e expressivos irradiando uma luz intensa tal qual a luz negra que realça os brancos na escuridão profunda, o teu sorriso travesso e provocante a lembrar que o descanso é apenas o estritamente necessário até ao próximo assalto. Derreto-me, estarreço-me, esforço-me por manter viva a imagem, mesmo sabendo que a recordação que guardarei a partir desse momento nunca será mais do que um efémero resquício do deslumbramento desses minutos.

Lendo-me o pensamento, levantas-te e fazes questão de passear pelo quarto em passo lento mas firme, de negra cabeleira sobre os ombros, olhar longe do meu, ombros levantados e em esquadria perfeita, deixando-me rendido, prostrado, boquiaberto com tal pose de beleza feminina.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Da sabedoria IV

Saberás o que é um automóvel quando andares num Mercedes classe S. A partir daí todos os outros serão apenas carros.

Nunca andei num Rolls-Royce, que admito ser exceção a esta regra. Mas gostava muito.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Help x 2

Preciso de ajuda para matar dois escaravelhos, ou baratas, ou bichos de aspecto primitivo com muitas patas. O primeiro é a formatação dos textos, apesar de ser um tipo cinzentão que compra carros porque a mecânica é fiável e evoluída enquanto o desenho da máquina não importa para nada, gosto de ver as margens dos textos alinhadas à esquerda e à direita, portanto sem tendência para nenhum dos lados. Acontece que esta nova formatação do blogas só me deixa alinhar à esquerda, o que até vai contra a tendência portuguesa e europeia mais recente. Alguém consegue justificar os seus textos?

Outra cena é a necessidade de inserir as letrinhas chatas, ainda por cima tortas como se tivessem estado numa grande noitada e continuassem em coma alcoólico, que me foi relatada pela minha leitora mais impaciente, ameaçando inclusivamente de virar costas e nem olhar para trás. Por favor confirmem que já não há essa necessidade ou, em caso negativo, como desactivar o raio da opção.

Bem hajam!

P.S. (não me refiro ao partido da esquerda, hannnnn, direita, hannnn, centro, haannn, nem eles sabem) Depois de escrever isto consegui formatar as margens. Mas não vou apagar o que escrevi, que até me pareceu ter saído jeitosinho.

Serviço público de televisão

Um homem foi condenado pelo assassinato do dono de um posto de abastecimento de combustível. Cumpriu parte da pena e evadiu-se da cadeia. Passado algum tempo participou no sequestro de um avião, incidente com várias peripécias que custaram certamente rios de dinheiro em prejuízos, envolvendo episódios nos Estados Unidos, Argélia e França. Conseguiu escapar e pediu asilo político na Guiné-Bissau. Alguns anos volvidos acabou por vir para Portugal, casou com uma cidadã nacional e adquiriu a nacionalidade portuguesa. Pergunto-me como terá sido feita a tramitação legal, uma vez que me parece que se tivesse apresentado a sua identificação verdadeira teria despoletado a atenção das autoridades.

Foi identificado há dois meses como foragido das autoridades americanas. O tribunal da relação de Portugal decidiu não o extraditar. Ouvi eminentes advogados da nossa praça declararem que concordam com a decisão uma vez que os prazos já prescreveram segundo a lei portuguesa e a pessoa em causa é agora outro homem.

Reconheço às pessoas o dever de emendarem os seus erros. Não sei se concordo com a argumentação das pessoas que ouvi na televisão, certamente o homem que foi assassinado tinha família e não creio que esses concordem com o que foi dito.

Mas aquilo que me choca é que alguns órgãos de comunicação social avancem para entrevistas de branqueamento da situação. Além de vários crimes, há muitos artifícios pouco ou nada claros na vida daquele homem. E há muitas pessoas que mataram outras, umas porque foram abusadas e espancadas durante anos, outras porque não aceitaram os abusos sobre terceiros, pessoas que cumpriram as suas penas, imagino que tenham tido grandes dificuldades na sua reintegração social, mas a quem a comunicação social nunca deu qualquer destaque além da notícia do crime.

Se isto é serviço público de televisão, então, por favor, dêem-me apenas estações privadas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Viajar

 Foto retirada da Wikipedia. Loch Ness, fonte inspiradora, viagem de sonho ainda em projecto.

Viajar é um dos sonhos mais referidos pelas pessoas, basta ver as respostas dadas à pergunta fatal dos concursos televisivos sobre o destino a dar ao prémio. Mas há diferentes formas de viajar. Há quem só queira melhorar até à exaustão aquilo que faz em casa, basicamente comer, ver televisão e ir praia, de preferência sem contacto com os pobres dos indígenas que tiveram a sorte de nascer em terras de sol e mar quente e despoluído, mas se querem longe dos árduos trabalhadores de países mais frios que lhes levam o dinheiro para comerem.

Há quem goste desses luxos e ainda aproveitar para tirar umas fotos de alguns monumentos, desde que o autocarro com ar condicionado pare mesmo ao lado e não desligue o motor, para que a temperatura se mantenha fresca.

Há outras variantes, para todos os gostos, algumas até muito radicais, polegar levantado e mochila com duas t-shirts e um par de sapatilhas de reserva às botas.

Viajar até varia ao longo do tempo, desde os verões em Inglaterra na apanha dos morangos durante a semana e visitas à boleia a Cambridge ou Cardiff, fins de semana em Londres e semana no Lake District já com dinheiro no bolso resultante do trabalho de dois meses, passando pelas descobertas galegas em 4L, noites na tenda de campismo e dias de verde e mar, até à versão já de carro cheio com a casa às costas, Veneza, Florença e Roma de mapa numa mão e mão pequena na outra, ai aqueles gelados, pinturas e calhaus velhos periclitantes e as famílias dos filmes de Fellini na praia do mar Adrático.

Curioso, até se chega ao ponto, depois do alargamento geográfico, a suspirar por peregrinações em bicicleta ou simplesmente a pé. Mas não é para todos.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Arma de devoração maciça




Prendeu-o entre os dentes enquanto se aproximava do pescoço de pele luzidia, já desnudado dos longos cabelos negros, que o desafiava a demoradas e insinuantes carícias. Aproximou-se a menos de um centímetro de distância e expirou suavemente um sopro que refrescava em contacto com a superfície gelada do líquido habitual, por agora em estado sólido. Sentiu um gemido leve e iniciou o movimento lento, semi-circular, ao longo do rebordo de intersecção com o troco, de um ombro até ao outro.

Deixou que uma ou duas gotas pingassem na depressão traqueal e iniciou uma linha, agora em contacto de pena de andorinha, até ao vale dos montes gémeos, contornando a base do lado direito, já em oscilação crescente. Levantou o lápis de água e esperou que uma gota se desprendesse em direcção ao pináculo escuro que já se erguia na antevisão do arrepio refrescante. Como sempre se pautou por uma conduta de equilíbrios, dirigiu a massa arrefecida para a vertical do pináculo adjacente e deixou tombar uma nova gota.

Regressou aos trajectos rectos e iniciou novo vagaroso percurso entre a base das elevações e a pequena cratera meteorítica que guarda a entrada da descida vertiginosa para o centro do luxuriante planeta das emoções. Decidiu deixar repousar o sólido no cálice improvisado, despertando de imediato um gemido mais intenso, e matou a sede com lábios hipotérmicos nos mamilos cada vez mais eriçados. Não te mexas senão perde-se o mágico, sussurrou-lhe. Regressou ao centro e resgatou o cristal cada vez mais pequeno, continuou a recta num percurso descendente cada vez mais inclinado e curvou agora à esquerda para nova linha de intersecção, por onde deixou escorrer mais alguma da massa em transição de estado.

Procurou o centro, aproximou-se da pele mais rosada e voltou a arrefecer o sopro de encontro à superfície em frente, sentindo o fervor que aumentava de intensidade. Continuou a brisa fresca até que a impaciência venceu e sentiu a superfície quente e húmida de encontro aos seus lábios. Deixou que a massa gelada rolasse entre a sua língua e os outros lábios, forçou o cristal para que subisse e descesse repetidamente no cone que refrescava, agradava-lhe particularmente a visão do desaparecimento e subsequente regresso à sua boca, hiato que aproveitava para passar a língua gelada no extremo superior da abertura. Os movimentos tornavam-se frenéticos, o frio percorria toda a extensão da zona em ebulição, num gesto repentino agarrou no que restava entre os dedos e fê-lo subir pelo pequeno círculo até então alheado da brincadeira, provocando o desaparecimento da arma de devoração maciça no preciso momento que os gemidos passaram a gritos abafados.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Aquilo que me custa


Não é olhar para os teus olhos verdes imensos, aqueles que de tanto brilharem em dias de sol intenso me deixam rendido e atordoado.

Não é o teu sorriso quente e alegre, quase ingénuo, não fosses sempre tão defensiva, que me desarma e me deixa sem argumentos.

Não é o teu cabelo loiro, ondulado, que imagino espalhado pela almofada em cachos de frescura, onde mergulharia como numa cascata havaiana.

Não é o tom inebriante da tua voz quando respondes evasivamente às minhas provocações, deixando a porta aberta para novas investidas mas lembrando-me sempre que o risco está bem visível.

Tudo isto apenas me tortura.

Aquilo que me custa é, tão somente, nada disto te poder dizer.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Da sabedoria III


-                     Gostas de mim?
-                     Gosto.
-                     Porquê?

(Porque és bonita.
E se não fosse?)
(Porque és inteligente.
Se fosse burra?)
(Porque cozinhas bem.
Se não soubesse?)
(Porque me dás miminhos.
E se andar triste?)

-                     Porque sim. Gosto e pronto.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Seria um anjo?

Podia ter sido o sorriso nos lábios, ou a volta no cabelo,ou o verde cintilante do olhar, qualquer um, presente ou não, que numa mulher há sempre um detalhe que sobressai à frente dos outros. Mas não, foi a voz, cristalina, decidida, quase imperativa no modo suave e delicado com que a usava.

Apetecia ficar ali e pedir que trouxesse o bacalhau no forno, depois o cabrito assado, a seguir a vitela e depois viriam as sobremesas, uma por uma desde que as anunciasse demoradamente antes de as colocar sobre a mesa. E faria uma ode ao café e descreveria as virtudes da Senhora dos Remédios durante o digestivo, recitaria a conta e leria as informações do ecrã do terminal de pagamento automático.

Há vozes assim, que nos deixam a vaguear ao sabor do vento.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Da falta de sabedoria I

Estava o Sr. Ministro Miguel Relvas a falar com Judite de Sousa na TVI. Ouvi com atenção aquilo que disse, enquanto em rodapé, como habitualmente, apareciam citadas as frases mais marcantes. É então que dou um salto na cadeira ao ver escrito "Temos um longo caminho a percorrer mais ainda estamos a começar". Ora a letra i está muito longe, no teclado, quer do a, quer do esse, que curiosamente até estão juntos. Parece-me, pois, que quem redigiu a frase se deixou levar por aquilo que poderei caracterizar como um defeito linguístico do português do Brasil.

Não tenho nada contra o trabalho de cidadãos estrangeiros no nosso país, eu próprio não deixo de parte a possibilidade de me mudar para outro país. Espero, apenas, que sejam competentes.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Da sabedoria II


Só saberás o que é uma francesinha depois de a teres provado na única zona do país onde são verdadeiras, Porto e arredores. E, mesmo assim, só em determinados locais. A vantagem é que qualquer um dos naturais saberá nomear pelo menos um desses míticos recantos da restauração.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Do uso da capa

A capa negra pendia-lhe dos ombros numa fusão perfeita com os cabelos cor de azeviche, realçando o brilho intenso dos olhos escuros na penumbra da velha carrinha pão de forma. Era madrugada e não se vislumbrava o mar próximo, esta noite de sábado no início de Maio levava todos os anos muitos automóveis até às imediações das praias. Estava completamente despida sob o manto quente, joelhos flectidos e afastados, cada uma das pernas do lado exterior das do morcego de camisa branca que, sentado no largo banco traseiro do veículo, ocupava as mãos em lentos círculos sobre a pele macia em frente. O aroma suave e inebriante que emanava do pescoço alvo fazia-o mergulhar a cabeça no interior do abafo, provocando na rapariga alegres gargalhadas de prazer enquanto fechava o círculo sobre a cabeça do rapaz e a apertava na direcção dos pequenos picos levantados, que ele humedecia alternadamente com a língua em riste.

Aos poucos o movimento pendular de cavaleira foi-se intensificando, os olhos semi-cerrados, os braços à volta da cabeça do montado, a força da tenaz em crescendo contra o peito em reboliço. Desceu as mãos para os flancos dela, deixou-a mover-se à sua vontade, tinha descoberto há algum tempo que na altura por que esperava sentiria os músculos da companheira contraírem-se em espasmos regulares. E era uma sensação viciante.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Da sabedoria I

Saberás mudar a cama da criança de olhos fechados depois de o teres feito dez vezes algures entre as três e as quatro da manhã.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Ideias originais


Um dos meus sonhos mais secretos era ser publicitário. Pegava numa música idiota de uma série não sei se cómica se romântica se apenas oca que já não passa na televisão há mais de 25 anos e fazia um comercial a promover um tarifário de telemóveis para miúdos que nunca ouviram a música nem enjoaram pasmados frente ao televisor com as andanças do barco.

Ou então podia ser completamente original e colocar um batráquio com quilt em cima de um cavalo, completamente despido de qualquer outra peça de indumentária, no encalço de duas miúdas boazonas a brandir a buzina de um descapotável no meio de uma planície batida a vento gelado.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Cocooning


Gosto de grandes espaços. Desde muito cedo que algumas das coisas que mais prazer me dão envolvem actividades ao ar livre, muito embora estejam geralmente associadas a horas de lazer e não de trabalho. Mas fim-de-semana em que não saia de casa ou férias confinado a espaços limitados, mesmo que traduzidas em hotel e praia, deixam-me tenso e irritadiço. Com cara de mal-disposto, como é frequente ser rotulado.

No entanto, por paradoxal que pareça, tenho um especial prazer em fechar as portas à chave e apagar a luz andar por andar quando, à noite e em casa, me preparo para deitar. Além disso, quando regresso de um dia de trabalho, sinto-me incomodado com facilidade pelo ruído da rua que entra pela janela da cozinha, quando se encontra aberta como auxiliar de exaustão de gases.

Não sei se o termo em inglês está, assim, correctamente aplicado, mas sei que também sentia uma sensação de protecção, necessariamente irrealista, quando fechava a abertura do igloo minúsculo onde passei belas noites em algumas das montanhas mais altas do país.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Hoje chamo o velho Camões


Em tempos guardava apontamentos pessoais e profissionais no pensamento de que um dia mais tarde me poderiam ser úteis. Tenho ainda coisas antigas guardadas, desde catálogos técnicas a cartas de amigos, algumas já com décadas de idade. Tenho andado a deitar essas coisas ao lixo, as profissionais porque já foram ultrapassadas pelo avanço contínuo da ciência e da técnica e as dos afectos, mais ou menos intensos, mais ou menos íntimos, porque o que então unia as pessoas foi alterado por tudo o que entretanto se passou nas vidas de cada um e tornou-se numa realidade completamente diferente.

Tudo tem um tempo e um lugar e nem mesmo entre irmãos as ligações mantêm a mesma natureza ao longo da vida. E o tempo esbate quer as ligações mais fortes, quer os conflitos que inevitavelmente resultam, se outras razões não houverem, do aparecimento de novas pessoas. Assim como cria, fortalece ou desfaz novos laços.

No caso particular do núcleo familiar mais restrito é impressionante, surpreendente e excitante o caminho que se pode percorrer quando os intervenientes realmente se empenham. Tão surpreendente como, por vezes, inimaginável nos seus primeiros passos.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Já chovia, não?


Gosto do Outono. Gosto das cores das folhas, gosto do cheiro da terra molhada e das queimadas de folhas e ramos secos, cujo fumo cinzento se eleva no ar fresco. Gosto de calçar botas e vestir camisolas mais grossas. Gosto do peso dos cobertores na cama e do seu calor acolhedor ao acordar, apesar da atrapalhação que provocam em movimentações que nada têm a ver com o sono.

Este calor fora de tempo sabe-me a artificial.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A moda Verão-Outono 2011


Este calor não dá tréguas. E se eu tenho olhos, é para olhar. E para ver. E para ver há que olhar com olhos de ver. E que vejo? Vejo que as meninas e as senhoras continuam a preferir roupas leves, reveladoras das belas formas com que a natureza as premiou, a mesma natureza que me acrescentou a imaginação de ver o que está escondido, mas pouco dissimulado nos volumes sob os tecidos.

Almoçar numa área comercial intensamente frequentada torna-se, assim, numa sessão agridoce de contemplação pouco dissimulada. Felizmente é pouco frequente.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A tal da idade

Faz com que o número de previsões acertadas aumente. No caso de ontem, bem que poderia ter falhado. Mas não desesperemos, como de costume na última oportunidade lá haveremos de ganhar o jogo e ir ao europeu.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Nunca mais aprendemos


Esta crise que vivemos devia tornar-nos mais sensatos e, pelo menos nalguma áreas, mais humildes. Por alguma razão aqui chegámos e a mim parece-me que é tempo de pensar nas causas. E se a tão comentada ausência de agitação social parece uma forma sensata de avaliar a situação, ainda que num futuro próximo possa ser benéfico o uso da manifestação social como forma de pressão sobre quem nos dirige, já as palavras de ontem do seleccionador daprincipal equipa de futebol são uma forte machadada no bom senso.


A equipa portuguesa tem a posição mais confortável no início do jogo, deve, por isso, deixar que a Dinamarca se desgaste e aproveitar até para procurar um deslize do adversário. Mas isto parece-me diferente de entrar para ganhar. O jogo de sexta-feira passada demonstrou que a defesa não está bem, o que nem é de estranhar. E Paulo Bento está muito longe de ser o treinador ideal para incutir confiança num grupo de jogadores. Continua a ser o irmão mais velho do grupo, aquele de quem se gosta porque tem mais experiência, porque conhece brincadeiras mais ousadas, porque tem maior à-vontade frente aos adultos. Mas que não se respeita precisamente porque é irmão. O respeito tem-se pelo pai, figura que Paulo Bento não é capaz de representar. O pai teria sabido contornar o amuo de Ricardo Carvalho e evitado que desertasse, palavra com a qual, infelizmente, concordo.

Não auguro nada de bom para o jogo desta noite. Mas também reconheço que a derrota não será drama nenhum, pelo menos para a maioria. Afinal de contas até podemos ser o melhor segundo e, mesmo assim, ter apuramento directo. Mas não o sendo, ainda há um Play-off. E que será dos nossos comentadores desportivos se perderem a oportunidade de equacionar os quinhentos cenários possíveis até à qualificação?

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Prognóstico no fim do jogo


Não tenho qualquer ambição de ser político, aprendi cedo, ainda na escola secundária, na febre juvenil das eleições para a associação de estudantes, que o meu estômago não é para esses voos. E digo isto sem ponta de desprezo por quem exerce as funções, até porque muitos só o fazem porque outros, eventualmente mais capazes, se acomodam a uma vida mais confortável e recatada, mesmo sem opíparas e quantas vezes enfastiantes jantaradas, passeios a alta velocidade em automóveis grandes e luxuosos e férias em locais longínquos, enclausurados durante alguns dias em estâncias balneares limitadas a alguns milhares de metros quadrados.

Mas se não é preciso ser um reconhecido técnico de finanças públicas para dizer o que o nosso ministro maismediático alegadamente terá afirmado, também não é preciso saber muito de política para imaginar que tais palavras são totalmente ocas e não servem para mais do que desgastar ainda mais a imagem de alguém que tem uma das fracções maiores da responsabilidade de nos levar a bom porto nos próximos tempos e que necessita da maior tranquilidade para o desempenho das funções.

Creio que, propositadamente, o senhor ministro da economia tem-se mantido resguardado do mediatismo da comunicação social, uma vez que está muito longe de ser um comunicador. Ao senhor ministro das finanças, pensando no anterior igualmente competente em termos de capacidade técnica e até algo melhor comunicador, acredito que muitos dos cabelos se tornem rapidamente brancos e que num ápice se comece a cansar do lugar se ninguém manifestar interesse ou for capaz de o resguardar nos próximos tempos. Em linguagem de ciclista, era bom que outro subisse à cabeça do pelotão.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Momentos I

Brilhava ao longe o cabelo, muito liso e negro. Vinha de túnica preta e jeans, discreta mas elegante, unhas dos pés pintadas em vermelho nada Ferrari, que não vai em modas se não se sentir bem consigo. A pele em tom de exposição solar moderada, própria da época.

Conversa fluida, animada, de quando em vez quase atropelada. Os olhos, ambos os pares, à solta na procura de detalhes, temperados pelo género. O decote, certamente ponderado tendo em conta a situação, ocupava um plano privilegiado, de difícil contenção visual. O rebordo em temas inspirados em civilizações sul-americanas, de cor branca, delimitava uma área geometricamente perfeita, apelando ao recurso a compasso como forma de comprovar o rigor circunferencial. Abusando do clima informal, o vislumbre de um pequeno rebordo de lingerie negra rendada faz aumentar irremediavelmente o ritmo cardíaco.

Já não se encontram muitas ocasiões para aumentar o volume sonoro dentro do automóvel, ainda para mais com música comercial. Felizmente, ainda há momentos que nos fazem sentir bem.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Rescaldo dos melhores dias do ano


No final da temporada de preparação para o novo ano real que já teve início, temporada essa que, desta vez, se reduziu apenas a duas semanas e passadas ao sol, apetece-me resumir os acontecimentos nas seguintes considerações:

  1. Cabanas de Tavira passou a ser a única localidade da costa sul que merece a minha aprovação durante o mês de Agosto; estando longe de ser um conhecedor da região e antiga província, continua a não me apetecer investir tempo e paciência na procura de outras alternativas;
  2. Pela primeira vez experimentei a sensação da soneca vespertina, já que qualquer outra actividade foi derrotada pelo calor; não obstante, continuo a preferir ver calhaus em locais notoriamente mais frescos e, quiçá, mais húmidos;
  3. Fiquei a saber que há um percurso ciclista bem marcado entre Vila do Bispo e Vila Real de Santo António, passando por locais muito interessantes como, por exemplo, as salinas de Tavira; bem coordenado, serão 6 ou 7 dias bem passados;
  4. A Reserva Natural do Sapal de Castro Marim tem um centro de interpretação amplo e de arquitectura moderna; curiosamente, a interpretação está limitada às horas normais de expediente, de segunda-feira a sexta-feira; será, talvez, limitado a turistas profissionais;
  5. A maior atracção do Aquashow são as centenas de modelos que passeiam reduzidos biquínis a toda a hora e em todas as direcções; estando geralmente em posição vertical e passando muito perto, quando não se encontram quase coladas à espera da sua vez para 15 segundos de adrenalina veloz, é uma óptima oportunidade para actualizar o catálogo mental de volumes e formas;
  6. As tendas familiares do tipo 5 segundos demoram mais de uma hora a montar; mas a maior dúvida que me deixaram foi a razão pela qual alguém sai do conforto do lar para ir ver “Laços de sangue” no parque de campismo.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

O meu clube, primeiro

Domingos Paciência é o primeiro treinador cuja contratação me agrada desde o saudoso Lazlo Boloni. Apesar de ainda não ter cabelos brancos, pelo menos que sejam visíveis na televisão, condição em meu entender quase determinante nos critérios de escolha. Ganhou todos os jogos a feijões realizados desde que foi para o Sporting. A saga acabou no de apresentação, derrota sem apelo nem agravo por três secos, com a caracterização dos últimos anos. Falta de concentração, falta de empenho e falta de criatividade. Foi bom ter acontecido nestas circunstâncias, será mau se não for corrigido para o primeiro jogo a sério.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Televisão em HD


Vi os episódios iniciais do Spartacus. Não porque a lenda me desperte atenção especial, apesar de ser interessado na cultura dos Romanos, uns tipos que foram capazes de construir uma catrefada de coisas grandes há dois mil anos atrás, tinham uma organização de fazer inveja a qualquer uma das sociedades ditas modernas e se deixaram cair de podre até terem um primeiro-ministro que mete o nosso anterior no bolso mais pequeno das calças, aquele onde em tempos se guardava o relógio.

Comecei a ver porque a publicidade mostrava uns corpos desnudos em atitudes provocantes, que não pornográficas. E, efectivamente, nos episódios iniciais as batalhas de sangue computorizado alternavam com períodos de bom erotismo sem cenas explícitas, de modelos de corpos perfeitos, elas certamente e eles acredito que sim. Até renovava a vontade antiga de ter vivido naquele tempo.

Com o passar dos episódios e pelo pouco que tenho visto, as cenas eróticas são cada vez mais breves, ao contrário das cenas de sangue ao bom estilo moderno de tudo criar virtualmente, cuja duração é proporcionalmente superior. Mas os corpos, senhores, esses continuam tão perfeitos que devem ser tratados pelo famoso programa que tornou a pele da Julia Roberts mais lisa do que a de um recém-nascido. Entre isso e os volumes firmes e reluzentes que cada vez mais se vêm nas praias, é cada vez mais difícil a vida de quem não consegue apreciar certa beleza sem se abstrair de toques artificiais.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Do que escrevo

Escrevo sobre tudo aquilo que me der na gana. Em tempos de outras escritas houve quem me reconhecesse vários eus, recordando o poeta grande dos heterónimos. Naturalmente, o único resquício de semelhança esgota-se na personalidade literária múltipla.

Aqui poderão aparecer considerações de índole política, económica, desportiva, turística, bem como disparates hiperbólicos relativos a um qualquer acontecimento. Também podem aparecer textos vagamente romanescos, piegas até, de longe a longe. E piadas parvas.